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19/11/2019 19:14 -03 | Atualizado 19/11/2019 19:15 -03

Parlamentar do PSL quebra placa de exposição do Dia da Consciência Negra na Câmara

Para integrantes da bancada da bala, a peça atribuía de forma “absurda” o genocídio da população negra aos policiais militares.

Divulgação
Charge do cartunista Carlos Latuff, que faz uma provocação ao genocídio da população negra no Brasil, foi arrancada de exposição pelo deputado Coronel Tadeu (PSL).

Na véspera do Dia da Consciência Negra, um parlamentar quebrou uma placa de uma exposição na Câmara dos Deputados que fazia relação entre violência policial e à população negra. O deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) arrancou e pisoteou um quadro ilustrado com uma charge do cartunista Carlos Latuff, que mostra um jovem negro algemado, caído no chão e um policial armado andando na direção contrária, com título “O genocídio da população negra”.

O texto da charge informava que os jovens negros são as principais vítimas da ação letal das polícias no Brasil e explicava também que a população negra é maioria no sistema carcerário do Brasil. O parlamentar fez filmou o momento em que quebra o quadro e divulgou nas redes sociais.

Na gravação, o deputado Coronel Tadeu afirma que é “claro que o racismo é crime”. E continua: “Coisa mais abominável hoje na sociedade brasileira e mundial. Isso é racismo, policial de boina preta, arma na mão, sujeito negro. Isso quer dizer o quê? Que a polícia só mata preto? Isso aqui não vai ficar na parede, Isso aqui é contra a polícia.”

Em seguida, ele arranca o quadro da parede e continua: “A polícia está para defender a sociedade. Um abraço para vocês, eu vou queimar esse cartaz que não deveria estar aqui”. Assista à gravação abaixo:

Mais cedo, outro deputado, Capitão Augusto (PL-SP), havia pedido à presidência da Casa a retirada da placa da exposição, com argumento de que retratava negativamente a figura do policial.

“Conforme se verifica do conteúdo da imagem, há a absurda atribuição da responsabilidade pelo genocídio da população negra aos policiais militares, prestando-se, assim, verdadeiro desserviço junto à população que trafega pelas dependências da Câmara, retratando negativamente o salutar papel dos policiais militares para a manutenção da ordem pública no nosso país”, reclamou o deputado.

O deputado afirma que “policiais militares, que todos os dias colocam suas vidas e de suas famílias em risco para garantir o bem estar dos nossos cidadãos, devem ser reconhecidos, privilegiados e valorizados”.

Em suas redes sociais, a também deputada Talíria Petrone (Psol-RJ), que é da oposição, publicou vídeo do momento em que Coronel Tadeu arranca a placa da exposição na Câmara dos Deputados.

Autor da charge, Carlos Latuff condenou a atitude do deputado que destruiu a placa. “Quando esse policial [o deputado é coronel] promove essa agressão, ele está confirmando a mensagem da charge. Está confirmando não só a violência policial, como a tentativa de censura de toda violência policial”, disse, em publicação nas redes sociais. “Vejo isso com zero surpresa, na verdade ele está confirmando a truculência da polícia brasileira.”

Para ele, “a censura é estúpida, idiota, justamente porque acaba promovendo a imagem”. “Se não tivesse nenhum incidente, seria mais uma exposição, no momento que tem esse ataque você acaba colocando holofotes sobre a imagem e sobre o tema da imagem.”

Parlamentares da oposição reagiram e vão apresentar uma denúncia no Conselho de Ética e na Procuradoria-Geral da República contra o deputado do PSL, por racismo.

A mostra intitulada (Re)existir no Brasil: Trajetórias Negras Brasileiras foi aberta nesta terça-feira (19) em referência ao Dia da Consciência Negra. Fica no corredor que liga o plenário da Casa aos anexos que ficam os gabinetes e as comissão e tem duração de um mês.

Também nesta terça, a Polícia Civil do Rio de Janeiro informou que a menina Ágatha Vitória Sales Félix, de 8 anos, baleada no Rio de Janeiro em 20 de setembro, foi morta por um policial militar. Ela foi atingida quando voltava para casa com a mãe, dentro de uma kombi, no Complexo do Alemão, na Zona Norte da cidade, durante uma ação da polícia militar. 

Violência policial no Brasil

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 10 de setembro deste ano, mostram que em 2018 policiais civis e militares em serviço ou não mataram 6.220 pessoas no Brasil. O número é o maior desde 2012, quando a série histórica passou a ser compilada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Ainda de acordo com os dados do anuário, a maioria da população morta é composta por homens (99,3%) e é negra (75,4%). O jovem negro com idade entre 15 e 29 anos é, em geral, a principal vítima, 54,8%.

Policiais também são vítimas da violência, mas em menor escalda. Em 2018, 343 policiais civis e militares morreram assassinados — 75% foram mortos fora de serviço. Do total, 97% das vítimas são homens e 51,5% negros. A maior parte (65,5%) com idade entre 30 e 49 anos.