COMPORTAMENTO
23/08/2019 02:00 -03 | Atualizado 23/08/2019 02:00 -03

O que ser ativista pode causar na sua saúde física e mental

Cinco anos atrás, jovens negros em Ferguson mudaram o mundo e deram início ao movimento #BlackLivesMatter. Mas isso teve um alto custo.

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Há cinco anos, no dia 9 de agosto de 2014, um policial branco chamado Darren Wilson matou a tiros um adolescente negro desarmado em Ferguson, no Missouri.

Os relatos sobre o que aconteceu com o jovem Michael Brown variam, mas as notícias do dia confirmam que Wilson disparou pelo menos seis tiros contra Brown, sendo que dois deles o acertaram na cabeça. O corpo ensanguentado do jovem ficou jogado na calçada de uma rua residencial por quatro horas, em plena luz do dia.

Seguiram-se semanas de manifestações, vigílias e protestos. Esses protestos acabaram virando revoltas, com os policiais militarizados de um lado e moradores negros indignados do outro.

Vimos então uma discussão sobre raça que se espalhou pelo mundo e desencadeou um movimento em favor das vidas negras, que continua até hoje.

Antonio French, 40 anos, ex-vereador e hoje empreendedor social, disse ao HuffPost: “Na época, eu era vereador eleito de St. Louis City. Meu gabinete ficava pertinho da rua onde Mike Brown foi morto. O corpo dele estava no chão quando cheguei, e eu fiquei lá em Ferguson por quase dois meses.”

“Eu não fazia ideia, nem ninguém fazia, que a coisa ia assumir as dimensões que assumiu ou durar tanto tempo. Nunca antes tínhamos visto aquele nível de força usada pela polícia.”

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Os manifestantes em Ferguson sofreram altos níveis de violência por parte de policiais, incluindo gás lacrimogêneo.

Manifestações públicas pacíficas se tornaram violentas quando policiais invadiram a cidade usando uniformes camuflados, equipamentos anti-manifestações, coletes à prova de balas e máscaras de gás.

Eles estavam armados com veículos militares, fuzis, gás lacrimogêneo, balas de borracha, balas convencionais e granadas de dispersão.

Em questão de dias o governador do Missouri declarou estado de emergência, foi imposto um toque de recolher e a Guarda Nacional do Missouri foi deslocada para Ferguson.

Dezenas de manifestantes foram detidos e presos durante aqueles dias do final do verão.

Uma segunda onda de protestos e agitação começou em novembro naquele ano, depois de um grande júri ter optado por não indiciar o policial responsável pela morte de Brown.

Com 25 anos de idade, tive que me perguntar se eu estaria conformada a morrer. Porque houve inúmeros momentos em que pensei ‘talvez a gente não consiga sobreviver a esta noite’.Johnetta Elzie, manifestante de Ferguson

“Enfrentei tudo isso dia e noite, o gás lacrimogêneo, todos os protestos, toda a atividade tarde da noite, mesmo quando as coisas ficaram violentas, perigosas e destrutivas”, contou French. “Eu me posicionei entre saqueadores e os alvos deles, tentando manter a calma, tentando manter distância entre a polícia e as multidões furiosas. Fui detido, passei noites na cadeia. Foi um período muito agitado.”

“Essas coisas são traumáticas”, recordou Johnetta Elzie, manifestante e redatora que hoje tem 30 anos. “Com 25 anos de idade, tive que me perguntar se eu estaria conformada a morrer. Porque houve inúmeros momentos em que pensei ‘talvez a gente não consiga sobreviver a esta noite’. Você convive com o medo constante. Que tipo de efeito isso tem sobre uma pessoa que enfrenta isso o tempo todo?”

É uma pergunta válida. Esse nível de ativismo angustiante e de exposição à violência pode cobrar um preço alto do corpo e mente de manifestantes.

Reações

A 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais descreve o trauma como a exposição ou vivência do perigo de morte, violência ou ferimento grave. Isso pode ocorrer quando uma pessoa sofre um acontecimento traumático, quando é testemunha dele ou toma conhecimento dele.

“Ser exposto ao que chamaríamos de violência comunitária e depois ver a polícia basicamente adotando uma postura militar na comunidade, isso é uma experiência altamente traumática”, disse a psicóloga Tammy Lewis Wilborn, dona e diretora clínica da Wilborn Clinical Services, de Nova Orleans.

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"Um grande conjunto de evidências sugere que a exposição ao trauma e o TEPT estão ligados ao aparecimento de uma gama grande de problemas de saúde física no futuro”, disse a Dra. Jennifer Sumner.

A psicóloga Jennifer Sumner, professora na Universidade da Califórnia em Los Angeles, explicou que quando uma pessoa vive o tipo de trauma que ocorreu em Ferguson, isso pode colocar em risco seu senso de segurança.

