ENTRETENIMENTO
17/02/2020 02:00 -03

9 filmes do festival Sundance que você vai querer ver em 2020

Entre os principais, estão um drama com Carey Mulligan, um sobre a cantora St. Vincent e um sobre uma thread no Twitter que viralizou.

Illustration: Rebecca Zisser/HuffPost; Photos: Sundance Institute
"Shirley", "Promising Young Woman", "The Nowhere Inn" e "Zola" estiveram entre os sucessos deste ano em Sundance.

A discussão que circulou pelo Festival Sundance de Cinema (o primeiro grande festival de 2020) retorna sempre às mesmas perguntas: os filmes independentes deste ano são bons de verdade, ou será que o cinema dos grades estúdios é que morreu?

Em termos do que é bom para Sundance, um filme é de alta qualidade quando nos provoca um senso de descoberta. Quando não há nada tão singular e eletrizante quanto Pequena Miss Sunshine (2006), Indomável Sonhadora (2012), Boyhood – Da Infância à Juventude (2014) ou The Farewell (2019), o festival todo pode ser decepcionante. É o que acontece especialmente quando o evento dedica uma parte tão grande de sua programação a títulos que já foram abocanhados por serviços de streaming.

Os filmes mostrados no maior cinema de Park City, em Utah, no dia 23 de janeiro, foram Crip Camp e Taylor Swift: Miss Americana, dois documentários da Netflix que usaram Sundance como pouco mais do que uma plataforma de lançamento. Enquanto isso, as maiores manchetes foram reservadas para a série documental sobre Hillary Clinton que vai estrear no Hulu - plataforma que não está presente no Brasil - em março. O cinema não morreu, longe disso, mas tampouco está parecendo especialmente vivo.

Mas mesmo sem uma ou duas descobertas tremendas em Sundance de 2020, ninguém pode dizer que não houve algumas joias espalhadas no meio da programação do festival, que durou 11 dias.

Na realidade, eu assisti a mais acertos do que erros, se bem que não tenham faltado trabalhos que possam ser classificados nessa última categoria (WendyThe GloriasNine Days). Com certeza vamos falar mais sobre Promising Young WomanMinariZola e outros filmes nos próximos meses. E uma parcela recorde de 46% dos filmes da competição foi dirigido por mulheres.

Uma coisa divertida que aconteceu no festival: a Neon e Hulu acrescentaram 69 centavos ao preço de Palm Springs, US$17,5 milhões, desse modo permitindo que a comédia de Andy Samberg superasse O Nascimento de Uma Nação, de 2016, para tornar-se a aquisição mais cara na história do festival. Em meio aos dilemas existenciais que percorreram as montanhas de Utah, alguém pelo menos mostrou que tem senso de humor. Infelizmente eu não pude assistir a Palm Springs, então não sei avaliar se o filme mereceu essa soma polpuda.

Veja os melhores entre as dezenas de filmes que consegui ver, começando com dois que brilharam mais.

Os destaques de Sundance 2020:

O melhor filme do festival: Promising Young Woman

Divulgação

Se um filme mais eletrizante que esse estrear no primeiro semestre de 2020, será um milagre. O ousado e instigante Promising Young Woman é o tipo de coisa que Hollywood deveria fazer o tempo todo – um tratado sobre vingança, tremendamente divertido e que avança de um susto para outro. Ainda mais espantoso é o fato de ser o trabalho de estreia da diretora. Emerald Fennell comandou a segunda temporada da série Killing Eve e foi atriz em Call the Midwife e The Crown, mas este filme parece a obra de alguém que já tem meia dúzia de filmes anteriores em seu currículo. Saí do cinema atordoado.

O tema soa difícil, e em alguns momentos é. A mulher jovem e promissora em questão é Cassie Thomas (Carey Mulligan), que é sofisticada, tem 29 anos, trabalha num café e ainda vive com seus pais (Jennifer Coolidge e Clancy Brown). Por razões complexas, Cassie converteu um esquema complexo de vingança em seu passatempo favorito.

