OPINIÃO
01/04/2020 02:00 -03 | Atualizado 01/04/2020 02:00 -03

Realidade da pandemia encurrala motoboys de aplicativos de delivery

Completamente expostos ao risco de se infectar com o coronavírus, entregadores cobram álcool em gel e alimentação das empresas de apps. Cerca de 50 mil pessoas apoiam causa em abaixo-assinado.

Roberto Parizotti/Fotos Públicas
Entregadores precisam de proteção contra a Covid-19.

Um abaixo-assinado. Essa é a tentativa desesperada de Paulo Lima para ser ouvido pelas empresas de aplicativo de entregas. Em tempos de pandemia, os motoboys estão colocando sua saúde e de suas famílias em risco para garantir o delivery de quem está em casa protegendo-se do coronavírus. Mas eles denunciam estar largados à própria sorte, sem receber nenhuma medida de proteção das empresas e ainda passando fome nas ruas.

“Minha mãe a todo momento me pede para parar: ‘Para, para, para’. Insiste nessa ideia de eu parar, e eu insisto na ideia de que preciso continuar trabalhando”, desabafa o entregador que começou uma mobilização para que as empresas de aplicativo distribuam álcool em gel e alimentação aos entregadores. Com medo de contrair o vírus na rua e levá-lo para a filha de 2 anos e a avó debilitada, de 86, Paulo vê-se encurralado diante da necessidade e do risco. 

Assim como inúmeros “companheiros de batalha”, ele chega às vezes a trabalhar 14 horas por dia, sete dias por semana, para garantir a sobrevivência da família. A realidade de uma vida controlada pelos robôs dos apps, entretanto, é dura e pode ser até cruel, ele conta. “Tem motoboy passando fome, se acidentando, ficando doente, sendo humilhado, passando diversas e diversas situações”, desabafa. “A gente precisa dialogar, a gente precisa sentar na mesa e ver os pontos que a gente consegue trazer de solução para isso”, clama.

No último dia 21, data do seu aniversário de 31 anos e, em meio à crise do coronavírus, Paulo teve um problema, não conseguiu dialogar com o robô da Uber Eats e acabou bloqueado pelo app. “Um robô não é um ser orgânico, humano, que vai entender todas as situações, que é o aniversário do motoboy, por exemplo, que o motoboy precisa muito e que informou sobre o ocorrido. Eles não querem saber, simplesmente veem a automatização e bloqueiam”, diz. Além dessa empresa, há cerca de 9 meses o rapaz também faz entregas para o iFood e Rappi

Além de todas essas condições precárias às quais os motoboys estão submetidos no dia a dia dos deliveries, a pandemia da covid-19 chegou para piorar ainda mais o cenário. Conforme narra Paulo, os entregadores estão assustados, com medo e sofrendo com falta de informações sobre a doença. Pensando nisso, ele decidiu iniciar uma mobilização na esperança de que pessoas além da categoria os apoiem e as empresas se sensibilizem. Criada há menos de uma semana, na plataforma Change.org, a petição de Paulo já recebeu quase 48 mil assinaturas. 

“O que me incentiva a lutar por toda a categoria é acreditar que essa luta deva ser tão contagiante quanto esse vírus que está aí sendo um problema”, comenta. “Espero que elas [as empresas de aplicativo] sejam pressionadas e reconheçam a importância de dar atenção aos entregadores, de vir sentar na mesa e ouvir o que eles têm para reclamar”, deseja o motoboy. Na petição, ele pede que as empresas ofereçam álcool em gel e alimentação aos trabalhadores. 

“Não temos condições de comprar álcool em gel e arcar com a alimentação na rua em meio a essa crise do coronavírus. Precisamos que as empresas de aplicativos se posicionem e tomem providências para que a gente esteja mais protegido”, pede no abaixo-assinado. “Vocês sabem o que é ter que trabalhar o dia inteiro carregando comida para as pessoas, sentindo o cheiro, e estar com fome? Eu e meus colegas sabemos e passamos por isso todos os dias.”

Em busca dos sonhos

No abaixo-assinado, Paulo conta o que tem feito para tentar evitar um possível contágio de sua família quando chega em casa. A primeira coisa é pedir para a esposa esconder a filha “para ela não correr e me abraçar”. Em seguida, tira os sapatos e vai direto para o banho.

Além da preocupação natural de contrair o vírus e sofrer com doença, o medo em relação ao coronavírus tem outras duas facetas para Paulo: impedi-lo de trabalhar e sustentar a família, e infectar as pessoas que ama, como a filha, a esposa e a avó que mora no mesmo terreno.

“O medo maior dos meus colegas, dos meus companheiros, é levar o vírus para casa. Para ser sincero, a rapaziada nem tem tanto medo de pegar, eles têm medo de levar para casa, infectar a esposa, o filho, os idosos que moram com eles na casa, no terreno, ou próximo”, revela.

Paulo comemora o fato de o abaixo-assinado ter reunido dezenas de milhares de apoiadores em poucos dias. Para ele, essa quantidade de pessoas que se uniram à causa revela que uma parcela da população também está descontente com a realidade dos motoboys de apps e tem empatia por eles.

De acordo com o entregador, a mobilização também mostra às empresas que elas “precisam entender que não dá para deixarem um robô lidando com a gente” e que os problemas precisam ser resolvidos de “forma humana”. 

