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28/04/2020 15:04 -03 | Atualizado 28/04/2020 15:14 -03

Desembarque de Moro racha exército bolsonarista e rompe estratégia de fritura de críticos

Título de ‘nova esquerda’ colado em dissidentes não gruda no ex-juiz e faz núcleo duro da militância governista readequar discurso.

As acusações graves que o ex-juiz Sergio Moro fez contra o presidente Jair Bolsonaro ao deixar o Ministério da Justiça gerou um racha na militância bolsonarista. O rito comum nos casos de atritos de críticos do presidente costumava vir precedido do rótulo de “comunista”, enquadramento na caixa de “nova esquerda”, chuva de mensagens em grupos de WhatsApp e fritura nas redes sociais, especialmente no Twitter. Neste caso, chegou a se desenhar um “Moro comunista”, mas prontamente abafado. 

As 5 horas que separaram o pronunciamento de 39 minutos de Moro da fala de 46 minutos de Bolsonaro foram de espera para o exército do presidente que aguardava ordem do capitão. Neste meio tempo, o núcleo lavajatista, que se fiava no discurso de combate à corrupção, fazia seu desembarque. No fim do dia, os apoiadores de Bolsonaro gritavam por comprovações das denúncias que o ex-ministro havia feito, alegavam que sua palavra tinha valor, mas não o suficiente para devastar o governo. Entre os mais arraigados, Moro foi chamado de traidor. 

Após Moro mostrar ao Jornal Nacional troca de mensagens com o presidente que indicava pressão para demitir Valeixo e conversas com a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), na qual ela oferecia vaga ao ministro no STF, o que comprovaria que ele não teria condicionado a alteração na PF à indicação ao Supremo, o discurso do núcleo bolsonarista ganhou um item a mais. Passaram a dizer que o ex-ministro quebrou a confiança da deputada.

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Pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda mostra que 52% acreditam na versão de Moro sobre sua demissão, contra 20% que acreditam na versão do presidente. 

Mesmo a hashtag que o grupo tentou emplacar no Twitter no fim de semana, #FechadoComBolsonaro, não chegou a ficar em primeiro entre os assuntos mais comentados e contava com pouco texto de apoio. Na segunda (27), entrou entre os assuntos mais comentados a tag #FechadoComBolsolnaro, mas o erro de digitação acendeu alerta pelo indício de uso de bots.

Levantamento da Diretoria de Análises de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP/FGV) indicou que a saída do ex-juiz do governo gerou repúdio de 70% dos perfis engajados no debate no momento em que o anúncio foi feito. 

Considerando o comportamento dos usuários entre 11h e 18h da sexta, considerando 2,85 milhões de tweets analisados pelo DAPP/FGV, apenas 9,5% foram mobilizados em prol do presidente. Das postagens deste grupo, a maioria dizia que Moro havia abandonado o barco. O ex-capitão do Exército perdeu, ainda, seguidores importantes, como Henrique Bredda, cofundador do grupo de investimentos Alaska Black. Figuras fiéis a Bolsonaro, como Luciano Hang, das lojas Havan, e Silvas Malafaia manifestaram apoio a Moro. 

Na avaliação de autoridades e especialistas ouvidos pelo HufPost, o sentimento de implosão da militância bolsonarista ocorre por causa da popularidade do ex-juiz aliado à maneira como ele construiu seu discurso de despedida. Ao sair atirando, o então “superministro” Moro expôs a vulnerabilidade de um dos pilares da eleição de Bolsonaro, a missão de fortalecer a caça aos corruptos. 

A cientista política Ariane Roder, professora do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro  (Coppead/UFRJ), prevê uma queda brusca na popularidade do presidente, “tendo em vista que o discurso anticorrupção foi um dos pilares pelo qual ele conseguiu se eleger”.

Ela relembra que a candidatura do mandatário à Presidência nasceu e ganhou força “muito em função dos resultados da Lava Jato que pegou em cheio, sobretudo o PT, oponente ao Bolsonaro na disputa”. Nesse mesmo contexto, ela inclui o posicionamento contra a velha política. 

“A saída de Moro não só tira uma gama de pessoas que apoiava o governo em função da figura do ex-juiz, mas também pelo pano de fundo da demissão. Interferência política em decisões jurídicas e possivelmente em questões familiares ou a própria campanha eleitoral coloca em xeque a legitimidade com uma grande parcela que o elegeu”, avalia. 

A saída de Moro não só tira uma gama de pessoas que apoiava o governo em função da figura do ex-juiz, mas também pelo pano de fundo da demissão.Ariane Roder, professora do Coppead/UFRJ
Andressa Anholete via Getty Images
Ao sair atirando, o então “superministro” Moro expôs a vulnerabilidade de um dos pilares da eleição de Bolsonaro, a missão de fortalecer a caça aos corruptos.

O deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) endossa a tese da especialista. Para ele, a base do presidente nas ruas é mais Moro do que Bolsonaro. Ele avalia que, diferente do que ocorreu com ele ou outras figuras alinhadas ao pensamento ideológico de direita que criticaram o mandatário, o ex-ministro não passará por um amplo processo de fritura, nem será tachado de comunista ou “nova esquerda”.

Segundo ele, isso se deve à alta popularidade do ex-juiz. Pesquisa Datafolha de dezembro do ano passado apontava que 53% da população considerava sua gestão ótima ou boa, o presidente tinha 30%. Sondagem do mesmo instituto feita em janeiro indicou que o ex-juiz ostentava o título de figura pública com maior índice de credibilidade, ultrapassando o mandatário e o ex-presidente Lula. 

Nova pesquisa do instituto, divulgada na segunda, indica que a popularidade de Bolsonaro segue estável, em 33% (variação dentro da margem de erro de 3 pontos percentuais), mas mostra também que a população tem mais confiança nas palavras de Moro. Entre os entrevistados que souberam da demissão do ex-ministro e das denúncias que ele fez, 52% acreditam na sua versão, contra 20% que acreditam na versão do presidente. 

Além disso, cresceu o percentual dos que querem a renúncia de Bolsonaro e dos que são favoráveis à abertura do processo de impeachment.

Os números bons, na argumentação do deputado, justificam a crise no exército bolsonarista. “Não tem como Bolsonaro se defender de críticas nesse momento, ele não tem capacidade de mobilização e popularidade para isso. Isso vai voltar contra e daí eu dizer que o presidente superestimou a própria popularidade.”

Não tem como Bolsonaro se defender de críticas nesse momento, ele não tem capacidade de mobilização e popularidade para isso.Kim Kataguiri (DEM-SP), deputado federal

Estratégia do discurso binário

Esse cenário impede o curso de umas das principais táticas de aliados do mandatário, que é o fomento do discurso binário. “Porque é uma militância que vai muito na onda da popularidade dos atores, que vê mais quem está falando do que o que está falando, e a partir do momento que quem está falando tem uma legitimidade dentro do campo da direita maior do que o Bolsonaro, cai esse discurso [de colocar os críticos como esquerdistas]”, diz Kataguiri.

A interpretação do parlamentar de que é mais fácil você bater em um adversário quando coloca ele em um campo oposto, no campo do inimigo, é um objeto antigo de estudo nas universidades. De acordo com o economista Maurício Moura, fundador do Instituto Big Data e autor do livro A eleição disruptiva: Por que Bolsonaro venceu, essa tática não é original. 

“Em qualquer literatura de polarização a melhor forma de você ativar sua base é criar um adversário e manter e cultivar esse adversário. E o melhor ativo da base do Bolsonaro é o antipetismo - então, é um momento natural ligar partidos como o DEM à nova esquerda.” Ele ressalta que Bolsonaro é o primeiro presidente em primeiro mandato que não fez movimento de moderação, como fez Dilma Rousseff (PT) e Fernando Henrique (PSDB). 

Em qualquer literatura de polarização a melhor forma de você ativar sua base é criar um adversário e manter e cultivar esse adversário.Maurício Moura, fundador do Instituto Big Data

Ele observa, no entanto, que quando comparada a popularidade em primeiro mandato, a do Bolsonaro é a menor de todas quando comparado com outros presidentes. E que, já antes deste episódio com Moro, ele entrava em uma faixa de rejeição que pode prejudicar uma potencial reeleição. 

‘Nova esquerda’ 

Cientista político e professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Rui Tavares Maluf avalia que o encaixe de críticos na caixa na “nova esquerda” já era algo difícil de colar em 1964, época do golpe militar no País. “Era difícil, mas ainda tinha um certo fundamento. Hoje, em dia, os comunistas são assumidos, como o governador do Maranhão, Flavio Dino, filiado ao PCdoB, são as figuras que estão funcionando na ordem democrática.”

Foram enquadrados como “nova esquerda” dissidentes do bolsonarismo como a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), o governador João Doria (DEM-SP) e a  deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP). Para ele, esse movimento tem tentativa de gerar tensionamento e instabilidade muito grande, ao tentar levantar fantasmas do passado, mas que, rigorosamente, é difícil colar. 

Essa instabilidade e  aprofundamento da crise política, na opinião da cientista política Ariane Roder, era tudo que o Brasil não precisava neste momento de pandemia do novo coronavírus. “Temos uma crise na saúde sem precedentes que vai gerar crise econômica e social, que vai ser agravada por um fator político que pode desencadear processos de impeachment em curto espaço de tempo.”