Tamo Junto

Meu namorado tem depressão, e agora?

Um guia para manter a calma e ajudar seu amor de forma saudável sem descuidar de você.
A depressão pode minar um relacionamento; por isso, o acolhimento ao outro e o autocuidado devem caminhar juntos.
A depressão pode minar um relacionamento; por isso, o acolhimento ao outro e o autocuidado devem caminhar juntos.

“Em alguns dias nos falamos com o corpo; ela precisa de silêncio para se organizar e a paciência é a alma da relação. Dou bastante suporte, sempre tento saber como ela está e se quer a minha presença. Às vezes, ela parece estar em outro planeta, não me responde e eu fico muito aflito. Quando finalmente fala, mostro como estou feliz por poder conversar com ela, porque a amo e quero saber se ela está bem. Já tive depressão, o que torna muito mais fácil entender a confusão que se passa em sua cabeça, os pensamentos acelerados e a lógica quase sem nexo para a maioria das pessoas. Sei exatamente como é e consigo perceber que ela fica mais tranquila por saber que entendo o que ela está vivendo.”

O depoimento acima é do analista de suporte técnico Rodrigo Castellano. Poderia ser apenas mais um relato sobre o dia a dia de um casal, não fosse um detalhe. Em 2011, Patricia Teixeira, sua companheira há 3 anos, recebeu o diagnóstico de depressão.

Desde então, Teixeira começou a observar com mais atenção como a doença impacta em seus relacionamentos. De acordo com ela, a depressão faz você sentir que está errado a todo momento e que nada do que você faz é o suficiente.

Por isso, ter um companheiro que tenha empatia e entenda o seu contexto é primordial para que a pessoa não se afunde ainda mais na doença.

“Estar em um relacionamento pode ser perigoso para as pessoas que convivem com a depressão. Isso porque você se torna um alvo fácil para relacionamentos abusivos”, explica Teixeira. “Para quem tem depressão, sentir que não está sozinho é um santo remédio”, define.

A depressão faz o paciente achar que está errado o tempo todo.
A depressão faz o paciente achar que está errado o tempo todo.

Para lidar com a depressão, primeiro é preciso entendê-la

No Brasil, a depressão atinge cerca de 5,8% da população, de acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde). Porém, falar sobre o tema ainda é um tabu.

Para muitos, a depressão está associada à ideia de “falta de coragem”. Como se a doença fosse mais um “estado de espírito” do que um desequilíbrio do nosso corpo, literalmente. Isso, associado ao preconceito e à desinformação, leva as pessoas a se calarem sobre os desafios enfrentados durante uma crise.

A estudante Mariana Pereira*, de 19 anos, namora há 5 anos o jovem Pedro Henrique Castro, de 20. Em 2018, Castro foi diagnosticado com depressão, e a estudante passou a refletir bastante sobre como reconhecer a doença foi importante para o casal.

“Nosso relacionamento é como pisar em ovos. Tenho medo de dizer coisas que piorem a situação dele. Faço de tudo para ser uma boa companhia. Quando ele me contou da depressão, me senti culpada por diversas vezes ter sido grossa e pelas coisas que falei sem pensar. Em partes, acreditava que a culpa do diagnóstico dele era minha”, conta Pereira.

A estudante conta que, apesar da necessidade de acompanhamento psicológico, o namorado ainda resiste ao tratamento.

“Recentemente, com o aumento das crises, ele decidiu contar para a família. Eu quero ajudá-lo de todas as formas, mas entendo que não tenho os mesmos recursos de um profissional. Ele precisa melhorar e não acho que vá conseguir só com a minha ajuda”, opina.

Definida pela OMS como um transtorno mental frequente, a depressão pode se mostrar de várias formas, como na perda da capacidade de começar novas atividades e em uma tristeza e apatia ao experimentar situações que, em condições normais, poderiam estimular satisfação e prazer. Os sintomas físicos também podem surgir, como a perda de apetite, a diminuição da libido, dores no corpo ou até mesmo desarranjos intestinais.

Além disso, o psicanalista Christian Dunker explica que a depressão se mostra de maneiras distintas em homens, mulheres, crianças e adultos, podendo ser confundida ou mascarada com uma série de outros transtornos.

“O humor da pessoa muda e, no geral, ela se torna mais agressiva e reativa”, descreve o psicanalista.

Nem sempre seu parceiro vai estar bem; e tudo bem você ficar triste com isso

Não é possível colocar os diversos espectros da depressão em apenas uma caixinha fechada de estereótipos. “Alguns [pacientes] falam da descontinuidade da vida, já em outros o humor muda e a pessoa pode estar muito contente em um momento e mal no outro. Assim, a depressão pode ser uma espécie de dor intensa, com pensamentos de tristeza permanente”, compara Dunker.