Fazendo de conta que está bêbada, ela se deixa levar para o apartamento de homens mal intencionados, sabendo que eles vão ultrapassar os limites do consentimento. Antes de eles irem longe demais, Cassie mostra que, na realidade, está muito sóbria e deslancha joguinhos mentais que os expõem como sendo os degenerados que são. Mas esse é apenas o começo de sua história. É melhor não revelar o que vem a seguir. Fennell vai desvelando a história de Cassie aos poucos e ampliando o mundo dela, incluindo um pretendente novo e charmoso que põe à prova a aversão que ela sente pelo romantismo.

Diante dessa sinopse, você talvez se surpreenda ao ouvir que Promising Young Woman é tão hilário quanto enfurecido. Quanto mais o filme se prolonga, mais ele subverte o rumo que você imagina que vai seguir.

Fennell, que também escreveu o roteiro, não se satisfaz com noções concretas de heroísmo e vilania. Algumas de suas escolhas mais ousadas serão polarizadoras, mas é exatamente isso o que torna este filme tão irresistível.

Ele é imprevisível, seu elenco foi escolhido com inteligência (fique atento para toda uma sucessão de atores sedutores como Adam Brody, Max Greenfield e Sam Richardson), tem uma trilha sonora em que se destacam Stars Are Blind, de Paris Hilton, e um cover instrumental pungente de Toxic, de Britney Spears. Não vejo a hora de assistir de novo. E de novo. E de novo.

Segundo colocado na categoria melhor do festival: Dick Johnson Is Dead

Divulgação

O mundo não está louco para ver filmes sobre a morte – a não ser que sejam tão criativos, iluminadores e comoventes quanto Dick Johnson Is Dead. A documentarista Kirsten Johnson (Cameraperson) direciona a câmera sobre seu pai, um senhor animado de 86 anos cuja memória enfraquecida o força a se aposentar de seu trabalho de psiquiatra e ir viver com sua filha.

A premissa soa melancólica, mas os resultados são tudo menos isso. Na realidade, este talvez tenha sido o filme mais divertido de Sundance. Explorando os contornos da mortalidade, a dupla Johnson, pai e filha, encontra o humor em todo lugar, desde um féretro por US$ 666 até a obsessão potencialmente fatal que Dick tem por bolo de chocolate.

Mergulhando e saindo de sequências fantásticas que simulam a ideia que Dick tem do paraíso, o filme transmite uma mensagem rara de “a vida é bela” que não é nem sentimentaloide nem manipuladora. É um instantâneo de tristeza transbordante de alegria.

Minari

Divulgação

Em Chamas foi o primeiro papel importante de Steven Yeun falado em coreano, em 2018. Ele representou um tipo de Grande Gatsby moderno, o oposto de seu papel em Minari, filme coreano muito belo dirigido por Lee Isaac Chung.

Aqui, Yeun faz um imigrante ambicioso, mas obstinado, que tenta construir uma fazenda para sustentar sua família no Arkansas na década de 1980. Sua mulher (Yeri Han) quer confiar que ele vai conseguir, mas as coisas não são nada fáceis para ela e seus dois filhos (os novatos adoráveis Alan Kim e Noel Kate Cho). O que é mais importante – continuar firmes com o plano de seu marido ou manter a família unida? Han pede o apoio da Vovó (Yuh-Jung Youn), levando a uma comédia de costumes que os leva a questionar o valor do sonho americano.

Belo e terno, com céus azuis que sugerem possibilidades infinitas, Minari mostra o que é preciso para construir uma vida nova.

The Nowhere Inn

Divulgação

Na era das redes sociais, os documentários musicais tendem a tocar as mesmas notas. Eles se esforçam para alcançar a autenticidade de Don’t Look Back, sobre Bob Dylan, e Na Cama com Madonna, mas a prudência dos artistas acaba atrapalhando. O resultado são pseudoperfis que não se arriscam, calculados para agradar aos fãs sem assustar a ninguém (um bom exemplo disso éTaylor Swift: Miss Americana).