“A exposição a esse tipo de violência em seu bairro pode levar as pessoas a se sentirem muito inseguras”, ela explicou. “A pessoa participa de protestos e vê outras pessoas sendo atacadas pela polícia, além de outros tipos de violência. Isso é um trauma grave e pode desencadear transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).”

E não é necessariamente preciso ter estado presente durante a ocorrência para apresentar sintomas de transtorno de estresse pós-traumático.

“Sabemos que a exposição a eventos traumáticos, especialmente por meio da televisão ou internet, pode desencadear sintomas de TEPT”, disse a psicóloga clínica Sarah Lowe, professora de ciências sociais e comportamentais na Escola de Saúde Pública da Universidade Yale. “Outros profissionais médicos defendem uma definição ampliada que abranja coisas como experiências de discriminação, microagressão, sexismo, racismo, homofobia, etc.”

Efeitos prolongados

A exposição a traumas como violência policial, discriminação racial, microagressão e imagens constantes de destruição nos noticiários pode gerar algumas repercussões físicas graves, que em alguns casos podem colocar sua vida em risco.

“Há um conjunto amplo de evidências que sugerem que a exposição a traumas e o TEPT estão ligados ao desenvolvimento de uma gama grande de problemas de saúde física no futuro”, disse Sumner.

“Doenças crônicas do envelhecimento, como doenças cardiovasculares, como sofrer um infarto, sofrer um derrame. Coágulos sanguíneos nas veias. Todos esses problemas estão ligados ao trauma e ao TEPT. As pessoas correm o risco de desenvolver diabetes ou até demência no futuro.”

A saúde física de ativistas também corre riscos no curto prazo.

“A pessoa está no campo de batalha, e estamos começando a observar consequências de longo prazo como enxaquecas, hipertensão e perturbações do sono”, comentou Wilborn.

“Especialmente se as pessoas tiverem visto certas coisas em primeira mão, elas podem sofrer flashbacks. Algumas pessoas apresentam a reação de susto – ficam trêmulas, se assustam facilmente, não conseguem se acalmar.”

Os manifestantes em Ferguson enfrentaram o risco constante de gás lacrimogêneo, que pode provocar queimaduras oculares graves e dificuldades respiratórios. Se uma pessoa é atingida por uma lata de gás lacrimogêneo, pode até sofrer fraturas e hemorragia interna.

A exposição prolongada a esse tipo de violência também pode exercer efeitos de longo prazo sobre a psique.

A pessoa mergulha em um estado que lembra uma zona de guerra.Dra. Sarah Lowe, falando dos distúrbios em Ferguson

“No caso de alguém que foi muito afetado pela violência que vimos em Ferguson por três semanas inteiras ou até vários meses, ela mergulha em um estado que lembra uma zona de guerra”, disse Lowe. “Sabemos que pessoas que vivenciam esse tipo de trauma correm risco maior de sofrer depressão, ansiedade, pensamentos suicidas, uso de drogas ou álcool, problemas de relacionamento, dificuldades financeiras.”

Elzie e French sofreram muitos desses problemas de saúde na própria pele.

“Foi uma fase estressante”, contou French. “Eu não conseguia dormir muito. Você imediatamente vira alvo de pessoas no Twitter, racistas, pessoas lançando ameaças de morte. Devo ter recebido duas dúzias de ameaças de morte naquele período. Perdi muito peso durante os acontecimentos em Ferguson; mais tarde, ganhei peso. Antes de Ferguson eu não tinha pelos grisalhos na minha barba, mas três meses depois de Ferguson isso mudara completamente. Em três meses parecia que eu havia envelhecido cinco anos.”

Elzie disse que diante das reações agressivas que ela enfrentou em resposta a seu ativismo, ficou mais difícil cuidar de seu bem-estar mental e físico.

“Durante aquele tempo todo fiquei correndo sem parar, viajando, participando de passeatas e fazendo discursos. Foi uma coisa muito mais desgastante fisicamente do que eu pensei que seria”, ela comentou. “Aquilo tudo vai se somando. Minha ansiedade chegou a um nível altíssimo. Meu médico falou ‘você precisa mudar alguma coisa na sua vida, porque se continuar no ritmo que você está, vai sofrer um problema de saúde’.”

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"Mesmo depois de desligar seu ativismo, você ainda tem que lidar com sua experiência pessoal do trauma que decorre de viver como pessoa negra na América”, disse a Dra. Tammy Lewis Wilborn.

Traumas

É claro que a experiência dos negros na América é marcada desde sempre por traumas e violência física e psicológica. Os negros e outros grupos minoritários sentem os efeitos do trauma mental e físico mesmo que nunca tenham estado na linha de frente de um protesto.

“A questão é o seguinte: os negros têm uma história coletiva compartilhada, algo chamado escravidão”, disse Wilborn. “Hoje entendemos a escravidão como um trauma geracional. Essa experiência deixou uma marca não apenas em termos de história social, política, cultural, financeira e física – também deixou um trauma na fisiologia e psicologia das pessoas negras.”