Mas pouco se fala dos sentimentos de quem convive e mantém um relacionamento com alguém que foi diagnosticado com a doença. De acordo com Dunker, em muitos casos, o depressivo não responde exatamente como se espera “ao reconhecimento, amor e carinho que sentimos por ele”.

“Com isso, quem está em um relacionamento acaba envolto ao sentimento de que está dando mais do que recebe e, com o tempo, essa pode ser uma relação que vai se desgastar pelo saldo da falta de reconhecimento”, completa.

Caminhar junto é importante para conseguir superar um quadro de depressão.
Caminhar junto é importante para conseguir superar um quadro de depressão.

As crises acontecem e nada disso é sua culpa

Talvez este seja o maior desafio de um relacionamento: entender até que ponto um indivíduo tem responsabilidade e efeito sobre os sentimentos e os comportamentos do outro. No caso da depressão, isso é ainda mais desafiador.

É comum que em momentos de crise depressiva, o parceiro precise de espaço. É claro que é importante estar perto e acompanhar o seu companheiro, mas, sobretudo, é importante respeitar o tempo da outra pessoa — e a transformação necessária para que ela enfrente aquele período tortuoso.

Nem sempre vai ser fácil, mas é importante entender que essas situações fazem parte da doença e que você não tem culpa disso. A estudante Mariana Pereira, por exemplo, encontrou no distanciamento uma maneira de se proteger.

“Quando rolam as crises, tento acalmá-lo ao máximo, mas às vezes ele explode e eu não consigo ajudar. Não tenho paciência para tudo. Entendo que ele não tem culpa, mas não consigo absorver sozinha. Nesses momentos, me afasto e tento me acalmar de outras formas”, conta.

Já para Daniela Silva, de 22 anos, o segredo em momentos de crise é não se desesperar. Ela conta que a sua namorada Larissa Mariano, 21 anos, tem crises de ansiedade recorrentes, mas que nem sempre ela consegue estar por perto para ampará-la.

“Me sinto como se não pudesse ser útil em nada. O que tento fazer é falar sobre algo que a deixe mais tranquila, que a faça bem e feliz. Às vezes funciona, às vezes não, mas seguimos trabalhando para que um dia isso possa passar”, relata.

Larissa Mariano conta que as tentativas de acolhimento de sua namorada funcionam, já que toda vez que ela tem dificuldades para dormir, por exemplo, ou enfrenta uma situação grave de ansiedade, ela liga para Daniela e as duas ficam conversando por um tempo.

“É algo rotineiro, mas que me dá forças. Viver este relacionamento para mim é saber que tenho alguém o tempo todo e saber que não preciso passar por isso sozinha”, reflete.

Mas como lidar com o sentimento de culpa de nunca ser bom o suficiente para o seu parceiro, que não está bem?

O psicanalista Christian Dunker explica que é muito importante não deixar que esse tipo de pensamento seja uma constante.

“Em situações assim, reconhecer que a depressão tem uma força autônoma é muito importante para conseguir produzir alguns distanciamentos que são necessários e que façam aquela dupla seguir. É muito ruim quando um dos parceiros se acaba para que o outro consiga se reconstruir”, conclui.

Com ajuda do psicanalista Christian Dunker e do psicólogo Vitor Friary, preparamos um guia para lidar com os efeitos da depressão em seu relacionamento:

Como posso ajudar meu parceiro que tem depressão?

  • Note os sinais. Preste atenção no comportamento do outro e conversem sobre os sentimentos. Caso seu parceiro se sinta desanimado por longos períodos, tenha pensamentos negativos recorrentes, não queira seguir em frente ou fazer coisas que antes lhe davam prazer, atente-se.
  • Não subestime o outro! Muitas vezes a depressão é confundida com a tristeza. Por isso, as pessoas subestimam as consequências incapacitantes da doença. Para quem convive com a depressão, por exemplo, levantar da cama e tomar um banho podem ser desafios enormes.
  • Incentive que o seu parceiro busque a ajuda de um profissional. Pode ser um terapeuta ou um psiquiatra.
  • Como a sociedade pode colaborar? Falar sobre o problema, com uma psicoeducação sobre a depressão, já ajuda milhares de pacientes a passarem pelo processo de uma maneira mais confiante.

E como eu posso me ajudar?

  • Tenha cuidado com o sentimento de pena e o que ele pode desenvolver em você;
  • Estude e entenda mais sobre as oscilações de humor do seu parceiro e saiba reconhecer certos padrões de comportamento e como eles te afetam;
  • Não seja extremamente tolerante com a agressividade e a autopiedade;
  • Respeite os seus limites;
  • Cuide de si para poder cuidar do outro: pratique alguma atividade física, exercite a mente e se sinta bem na sua própria pele;
  • Quando perceber que deixou de se cuidar e se priorizar, volte e analise a situação.

(*O nome da fonte foi alterado para manter o anonimato.)

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 188, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar uma base de dados com redes de apoio disponíveis.