Essa desconexão com a realidade é a tese que está à base de The Nowhere Inn. Annie Clark, mais conhecida como a cantora St. Vincent, representa a si mesma em um esforço para criar um documentário que elimine sua persona sobre os palcos, revelando a pessoa real que está por baixo disso.

Ela contrata uma amiga (Carrie Brownstein, que também representa a si mesma) para dirigir o projeto. Juntas, elas percebem que Annie já não sabe mais onde St. Vincent termina e Annie começa.

Comentário inteligente sobre a mitificação de roqueiros e a área indefinida que surge quando uma pessoa é promovida para o consumo de massa, o filme hipnótico de Bill Benz é indicado para os fãs verdadeiros.

Zola

Divulgação

A versão de nós mesmos que apresentamos nas redes sociais é pura performance, mesmo quando estamos documentando fatos reais. Zola destaca essa dicotomia com muita verve, dramatizando uma saga que viralizou no Twitter sobre a stripper Zola, de Detroit (representada por Taylour Paige), que acompanhou uma virtual desconhecida (Riley Keough) numa viagem até a Flórida num fim de semana que acaba se deteriorando em tráfico sexual e homicídio.

Online, a história de Zola era vibrante, mesmo quando as coisas ficaram assustadoras. Mais tarde veio à tona que parte dos fatos que ela descreveu tinha sido enfeitada. Mas a diretora Janicza Bravo (Lemon) valoriza o ponto de vista de sua protagonista o suficiente para aceitá-lo como sendo a verdade, fazendo de Zola um filme divertido e levemente bizarro que aceita o misto confuso de verdade e ficção que é tão próprio da internet. Como um Spring Breakers menos sensual e um As Golpistas mais atrevido, o filme é uma brincadeira pós-moderna que enfatiza até que ponto a realidade virou algo bizarro.

The Father

Divulgação

O filme de Sundance do qual é mais provável que estejamos falando quando começar a corrida pelo Oscar de 2021, The Father é um drama doloroso que remete a Amor (2012) e Longe Dela (2006). Florian Zeller adaptou e dirigiu o filme a partir de sua peça de teatro homônima, que foi indicada ao Tony.

Anthony Hopkins é Anthony, que tem 80 anos, sofre de demência e se ressente do fato de ser cuidado diariamente por sua filha (Olivia Colman). Esta nunca sabe até que ponto seu humor pode variar ou quais memórias ele vai perder para sempre.

Em sua performance mais comovente em bem mais de uma década, Hopkins capta a angústia de um homem cuja cognição se desintegra, roubando sua autonomia. Seu corpo inteiro parece vestir os efeitos de sua condição. Zeller funde ilusões e realidade para dramatizar a mente fragmentada de Anthony, conferindo ao filme uma névoa salpicada com toques de humor sombrio.

Welcome to Chechnya

Divulgação

Na Tchetchênia, uma república da Rússia, as pessoas LGBTQ são sistematicamente rejeitadas, torturadas ou mortas. David France, o documentarista que mapeou a crise da Aids nos Estados Unidos em How to Survive a Plague (2012), pesquisou essas brutalidades em primeira mão, penetrando um grupo de ativistas que ajudam pessoas LGBTQ a fugir para outros países.

O resultado é Welcome to Chechnya, documentário arrasador sobre refugiados que arriscam a vida para encontrar a paz depois de serem perseguidos por seu governo e, em muitos casos, abandonados por suas famílias. É perturbador, instigante, essencial.

Shirley

Divulgação

Elisabeth Moss continua no registro da raiva, agora no papel de Shirley Jackson, talentosa autora de ficção de horror que combateu a depressão e a dependência química ao mesmo tempo em que virava uma estrela literária. Mas Shirley não chega a ser uma cinebiografia. O filme lembra mais um psicodrama impressionista, contendo alguns elementos baseados na vida de Jackson e outros inventados.

