OPINIÃO
19/07/2020 21:20 -03 | Atualizado 20/07/2020 12:09 -03

O roubo das narrativas

"O mercado entendeu que a maioria das 'minorias' está numa alavancada rumo ao controle do capital."

Em tempos de discursos inflamados em prol da luta antirracista (seletiva, diga-se de passagem) é preciso estar atento e forte para que o termo em si não se vulgarize. E mais do que isso; é preciso observar de muito perto o desenrolar das medidas concretas no que diz respeito a uma mudança estrutural da nossa sociedade.

Isso significa que basta um minuto de desatenção para que as pautas reivindicadas nos últimos cincos anos acabem sendo protagonizadas e mercantilizadas pelos mesmos detentores do poder e dos privilegiados de sempre. E, em se tratando de Brasil, é algo que precisa sempre ser lembrado a cada cinco minutos. De outra maneira, as pautas acabam sendo sequestradas pelos mesmos privilegiados, que seguirão ganhando ainda mais dinheiro, agora com a desculpa de que “são inclusivos”.

A luta por igualdade racial e de gênero não pode servir apenas como uma ferramenta de manutenção do status quo. É preciso que pessoas negras, indígenas e mulheres ocupem os espaços de poder de maneira democrática e que sejam os protagonistas de suas próprias narrativas.

É obvio e ululante que o Brasil é um país cuja maioria da população é preta. E não somente isso. A maior pujança cultural do Brasil também provém da cultura negra. Todavia, paradoxalmente, o país que tem a cultura negra como sua maior representação é o mesmo cujo projeto político fomenta abertamente o maior etnocídio de todos os tempos contra pessoas negras e indígenas.

As contradições não param por aí. Enquanto o mundo inteiro acelera rumo a diversidade e inclusão, o Brasil, longe disso, caminha a passos de tartaruga, ficando como sempre na vanguarda do atraso. Uma maquiagem aqui, outra maquiagem ali e, numa rápida piscadela, temos a impressão de que as coisas estão avançando por aqui. Ledo engano. Um olhar um pouco mais apurado logo identifica onde está o erro.

Getty Images/iStockphoto
Camera crew. young black female assistant holding a clapperboard / editable flat vector cartoon illustration, clip art

De uns tempo para cá (pouquíssimo tempo, é bom lembrar) o cinema brasileiro, por exemplo, tem entregado filmes de curtas e longas-metragens com elencos compostos por uma maioria de atores e figurantes pretos, mestiços e indígenas. E não só isso. Para além da ampliação do protagonismo de raça na frente das telas há também os filmes com protagonismo de mulheres cis e  trans. E voilá! Nossos problemas parecem estar resolvidos em se tratando de democratização da diversidade nas telas. Mas, infelizmente, não é bem assim.

O “mercado” parece ter entendido o recado e percebido que não mais poderia continuar forjando um Brasil eurocentrado e eugenista. Afinal, estão perdendo dinheiro com esses 56% da fatia da população que seguia ignorada até pouquíssimo tempo atrás. Logo, o mercado também entendeu que a maioria das “minorias” está numa alavancada rumo ao controle do capital, vide o black money, o pink money, o pussy money e afins.

E aí o que o mercado faz?

Ele começa a “produzir” conteúdo para essas demandas, mas adivinha quem está por trás de tanto sucesso?

Um doce para quem souber a resposta!

Homens brancos, ricos, hétero cis. Todos esses projetos, em quase sua totalidade, são dirigidos e produzidos por pessoas brancas. Parece que o “mercado” finalmente entendeu esse “filão” da “diversidade”. E que bom. Mas a pergunta que não quer calar é: diversidade para quem? E sob qual ponto de vista mesmo?

A mudança do racismo estrutural no cinema e nas artes só será realidade quando artistas pretos e indígenas forem os contadores de suas próprias histórias.

A resposta é simples: o ponto de vista da velha supremacia branca. Porque se os atores protagonistas das posições de poder continuam sendo os mesmos atores protagonistas e os detentores do poder de sempre, o que temos aqui é um duro golpe, a saber: o roubo de narrativas.

Se os que narram - legitimam, dão as coordenadas, definem -, se beneficiam diretamente e lucram, continuam pertencendo ao cisheteropatriarcado - não há o que ser comemorado. 

Antes da tomada da pandemia, pudemos observar tal fenômeno em alguns eventos importantes como os festivais de cinema de Cannes e Berlinale. Ou mesmo em algumas produções de séries nacionais em plataformas de streaming e canais de TV aberta e fechada.

O que vemos é uma enxurrada de realizadores, roteiristas e produtores brasileiros brancos - cujas filmografias sempre foram totalmente embranquecidas - se apropriarem agora do protagonismo negro ou indígena na frente das telas, para obterem vantagens na “corrida da diversidade”. E como os mesmos detém os privilégios do sistema e do capital que sempre os beneficiou, acabam saindo na frente de autores, cineastas e produtores negros, indígenas e mulheres que deveriam estar narrando as suas próprias narrativas.

A mudança do racismo estrutural no cinema e nas artes só será uma realidade quando artistas pretos e indígenas forem os contadores de suas próprias histórias. E não só isso; suas histórias precisam ser contadas com o mesmo acesso ao capital e às mesmas janelas de exibição que os artistas brancos detém.

Fato é que a proveniência do tilintar das moedinhas da Caixa-Forte agora tem novas e diversas faces. Mas os donos dos cofres seguem colonizando o mercado igual fazem desde os primórdios da grande fazenda colonial chamada Brasil.