O entregador tem ainda a expectativa de que os vídeos que está gravando para as redes sociais e a petição façam seus colegas se sentirem mais confortáveis para se mobilizarem também e, então, conseguirem mudar as coisas.

Ele trabalha como motoboy desde 2012 e conta que a chegada das empresas de aplicativo “obrigou” os entregadores a entrarem para esse sistema. “Eu vejo muita gente usando a palavra neo-escravidão, escravidão, eu acho que a palavra mais forte para resumir essa situação é ‘encurralamento’”, define Paulo para explicar como a prestação de serviços às empresas de apps foi a única opção que lhes restou. 

Apesar das dificuldades da batalha, o entregador não desiste de lutar e de acreditar que uma condição mais justa chegará na “hora certa”. Paulo conclui o texto do manifesto online lembrando que “motoboy também é ser humano” e que, assim como policial ou médico, também tem sonhos, família, e chora.

Aos 10 anos, ele tinha o sonho de se tornar um cantor de rap, aos 12 começou a escrever suas próprias letras e, aos 31, mudou de aspiração: “Hoje, meu maior sonho é ver minha filha bem, minha família bem. Acordar um dia e saber que minha filha está estudando em Harvard, Yale, Cambridge, Sorbonne, que minha filha está ingressando em um futuro maravilhoso. Meu sonho já foi um, hoje o meu sonho maior é outro…”, conta.

O posicionamento das empresas de apps

A equipe da Change.org entrou em contato com as assessorias de imprensa das três principais empresas de aplicativos de entregas no Brasil para saber quais providências estão sendo tomadas ante a realidade dos motoboys ante a crise da covid-19.

A Rappi enviou uma nota dizendo adotar vários protocolos para garantir a segurança dos entregadores e anunciou um fundo para protegê-los na pandemia:

“Para colocar esse benefício em prática, disponibilizamos no aplicativo do entregador um botão específico para que eles notifiquem a Rappi caso tenham sintomas e/ou testem positivo para o novo coronavírus. Caso isso aconteça, os apoiaremos financeiramente nos 14 dias em que precisarão ficar afastados”, diz trecho da nota.

Sobre as medidas de segurança, a Rappi explicou que habilitou no app uma opção de entrega sem contato físico, além de estimular o pagamento via aplicativo, para evitar o contato e a manipulação de dinheiro em espécie:

“A Rappi importou centenas de milhares de géis e máscaras antibacterianas para que sejam disponibilizadas para esses profissionais. Além disso, a startup está realizando uma forte campanha de educação, autocuidado e prevenção, reforçando todas as medidas que devem ser tomadas – por entregadores parceiros, usuários ou estabelecimentos.”

Sobre a demanda por alimentação aos motoboys, a Rappi não comentou. 

O iFood enviou nota ressaltando que tomou uma série de ações para garantir a segurança de “todo o seu ecossistema” e medidas preventivas contra a pandemia. 

“Há um fundo solidário no valor de R$1 milhão para dar suporte àqueles que necessitem permanecer em quarentena. O entregador receberá do fundo um valor baseado na média dos seus repasses nos últimos 30 dias, proporcional aos 14 dias de quarentena... Para atender a necessidade de grupos de risco em permanecer em isolamento, foi criado um segundo fundo solidário também no valor de R$ 1 milhão. A iniciativa busca proteger todos os entregadores com mais de 65 anos ou em condições de risco.”

O comunicado informa ainda que, a partir do dia 6 de abril, a empresa irá disponibilizar um plano de vantagens em serviços de saúde por meio da Avus aos entregadores, para acesso a uma rede credenciada de clínicas médicas, laboratórios e farmácias, no qual eles e um dependente pagarão pelos serviços com valores acessíveis e descontos de até 80%. 

Apesar de Paulo afirmar que ele e dezenas de colegas seus nunca receberam álcool gel ou recursos para a compra do material de higiene, o iFood destacou na nota que “distribui álcool em gel aos entregadores”. A empresa disse que os entregadores receberão um chamado para retirar os kits de álcool em gel e material informativo em vans itinerantes em diversos pontos das cidades. Segundo a nota, a ação se inicia por São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília, Porto Alegre e Curitiba e, a partir do dia 6, estará em 18 cidades. 

A Uber Eats não enviou posicionamento até o fechamento deste texto. Em seu site, a empresa publicou um protocolo sobre o coronavírus, no qual informa que também oferecerá assistência financeira por até 14 dias para motoristas ou entregadores diagnosticados com covid-19 ou que recebam determinação para quarentena.

A Uber esclarece ainda que reembolsará motorista parceiro, em até R$ 20, para a compra de álcool gel ou outro item que auxilie na higiene do motorista e do veículo, mas não fala nada sobre auxílio aos entregadores. 

O texto publicado no site da Uber fala ainda sobre o lançamento de uma parceria com a “Vale Saúde Sempre” dentro do programa Uber Pro, para oferecer descontos em consultas médicas, exames e medicamentos a motoristas e seus familiares. A concessão do benefício, entretanto, não faz nenhuma referência aos entregadores de delivery parceiros da empresa.

Movimento contra o coronavírus

O abaixo-assinado criado por Paulo segue aberto aqui. A petição faz parte de um movimento de enfrentamento do coronavírus lançado pela Change.org. A página contém mais de 170 campanhas, que totalizam 2,3 milhões de assinaturas em prol de causas sobre a covid-19. 

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.