Sarah Gubbins, autora de roteiros de Better Things (2016), adaptou o roteiro a partir de um romance de Susan Scarf Merrell, lançado em 2015. A Shirley Jackson de Elisabeth Moss é um cruzamento entre Nicole Kidman em As Horas (2002) e Elizabeth Taylor em Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966). Aliás, ambos filmes compartilham genes com outro trabalho dirigido por Josephine Decker, A Madeline de Madeline (2018).

Enfrentando dificuldades para começar a escrever seu segundo livro, Jackson descobre que seu marido, um professor universitário (Michael Stuhlbarg), resolveu hospedar temporariamente um casal jovem (Odessa Young e Logan Lerman) na casa deles.

A convivência com o casal mais jovem é tensa, graças em boa medida às mudanças de humor de Shirley. Ela desencadeia uma guerra doméstica e, nesse processo, encontra inspiração artística inesperada. Cáustico e alucinatório, Shirley é um banquete de palavras e imagens que se misturam em uma cloaca poética.

Never Rarely Sometimes Always

Divulgação

Em Beach Rats, de 2017, a diretora Eliza Hittman contou a história de um adolescente do Brooklyn que compartimentaliza sua sexualidade, tendo encontros com homens mais velhos que conhece online. Seu filme seguinte, Never Rarely Sometimes Always, trata de outra teen relutante que sai de seu caminho normal para evitar ser condenada por seus pais e colegas: Autumn (a novata Sidney Flanigan), de 17 anos, viaja da zona rural da Pensilvânia a Nova York para fazer um aborto.

Essa história sobre uma adolescente que alcança a maioridade omite alguns dos detalhes típicos do gênero. Hittman é uma cineasta naturalista; ela filma em closes frequentes que destacam a introversão de Autumn, revelando a jornada emocional e física que ela empreende com a ajuda de uma prima leal (Talia Ryder, que veremos no remake de West Side Story, a ser lançado este ano). Olhar discreto, mas comovente sobre a provação pela qual uma adolescente precisa passar para buscar uma solução, Never Rarely é um discurso político que consegue arrancar a empatia do espectador em cada quadro.

Mais algumas performances imperdíveis:

The Nest assinala o retorno bem-vindo do diretor Sean Durkin, que não havia feito um filme desde o hipnótico Martha Marcy May Marlene, de 2011. Como uma elegante praticante de hipismo cujo marido (Jude Law) obriga sua família a mudar-se dos Estados Unidos para Londres, Carrie Coon se enfurece e encara uma paranoia doméstica, enfrentando um casamento que vai mal e uma casa possivelmente mal-assombrada.

O trabalho de Miranda July não é do gosto de todos. Comédia irônica sobre uma família de golpistas que vivem na periferia econômica e social, Kajillionaire é um trabalho ambicioso, mas não menos idiossincrático que os esforços anteriores da diretora. Debra Winger e Richard Jenkins estão ótimos como as figuras parentais nem um pouco convencionais, mas quem rouba a cena é Gina Rodriguez no papel de uma tagarela ingênua que participa das trapaças deles apenas por diversão.

Com referências a Persona (1966)de Ingmar Bergman, O Desprezo (1963) e Her Smell (2019), o psicodrama Black Bear traz Aubrey Plaza como diretora de cinema que encontra inspiração em um retiro rural peculiar.

No drama Worth, sobre os advogados que representaram o Fundo de Indenização às Vítimas do 11 de Setembro, Stanley Tucci é um ativista de base que perdeu sua mulher nas Torres Gêmeas e luta contra as táticas impessoais da equipe de advogados.

Bad Hair, sátira de horror dirigida por Justin Simien (Cara Gente Branca), está cheio de atuações magistrais, especialmente Elle Lorraine (Insecure) no papel de uma produtora ansiosa para agradar num análogo do BET em 1989 e Vanessa Williams como a executiva ameaçadora que resolve lhe dar apoio.

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost