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09/07/2019 18:48 -03 | Atualizado 09/07/2019 18:49 -03

Em áudio, Deltan Dallagnol comemorou veto a entrevista de Lula na campanha de 2018

The Intercept Brasil publica primeira mensagem em áudio da série intitulada "Vaza Jato"; oposição reage.

HEULER ANDREY via Getty Images
Em áudio, Deltan Dallagnol diz que veto a entrevista de Lula, nas eleições, é "boa notícia".

Um mês após iniciar as revelações de mensagens do então juiz Sérgio Moro e da força-tarefa da Operação Lava Jato, o site The Intercept Brasil publica nesta terça-feira (9) o primeiro áudio dos envolvidos em mais um capítulo da série intitulada “Vaza Jato”. A mensagem do procurador Deltan Dallagnol, que coordenou os trabalhos dos investigadores, foi enviada em um grupo de procuradores no Telegram e é de 28 de setembro de 2018.

Nesse dia, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luiz Fux vetou entrevista do ex-presidente Lula, que estava preso havia cinco meses em Curitiba mas que se apresentou como candidato à Presidência pelo PT na campanha eleitoral até o início de setembro. No dia 11 daquele mês, o partido oficializou a candidatura de Fernando Haddad.

Na manhã do dia 28, o ministro Ricardo Lewandowski havia autorizado entrevista de Lula à Folha de S.Paulo na prisão. Mais tarde, Fux concedeu liminar suspendendo a decisão de Lewandowski. No áudio revelado pelo Intercept, Deltan comunica os procuradores e recomenda que ninguém divulgue a informação da liminar para a imprensa — a fim de evitar um novo recurso que possa garantir a entrevista de Lula. 

Não vamos alardear isso, não vamos falar isso pra ninguém... Vamos ficar quietos pra evitar divulgação o quanto for possível.

No áudio, Deltan diz que “o pessoal” pediu para que os procuradores não comentem publicamente sobre a decisão de Fux — que classifica como “boa notícia”. Na mensagem que acompanha o áudio, Deltan escreve SEGREDO em caixa alta mesmo.

A seguir, a declaração completa e o áudio obtido pelo Intercept: 

“O Fux deu uma liminar suspendendo a decisão do Lewandowski que autorizava a entrevista, dizendo que vai ter que esperar a decisão do plenário [do STF]. Agora, não vamos alardear isso, não vamos falar isso pra ninguém... Vamos ficar quietos pra evitar divulgação o quanto for possível. O quanto antes divulgar isso, antes vai ter recurso do outro lado, antes isso vai pra plenário. O pessoal pediu pra gente não comentar publicamente, deixar que a notícia surja por outros canais, pra evitar precipitar recurso de quem tem posição contrária à nossa. Mas a notícia é boa pra terminar bem a semana, depois de tantas coisas ruins, e começar bem o final de semana.”

Repercussão do áudio

Autor de requerimento na Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara para Dallagnol se explicar sobre as mensagens publicadas pelo The Intercept Brasil, o deputado Rogério Correia (PT-MG) classificou como grave a divulgação do áudio. “Um covarde que não quis vir aqui”, subiu o tom.

Nesta segunda-feira (8), Deltan recusou o convite para ir à CDH. Em ofício ao colegiado, ele disse que iria se concentrar “na esfera técnica” para tratar do caso.

Para Correia, o áudio também agrava a situação do ministro da Justiça, Sérgio Moro. “Não há como um ex-juiz e quem sabe ex-futuro-ministro negar a existência do diálogo com o Ministério Público. Um verdadeiro conluio para que eles condenassem o presidente Lula”, disse.

A jornalista Mônica Bergamo, colunista da Folha, que tentava a entrevista com Lula em 2018, ressalta que o veto no STF foi um “rombo na censura”:

A posição de Deltan Dallagnol

O procurador ainda não se manifestou sobre o áudio divulgado nesta terça. Mas, em editorial publicado no Estadão no último sábado (6), Deltan afirma que o “trabalho incômodo” da Operação Lava Jato está sob ataque.

Ele atribui a “ofensiva” de informações publicadas pelo Intercept a “onda de crimes cibernéticos”.

“Esse ataque suscita várias questões: por que o hacker concentrou seus ataques em agentes da lei? Por que o material supostamente obtido não foi entregue a autoridades para aferição de sua integridade e autenticidade? Por que os supostos diálogos são revelados em pílulas, sem aferição dos contextos? A quem interessa tudo isso?”

O Intercept informa que o conjunto de milhares de mensagens foi obtida de “fonte anônima”. Veja, Folha de S.Paulo e BandNews FM já publicaram dezenas de trechos de conversas que são atribuídas a Moro, Deltan e outros procuradores.

A Folha afirma que é possível assegurar a veracidade das conversas. A Polícia Federal investiga se os procuradores foram alvo de “ataque de hacker”.