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19/10/2019 02:00 -03

DEM flerta com PSL, e Maia avisa: sem Bolsonaro, fusão até é opção

Conversas ocorrem até o momento informalmente, em encontros e conversas de bastidor, e têm em vista o gordo caixa da sigla, que cresceu na onda bolsonarista.

Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Presidente Jair Bolsonaro entrega ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o projeto de lei que altera regras da Carteira Nacional de Habilitação.

Com a ameaça de o presidente Jair Bolsonaro deixar o PSL e levar consigo cerca de metade da bancada de deputados, a ala ligada ao comandante da sigla, Luciano Bivar, deu início a uma empreitada para manter de pé uma legenda que cresceu na onda bolsonarista, mas pode não resistir à turbulência dos últimos dias. A solução pode estar no inusitado: uma fusão com o DEM. Um dos principais nomes do Democratas, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), chegou a dizer a interlocutores que o PSL sem Bolsonaro até é uma opção.

O assunto foi tratado pela primeira vez há cerca de um mês, em uma conversa informal em que estavam Maia, ACM Neto, presidente do DEM, e Antonio Rueda, vice-presidente do PSL. Na ocasião, apenas se falou sobre a possibilidade de fusão, mas o tema ficou no ar. 

Nesta semana, em um churrasco oferecido pelo presidente da Câmara na residência oficial a políticos, a perspectiva DEM-PSL voltou à mesa. Pessoas que estavam na ocasião confidenciaram ao HuffPost que, na verdade, o principal assunto da festa foi, claro, a crise que se abateu sobre o PSL após o presidente Jair Bolsonaro dizer a um apoiador para deixar o partido de lado e que Bivar, comandante da legenda, “está queimado pra caramba”. 

Nesse contexto, a hipótese de aliança com democratas voltou a ser ventilada. Maia é um entusiasta da ideia. Afirmou a aliados que juntar o DEM com o PSL ampliaria muito os quadros democratas. Sua sigla tem uma estrutura partidária sólida, consolidada, ao contrário do que ocorre na legenda de Bolsonaro, o que tem ficado claro especialmente após essa crise entre os pesselistas. Além disso, na onda da popularidade do mandatário, o partido inchou. “Em números”, fazem questão de destacar integrantes que se dizem de siglas “orgânicas”. 

Com uma bancada de 53 deputados, a segunda maior bancada da Câmara nesta legislatura, o PSL tem direito, até 2022, a receber um total, entre fundos partidário e eleitoral, de R$ 737 milhões. O DEM, que elegeu em 2018 um total de 29 deputados, deve receber em torno de R$ 360 milhões. Os números são cálculos do analista político e econômico Bruno Carazza

Um outro democrata da cúpula partidária vai na contramão de Rodrigo Maia. Acredita que o DEM, um partido que “resistiu ao lulopetismo, orgânico, plural”, não deve se meter em confusões. “O Democratas tem poder, expressão, tem prefeitos, governadores, os presidentes da Câmara e do Senado. É natural que um partido pequeno e em crise queira se juntar a nós, mas temos que resistir à tentação de trazer para junto de nós pessoas que, já estamos vendo, provocam crise por onde passam”, afirmou ao HuffPost sob condição de anonimato. 

Divulgação PSL
Jair Bolsonaro e o presidente do PSL, Luciano Bivar.

É um fato que, de conversa informal, a cada comentário de mesa e encontro, a fusão do DEM com um PSL sem Bolsonaro tem sido um tema dos bastidores do Congresso e das reuniões de políticos. Sempre no contexto em que se trata de governo, da condução do presidente Jair Bolsonaro, do trato dele com o partido, mas especialmente de olho da eleição municipal do ano que vem. 

Por trás da briga interna que se tornou pública na semana passada, há o gordo caixa do partido, que cresceu de uma hora pra outra com a chegada de Jair Bolsonaro. Entre 2015 e 2018, os fundos partidário e eleitoral da legenda somaram quase R$ 39,5 milhões, contra os R$ 737 milhões previstos de 2019 a 2022.

Por trás do racha no PSL e suas consequências

Ao deixar a reunião extraordinária do partido convocada para esta sexta-feira (18) em Brasília, o líder na Câmara, Delegado Waldir (GO), disse que Bolsonaro buscava “a chave do cofre do partido” e fez isso atacando Luciano Bivar para enfraquecê-lo e tomar o controle do PSL. Para o deputado, que tem a liderança ameaçada pelo próprio presidente, que tentou colocar o filho Eduardo no posto, Bolsonaro “quer ter o controle de todos os diretórios [estaduais] do País”. 

Na quarta-feira (16), Jair Bolsonaro interveio pessoalmente para destituir Waldir da liderança do PSL da Câmara. Ligou, mandou mensagens e áudios a deputados pedindo apoio. Alguns afirmaram que se viram “intimidados” a assinar a lista para alçar Eduardo Bolsonaro à cadeira. 

Também na sexta, quando chegava para a reunião partidária, a ex-líder do governo no Congresso Joice Hasselmann (SP) - ela também foi vítima de retaliação do mandatário e acabou limada do cargo, substituída pelo senador emedebista Eduardo Gomes (TO) - chamou o filho 03 do presidente de “menino” e disse que tudo o que ele alcançou até hoje “foi à sombra do pai”.

“Não vou sacrificar minha palavra botando um menino na liderança que não consegue nada sozinho. Nem mesmo agora, à sombra do presidente, consegue ser líder. E se conseguir, porque a pressão continua, não vai ser legitimado, porque um líder busca a liderança, exerce a liderança. Não é alguém ligando e dizendo: ‘assina aqui porque eu estou mandando’. Lutei contra Lula e Dilma. Não vai ser meia dúzia de moleques que vai me intimidar”. 

O Democratas tem poder, expressão, tem prefeitos, governadores, os presidentes da Câmara e do Senado. É natural que um partido pequeno e em crise queira se juntar a nós, mas temos que resistir à tentação de trazer para junto de nós pessoas que, já estamos vendo, provocam crise por onde passam

Bolsonaro tem sofrido derrotas em série. Além de não ter conseguido emplacar o filho — com apenas 27 assinaturas na lista, teve uma invalidada —, foi chamado de “vagabundo” por Waldir — o que expôs o racha real em seu partido e, portanto, na base mais fiel a seu governo.

Ele pode sofrer outro revés na próxima semana. Ao assumir o mandato, impôs que seus filhos, Flávio e Eduardo Bolsonaro, assumissem os diretórios regionais, respectivamente, no Rio de Janeiro e em São Paulo. A cúpula pesselista afirma que parlamentares dos estados têm reclamado da condução dos filhos do mandatário e vai abrir processo para destituí-los até a próxima semana. 

Embora decidido a deixar o partido, Jair Bolsonaro disse que só o fará quando conseguir garantir a migração dos parlamentares que desejam segui-lo. A Lei dos Partidos não permite que deputados abandonem as legendas fora do período da janela eleitoral, que acontece por 30 dias, seis meses antes da eleição. 

Nos bastidores, esses deputados até aceitariam abrir mão do fundo partidário para não perderem seus mandatos. Mas isso só ocorrerá via judicial. 

Em guerra declarada, o caso deve ir parar na Justiça de ambos os lados, porque o partido não está disposto a entregar nada de mão beijada e pretende requerer os mandatos.

De acordo com o senador Major Olímpio (SP), ficou claro que Luciano Bivar não irá procurar por Bolsonaro. ”É o presidente quem deve procurar primeiro pelo Bivar”. 

No jogo de forças que o presidente está travando, quem acaba ganhando são os partidos ditos tradicionais, que estão nadando de braçada no Congresso, agora mais do que nunca — vide a força e articulação do próprio DEM. Com um PSL em pedaços, uma bancada que já era desorganizada e pouco articulada com as demais fica agora escanteada como nenhuma outra.