COMPORTAMENTO
06/03/2019 14:39 -03 | Atualizado 06/03/2019 14:39 -03

Raiva é um dos sintomas da depressão que não recebe tanta atenção

"A raiva nunca é somente raiva. Ela sempre é sinal de que algo que não está funcionando direito."

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A raiva pode estar associada à depressão.

Quem já tomou uma fechada no trânsito ou deu uma topada no pé da mesa sabe como a raiva vai de zero a 100 bem rápido. Na maior parte das vezes, ficar bravo é só parte da natureza humana. Mas, em alguns casos, esse ódio constante pode ser sinal de algo mais profundo: depressão.

Um estudo de 2014 indicou que a raiva – tanto a explícita quanto a suprimida – na realidade é um sinal comum de depressão. Psicólogos sugerem que pessoas que têm dificuldade de lidar com o sentimento de ódio têm maior risco de vir a sofrer com a doença. Os especialistas descrevem essa doença como “a raiva direcionada a si mesmo”.

“Nem sempre parece depressão, mas pode ser”, explica a psicóloga Marianna Strongin, de Nova York.

Pesquisas também indicam que a raiva está associada com “maior severidade dos sintomas e pior resposta ao tratamento” quando ela faz parte de um quadro de depressão. É por isso que Strongin recomenda que quem achar que está sentindo mais raiva do que o normal procure ajuda.

“Pacientes dizem que perceberam, ou então seus amigos perceberam, que estão perdendo a calma com mais frequência”, diz ela. “Apesar de me procurarem para lidar com essa raiva, quando começamos a investigar, ela é um sintoma da depressão.”

Em vez de sensações de tristeza e vazio, que acreditamos ser os sintomas clássicos da depressão, algumas pessoas demonstram raiva quando estão deprimidas. Strongin afirma que muitas vezes é mais fácil ficar bravo do que ficar melancólico.

Segundo o National Institute of Mental Health, muitos dos estimados 16,2 milhões de americanos que vivem com depressão são mulheres entre 18 e 25 anos. Mas a psicóloga Sherry Benton diz que os homens exibem a raiva como sintoma com maior frequência.

“A tendência natural dessas pessoas é o isolamento”, afirma ela. “Com isso, vem a necessidade de se afastar dos outros. A raiva é um sintoma secundário disso, pois uma reação de ira em geral é uma maneira efetiva de manter as pessoas à distância.”

Aproximadamente 17% dos homens vai ter episódios de depressão aguda pelo menos uma vez em suas vidas, e os homens têm 4 vezes mais probabilidade de morrer por suicídio, em comparação com as mulheres, segundo um estudo da Harvard Medical School.

Mas isso não significa que mulheres não sintam raiva como um dos sintomas da depressão. Elizabeth, uma artista que pediu para que seu nome não fosse revelado, recebeu diagnóstico de depressão quando tinha 19 anos, e um dos sintomas era a ira. Ela percebeu que as coisas estavam saindo do controle quando perdeu a calma com um colega durante uma reunião e quando quebrou a janela da casa de um ex-namorado.

“Minha mãe tinha comentado que eu parecia nervosa e que eu ‘deveria fazer alguma coisa a respeito’”, diz Elizabeth, 29 anos. “Acho que eu considerava depressão um sinal de fraqueza, mas mudei minha opinião completamente.”

Elizabeth controlou a doença e a ira com uma combinação de antidepressivos e um estilo de vida mais saudável.

“Comecei a ir a aulas de ioga quando estava mal de depressão, há cerca de um ano, e com certeza tenho mais consciência do meu corpo e da minha respiração. Isso me ajuda a superar os episódios [de depressão]”, afirma ela.

A raiva nunca é somente raiva. Ela sempre é sinal de que algo que não está funcionando direito.Mariana Strongin, psicóloga
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Conversar com psicólogos ou psiquiatras pode ajudar a administrar a depressão e seus sintomas.

Além de remédios, exercícios de respiração e exercícios, Strongin afirma que escrever um diário pode ajudar a controlar a raiva e chegar às causas mais profundas da depressão. Ela recomenda que seus pacientes escrevam seus sentimentos negativos e procurem provas de que o que estão dizendo é verdade.

“Se o sentimento é ‘não sou bom o suficiente’, eu perguntaria ‘como não?’”, afirma ela. “Quando você tem insegurança, procure as respostas.”

Mas, a despeito das ferramentas que sejam úteis para você, o primeiro passo é procurar ajuda. Conversar com psicólogos ou psiquiatras pode ajudar a administrar a depressão e seus sintomas.

“A raiva nunca é somente raiva”, diz Strongin. “Ela sempre é sinal de que algo não está funcionando direito.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.