MULHERES
07/07/2020 04:00 -03 | Atualizado 17/07/2020 10:29 -03

Por que o isolamento social aumenta a preocupação com a saúde mental das novas mães

A recomendação para as mulheres que deram à luz recentemente é não esperar o check-up de 6 semanas para buscar ajuda.

Quando Amanda Munday voltou para casa depois do parto de apresentação pélvica de sua filha, ela estava exausta – física e emocionalmente. Não é à toa: quatro horas depois de dar à luz, ela recebeu alta do hospital. Munday, 36, lembra claramente das primeiras semanas de maternidade: “Não conseguia dormir. Comecei a me sentir muito ansiosa, achando que a bebê ia morrer. Aí comecei a dizer pra mim mesma: ‘Se ela morrer, me mato’”, disse Munday ao HuffPost Canadá.

Apesar de não saber na época, ela estava passando por depressão pós-parto. As noites maldormidas, a ansiedade, a falta de apetite e os temores em relação à saúde duraram nove dias, até que “os pensamentos eram tão altos na minha cabeça que fui internada involuntariamente na ala psiquiátrica de um hospital de Toronto, com depressão pós-parto”, afirmou ela. Munday passou 18 dias internada. “Na maior parte do tempo eu implorava pra me deixarem ir para casa, e ao mesmo tempo eu dizia que não tinha certeza se estava pronta para ser mãe. A sensação de fracasso era enorme.”

Edward Carlile Portraits via Getty Images
A preocupação com a saúde mental das novas mães aumentou durante a pandemia.

Segundo uma pesquisa da Statistics Canada de 2018-2019, quase um quarto das novas mães relataram sintomas consistentes com a depressão pós-parto ou transtorno de ansiedade. A realidade de tornar-se mãe tem impacto significativo na saúde mental, e não se faz o suficiente para detectar e intervir nesses casos. Muitas mães se sentem que o sistema de saúde as deixa na mão.

O ajuste à vida pós-parto

Katie Hurst, enfermeira especializada em maternidade, estudou o tema da depressão pós-parto, especificamente o apoio social às novas mães. Ela descreve vários fatores de risco que podem desencadear a doença, incluindo isolamento social e a sensação opressiva de estar sobrecarregada.

“A nova identidade de mãe, o ajuste a essa nova realidade e também às mudanças nos relacionamentos sociais” muitas vezes contribuem para que a mulher sofra de depressão pós-parto, afirmou Hurst ao HuffPost Canadá. Ela também observa que muitas mães ficam chocadas com as mudanças no relacionamento com os parceiros íntimos depois do parto. A sensação de não ter com quem conversar pode aumentar a ansiedade.

O que elas estão passando não é de maneira alguma um reflexo de seu valor ou sua capacidade de ser mãe.

“As emoções eram intensas demais”, disse Maria Lianos-Carbone sobre a experiência do primeiro filho. Ela lembra de se perguntar: “Como uma mãe que acaba de dar à luz pode sentir tanta tristeza?”. “Quando segurei meu bebê, senti muito amor e orgulho, mas tudo estava misturado com frustração e preocupações”, disse ela.

Lianos-Carbone afirma que esses sentimentos perduraram por muito tempo depois de ela voltar para casa. Depois de várias semanas, percebi que aquela tristeza não ia embora. Senti uma pressão enorme para ser essa mãe incrível e autossuficiente, que capaz de dar de mamar a qualquer instante, entreter as visita e recuperar rapidamente o corpo pré-gravidez.”

O check-up de 6 semanas pode ser tarde demais para mães sofrendo de depressão pós-parto ou ansiedade. Com sua experiência trabalhando com novas mães, Hurst notou que as mães solteiras ou aquelas sem uma boa rede de apoio correm maior risco de não reconhecer os sintomas do problema.

Cuidar do recém-nascido e da recuperação da mãe, tenha sido o parto normal ou cesariana, dá muito trabalho. E ambos também exigem esforço físico”, afirmou ela. “Muitas vezes, essas são as prioridades, e o lado da saúde mental/emocional fica em segundo plano.”

Depressão pós-parto e ansiedade durante a pandemia

A pandemia só está piorando as coisas para as novas mães quando se trata de saúde mental. Uma pesquisa realizada entre abril e maio passados com 520 grávidas e 380 mães que haviam dado à luz nos últimos 12 meses (em sua maioria canadenses) indicou um aumento dos relatos de depressão, de 15% para 40,7%, respectivamente antes e depois do início da pandemia. Os índices de ansiedade também aumentaram muito: de 29% para 72%.

Com as medidas de isolamento e distanciamento social, é particularmente importante que as mulheres que tenham depressão pós-parto ou ansiedade busquem um especialista para obter diagnóstico e eventuais tratamentos. 

Hurst alerta que é melhor buscar um profissional especializado antes de procurar apoio na internet. “Esses grupos online podem ser uma boa rede de apoio depois [de consultar um especialista], especialmente nas primeiras semanas, quando sair de casa é mais difícil”, acrescentou ela.

O mais importante para as novas mães é lembrar que o que elas estão passando não é de maneira alguma um reflexo de seu valor ou sua capacidade de ser mãe. É algo temporário, tratável e comum – elas não precisam enfrentar sozinhas a depressão pós-parto e a ansiedade.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canada e traduzido do inglês.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost