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26/07/2019 11:22 -03

Deltan recebeu R$ 33 mil por palestra de empresa de tecnologia citada na Lava Jato

De acordo com a Folha de S.Paulo, coordenador da força-tarefa da Lava Jato usava grupo no Telegram para consultar colegas sobre possíveis ‘pepinos’ a serem gerados por sua participação em eventos.

HEULER ANDREY via Getty Images
“Isso é um pepino pra mim. É uma brecha que pode ser usada para me atacar”, disse o coordenador na Lava Jato a colegas sobre a palestra à empresa citada na operação.

O procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, recebeu R$ 33 mil para fazer uma palestra para a empresa de tecnologia Neoway, uma das citadas em delação na operação. A informação está em mensagens e documentos obtidos pelo The Intercept Brasil, analisados em parceria com a Folha de S.Paulo, divulgados nesta sexta-feira (26). 

De acordo com a reportagem, a primeira menção à Neoway em um documento de colaboração, em 2016, ocorreu dois anos antes da palestra, que se deu em março de 2018. 

Deltam se aproximou integrantes do grupo, segundo a reportagem da Folha, “com objetivo de viabilizar o uso de produtos dela [Neoway] em um trabalho da força-tarefa”. Em seguida, gravou um vídeo no qual “enaltece” o uso de tecnologia em investigações”.

À Folha, Deltan Dallagnol afirmou que, ao aceitar dar a palestra, não tinha conhecimento de que a empresa havia sido citada na Lava Jato. “Não reconheço a autenticidade e a integridade dessas mensagens, mas o que posso afirmar, e é fato, é que eu participava de centenas de grupos de mensagens, assim como estou incluído em mais de mil processos da Lava Jato. Esse fato não me faz conhecer o teor de cada um desses processos.” 

De acordo com a reportagem, depois de quatro meses da palestra, pela qual recebeu R$ 33 mil, o procurador afirmou a colegas, em um chat, ter descoberto a citação pelo lobista Jorge Luz, que atuou no favorecimento junto à Petrobras e subsidiárias para o MDB. 

“Isso é um pepino pra mim. É uma brecha que pode ser usada para me atacar (e a LJ), porque dei palestra remunerada para a Neoway, que vende tecnologia para compliance e due diligence, jamais imaginando que poderia aparecer ou estaria em alguma delação sendo negociada”, afirmou o procurador na conversa, segundo a Folha. A reportagem diz ter reproduzido o trecho exatamente como escrito na mensagem de Deltan aos colegas procuradores no chat do Telegram. 

Por conta disso, Deltan e outros procuradores deixaram as investigações sobre Jorge Luz. 

A reportagem da Folha destaca que o grupo no Telegram da força-tarefa da Lava Jato para conversar sobre a delação de Jorge Luz foi criado em fevereiro de 2016, portanto, dois anos antes da palestra feita pelo procurado da República. 

Logo em seguida, em março, comentaram no chat sobre um documento no qual o delator menciona a Neoway em um projeto de tecnologia da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras. 

Houve ainda outras situações em que Dallagnol recebeu convites que representavam conflitos de interesse e consultou seus pares. Um exemplo a participação em um evento da Odebrecht Ambiental. Após consultar os colegas, o procurador recusou o convite. 

Procurada pela Folha, a Neoway disse ter pago a Deltan Dallagnol e demais palestrantes “valores compatíveis com o mercado para atividades dessa natureza, com total observância às leis”.

Hackers da República

Esta semana, na terça (23), foram presas quatro pessoas suspeitas de integrar uma quadrilha que invadiu celulares de diversas autoridades. Na quinta (25), o Ministério da Justiça informou que até mesmo o presidente Jair Bolsonaro foi alvo de ataques dos hackers. 

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, associou o grupo ao site The Intercept, ligação não citada pelo juíz Vallisney Oliveira, da 10ª Vara da Justiça Federal de Brasília, que mandou efetuar as prisões.