26/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 26/01/2019 00:00 -02

Denise Sanabio, a cozinheira que sonha em democratizar a própria 'comida de vó'

Ela é dona de um bistrô vegetariano no Rio de Janeiro com foco na qualidade e consumo consciente.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Denise Sanabio é a 325ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Quando Denise Sanabio, 39, fez a proposta para assumir o ponto de um restaurante vegetariano no Rio de Janeiro, não tinha ideia de como o negócio iria se sustentar. Sem dinheiro, sem equipe e com o apoio somente de sua companheira de vida, Josie Ramos, ela aceitou o desafio. Ela reformulou o espaço e deu asas à sua paixão por cozinhar. Hoje, a cozinha do Bistrô Trevo Vegetariano serve todas as refeições poucas horas, tem um público cativo e já é a opção para comer bem e livre de proteína animal.

A paixão de Denise pela cozinha começou na adversidade. Criada pela avó, ela cresceu em uma casa em que os temperos eram plantados no quintal e em que a comida tinha um gosto inigualável. Ao morar sozinha com amigas, aos 23 anos, teve contato com uma rotina alimentar completamente diferente: comida industrializada e congelada, coisa que ela não conseguiu se acostumar. Assim, decidiu ir para a cozinha de vez e botar em prática os ensinamentos que adquiriu com a avó. Legumes, verduras e temperos frescos eram parte do cardápio, e anos depois esse costume iria virar além de hobby, seu ganha-pão.

A cozinha é uma química maravilhosa.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A comida da avó de Denise tinha uma alquimia inigualável que ela tenta alcançar.

Antes de ter seu restaurante, Denise trabalhou em outras áreas. Sua última tentativa, antes de arriscar abrir o restaurante, foi uma loja de roupas de cama e banho, que não deu certo. Após o fechamento do estabelecimento, ela entrou em depressão e assim ficou por pelo menos um ano, até que voltou a trabalhar em casa, vendendo “kits de festa”, com salgados, bolos e docinhos.

Ali eu comecei a pegar gosto em experimentar e testar receitas, e apareceu a oportunidade de trabalhar como atendente, e ter mais contato com uma cozinha profissional. Comecei a me interessar por essa química, porque a cozinha é uma química maravilhosa. Quis trabalhar com isso porque eu não me via mais sem cozinhar, realmente me apaixonei”, relembra.

Eu não tenho outra opção que não seja fazer dar certo.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Quis trabalhar com isso porque eu não me via mais sem cozinhar, realmente me apaixonei."

A rotina na cozinha foi tão apaixonante que quando a dona do antigo estabelecimento decidiu que não queria continuar com o negócio, Denise decidiu arriscar: propôs assumir o espaço com a cara e a coragem. “Mas nunca imaginei que ela ia aceitar”, confessa. Quando a proposta foi aceita e o contrato assinado, ela percebeu o que tinha nas mãos: o seu próprio bistrô.

“Eu já estava cansada de trabalhar para os outros, me dedicar ao máximo e não ter nenhum tipo de reconhecimento, nem financeiro. A possibilidade de voltar a ter um negócio meu me encorajou. Eu sou movida a impulso, coragem e vontade de fazer, então eu não tenho outra opção que não seja fazer dar certo.”

Uma hora todas as pessoas vão parar para repensar seu consumo em geral.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
“O vegetarianismo não é elitista, mas a informação ainda é restrita."

E deu certo. Com a ajuda de Josie, elas começaram a tocar o bistrô com um capital de cerca de R$ 5.000. São somente elas que dão conta de todas as funções do restaurante: Denise cozinha, Josie atende e cuida das redes sociais. Mas ao fim e ao cabo, todo mundo faz um pouco de tudo. Agora, elas estão em busca de novo ajudante para a cozinha. O motivo é simples: aberto de 9h às 19h, o bistrô tem horários de pico que deixariam qualquer restaurante grande de queixo caído. No dia em que a reportagem do HuffPost Brasil visitou o lugar, os pratos esgotaram pouco depois de 13h.

Com tanta gente em busca de uma alimentação vegetariana, faz sentido dizer que este modo de vida é elitista? Para Denise, não: “O vegetarianismo não é elitista, mas a informação ainda é restrita. Tem como ter uma alimentação saudável e balanceada, de qualidade e com preço justo. É possível fazer uma feira para a semana inteira, gastando pouco e estando nutrido. Na verdade, o que é elitista é a informação.”

Os hábitos de Denise mudaram quando ela trabalhava no mesmo local, ainda sob a gestão antiga. Nas conversas com os funcionários, começou a repensar não só sua relação com os alimentos de origem animal, mas em seu consumo como um todo.

“Eu olhei para o meu apartamento e vi o quanto eu consumia, gastava e produzia de lixo, e era desperdício de energia. Aos poucos eu fui abrindo os olhos”, conta. E completa: “O vegetarianismo é um caminho sem volta. Uma hora todas as pessoas vão parar para repensar seu consumo em geral. E esse estilo de vida envolve toda essa discussão, o nosso planeta não aguenta mais.”

Queremos crescer dentro do que acreditamos, não só para ganhar dinheiro.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O "Trevo Vegetariano" tem opções de refeições, salgados, doces e bebidas para quem opta por não consumir produtos de origem animal.

Sem atribuir a si mesma o título de vegetariana ou vegana (por acreditar que são movimentos muito complexos), Denise explica que seu principal objetivo era manter viva a lembrança que tinha da sua primeira relação com a comida: com aquele tempero típico de avó, mas sem alimentos de origem animal e com um aroma que toma o ambiente inteiro.

E ela consegue: o Trevo Vegetariano tem opções de refeições, salgados, doces e bebidas para quem já optou por esse estilo de vida. A próxima meta de Denise é levar o conceito também para o subúrbio, onde ela mora. “Tem, sim, muitos veganos e vegetarianos no subúrbio. Queremos um lugar que as pessoas se identifiquem, que se sintam à vontade. Queremos crescer dentro do que acreditamos, não só para ganhar dinheiro”, conta ela, sempre no plural, para reforçar que sem Josie ela não faria nada sozinha.

Mãe de um filho de 11 anos, Denise conta que todos os sacrifícios que enfrentou são principalmente para proporcionar um futuro melhor para ele. Em relação ao seu empreendimento, então, o céu é o limite. “Eu me sinto realizada, mas nunca quero pensar que já alcancei tudo. Sempre tem um lugar melhor pra chegar. Eu sempre estive em movimento, sempre foi assim”, finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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