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13/05/2020 00:09 -03 | Atualizado 13/05/2020 09:38 -03

O que disseram os militares em depoimento à Polícia Federal sobre Moro e Bolsonaro

Ministros palacianos considerados aliados de primeira mão do presidente apresentaram versões diferentes em depoimento prestado simultaneamente à PF nesta terça-feira (12).

Andressa Anholete via Getty Images
Augusto Heleno afirmou, em depoimento, que o presidente, na reunião, ao fazer menção à sua segurança pessoal falava sobre a Abin, a PF e o Ministério da Defesa. 

Três ministros que ocupam salas no Palácio do Planalto e são considerados aliados de primeira mão do presidente Jair Bolsonaro apresentaram versões diferentes em depoimento prestado simultaneamente à Polícia Federal nesta terça-feira (12).

Os militares Braga Netto, da Casa Civil, Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, e Luiz Ramos, da Secretaria de Governo, foram chamados como testemunhas no inquérito que apura as acusações feitas pelo ex-ministro Sergio Moro contra o mandatário.

Ao deixar o governo, Moro afirmou que o presidente queria trocar o comando do órgão para ter acesso a informações. Ao mudar a PF, na avaliação do ex-ministro, o presidente estaria interferindo politicamente na autonomia do órgão. 

Como prova de que estava dizendo a verdade, Moro indicou a gravação de uma reunião ministerial, na qual que Bolsonaro teria falado sobre a troca na PF. De acordo com a Folha de S.Paulo, o ministro Augusto Heleno afirmou, em depoimento, que o presidente, na reunião, ao fazer menção à sua segurança pessoal falava sobre a Abin, a PF e o Ministério da Defesa. 

No entender da PGR (Procuradoria-Geral da República), segundo depoimento de Heleno obtido pela Folha, o presidente, no entanto, estava falando sobre proteger a família e amigos no Rio de Janeiro. No vídeo, segundo divulgado pela imprensa, Bolsonaro diz: “Não vou esperar f... alguém da minha família. Troco todo mundo da segurança. Troco o chefe, troco o ministro”.

Ainda segundo Heleno, o presidente fez uma cobrança generalizada. Pessoas que assistiram o vídeo relataram que Bolsonaro, entre palavrões e ameaças, cobra que Moro defenda e se engaje mais com o governo. 

Bolsonaro nega que tenha falado no vídeo sobre Polícia Federal e superintendência. Diferentemente de Heleno que cita a PF, o ministro Braga Netto diz que Bolsonaro não menciona o órgão. Segundo o G1, o ministro disse que o presidente estava se referindo à segurança pessoal de sua família.

A narrativa é a mesma endossada pelo presidente. Há uma contradição no que defende o presidente, pois a segurança dele e de sua família é atribuição do Gabinete de Segurança Institucional e não do Ministério da Justiça ou da Polícia Federal.

Braga Netto também disse, de acordo com depoimento obtido pelo G1, que o presidente não demonstrou insatisfação com Maurício Valeixo — que foi demitido logo em seguida pelo mandatário. Disse também que não sabe por que o presidente quis nomear Alexandre Ramagem para suceder Valeixo.

O ministro Luiz Eduardo Ramos, por sua vez, afirmou que o presidente queria fazer a troca na PF para ter “sangue novo”, segundo o R7. O presidente, de acordo com o ministro, acreditava que a mudança de chefia poderia “mudar o ritmo de trabalho da PF”. Ainda de acordo com Ramos, Bolsonaro “ressentia da quantidade de operações e relatórios que a Polícia estava produzindo em todo o País”.

Apuração do G1 indica ainda que Ramos afirmou que propôs uma “solução intermediária” a Moro para a troca na PF. Essa movimentação teria sido feita sem conhecimento do presidente. 

Sobre o perfil para o comando da PF, o ministro Augusto Heleno disse que Bolsonaro queria um diretor com quem tivesse “afinidade”. Ainda segundo ele, de acordo com o G1, Bolsonaro e Ramagem têm “amizade” desde 2018.

Os três ministros comentaram o vídeo que está sob responsabilidade do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Celso de Mello. Relator do inquérito que apura as declarações de Moro, o ministro pediu a transcrição da gravação e irá decidir se tornará o material público.