“Mesmo depois de se afastar do seu ativismo – vamos fingir que isso acontece ―, você ainda é negro”, disse Wilborn. “Você ainda precisa lidar com sua experiência pessoal do trauma que decorre de viver como pessoa negra na América. Você não tem a opção de se afastar disso.”

O mesmo racismo sistêmico que pode ser um gatilho de trauma pode se constituir em uma barreira à cura.

Existem poucos profissionais de saúde mental que não sejam brancos, e as pessoas negras enfrentam muitos outros obstáculos culturais e financeiros que dificultam seu acesso a tratamento apropriado.

“Quando vamos a esses espaços médicos buscar assistência, ela nos é oferecida carregada de viés e preconceito”, disse Wilborn. “Por isso, nem sempre nos mandam fazer os exames corretos, nem sempre nos fazem as perguntas corretas. Nem sempre temos condições financeiras para pagar pelo tratamento necessário. Isso tudo gera um ciclo perpétuo de trauma.”

Esta é uma luta muito prolongada na qual nos engajamos. Você precisa levar as coisas com calma, tirar em tempinho, cuidar do corpo, da saúde e tudo isso.Antonio French, manifestante em Ferguson

Vidas e as mentes negras importam

Desde a morte de Michael Brown, muitos outros negros – homens, mulheres, crianças – foram mortos pela polícia ou morreram sob custódia policial, entre eles Eric Garner, Freddie Gray, Philando Castile, Tamir Rice e Sandra Bland.

Embora Ferguson já tenha deixado de aparecer nas manchetes nacionais, a violência, o racismo e a morte continuam a assolar a cidade.

Nos últimos cinco anos, pelo menos seis homens ligados aos protestos já morreram, dois de suposto suicídio e todos sob circunstâncias suspeitas que apenas intensificam a tensão racial na região.

Apesar dos riscos à sua saúde física e emocional, French, Elzie e muitos outros manifestantes de Ferguson estão levando adiante o trabalho que começaram.

Juntamente com o também manifestante em Ferguson e morador de Baltimore DeRay Mckesson, Elzie lançou uma campanha não violenta pelos direitos civis intitulada This Is The Movement (Este É O Movimento).

French começou a publicar dois jornais online voltados à vida comunitária em St. Louis. Outros manifestantes de Ferguson passaram a prestar serviços públicos ou se envolveram em manifestações do movimento BlackLivesMatter em todo o país.

“Mesmo com as consequências negativas para nossa saúde, enxergamos o lado positivo de assumir uma posição, porque as pessoas estão lutando por seus ideais e protegendo a vida de outros”, disse Sumner. “Acho que a resposta não é parar completamente com o ativismo. É fundamental cuidar de si mesmo. Você luta com fervor pelas causas que defende e você precisa lutar com o mesmo fervor para cuidar de si mesmo.”

Enquanto você está aí fora mostrando ao mundo que as vidas negras têm importância, também precisa priorizar sua própria vida. Sua própria vida tem importância.Dra. Tammy Lewis Wilborn

No mês passado, o deputado estadual pelo Missouri Bruce Franks Jr. – ativista e manifestante durante os distúrbios em Ferguson – anunciou que vai renunciar a seu cargo político para lidar com a ansiedade e depressão que o afetam.

Nos anos passados desde Ferguson, também Elzie e French vêm cuidando de sua saúde mental.

“Eu comecei a procurar ajuda e a fazer terapia”, contou Elzie. “Isso está me ajudando muito. Deletei o Twitter e o Facebook. Limito as coisas que me mobilizam e que afetam minha saúde mental. Adoro passar tempo com meus amigos, curto um bom vinho. Estou tentando relaxar.”

Enquanto isso, French resolveu tirar um tempo longe do serviço público.

“Esta é uma luta muito prolongada na qual nos engajamos”, ele explicou. “Você precisa levar as coisas com calma, tirar um tempinho, tirar férias curtas se for preciso, se você estiver nesta luta pelo longo prazo. É como uma maratona. É preciso levar tempo, cuidar do corpo, da saúde e tudo isso.”

Também os especialistas ressaltam a importância de cuidar do corpo e da mente e, quando é preciso, tirar uma folga do trabalho árduo de lutar por uma causa. Nem por isso você será menos ativista.

“A luta vai continuar, quer você participe dela ou não. Mas também sabemos que, enquanto você está aí fora mostrando ao mundo que as vidas negras têm importância, também precisa priorizar sua própria vida”, disse Wilborn. “Sua própria vida tem importância.”

“Não deixe de colocar sua própria máscara de oxigênio primeiro. Se você não estiver se cuidando bem, com certeza não vai estar fazendo bem à comunidade, porque ela ainda precisa de você. Precisamos de você em nossas famílias, precisamos de você no trabalho, nos relacionamentos. Se você morrer de trauma e estresse, como ficará a justiça?”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.