COMPORTAMENTO
15/03/2019 08:12 -03 | Atualizado 15/03/2019 08:19 -03

Deep web e chans: envolvimento de assassinos de Suzano na internet é investigado

"Apesar da existência desses fóruns e de sua possível influência nos ataques, esse argumento é simplista", diz especialista.

Ueslei Marcelino / Reuters

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) investiga a possibilidade de que os responsáveis pelo atentado na Escola Estadual Raul Brasil, que deixaram 10 mortos e 10 feridos na última quarta (13) em Suzano, estivessem envolvidos com comunidades criminosas na internet.

Segundo a linha de investigação, para planejar o crime, Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25, podem ter recebido o apoio de membros do fórum Dogolachan, localizado na deep web (ou internet profunda), um segmento da internet que não pode ser acessado por motores de busca como o Google e que tem menos regulação.

“A gente tem notícia de que os assassinos se comunicavam pela deep web com outras pessoas. Isso, portanto, precisa ser investigado para se verificar se há uma organização criminosa atuando por trás da ação que cometeram”, afirmou o procurador-geral de Justiça, Gianpaolo Smanio, em entrevista ao G1.

 

O que é a deep web e como funciona a internet profunda

“A deep web é tudo aquilo que o sistema de busca não alcança e não indexa”, explica Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab, em entrevista ao HuffPost Brasil.

“Ultimamente esse termo tem sido associado a uma coisa específica, que é a darknet. Essa fração que os motores de busca não acessam está ainda mais enterrada, é ainda de mais difícil acesso. Ela é uma parte da internet que é composta por pessoas que usam mecanismos de ocultamento de identidade.”

O principal mecanismo utilizado por quem acessa a deep web é navegador Tor. Essa ferramenta faz com que a pessoa que está acessando a internet faça isso de forma anônima, ou seja, não permite que o IP original da conexão seja identificado. Contudo, para navegar na rede Tor é preciso algum conhecimento mais técnico.

″É uma rede em que não existe o Google. Os sites mudam de endereço de forma constante, o que torna mais difícil de encontrá-los. Até para fazer o download do navegador é complicado”, explica.

 

Por que fóruns como o Dogolachan migram para a deep web?

O Dogolachan é um chan (fórum online em que não é preciso criar nenhum login para acessar) fundado em 2013.

Ele está hospedado na deep web justamente para dificultar o acesso e manter o anonimato dos seus usuários, já que esses espaços são conhecidos por agregar discursos de ódio, como violações de direitos humanos, comentários racistas, homofóbicos e misóginos.  

Após o ataque na escola de Suzano, que deixou 10 mortos e outros 10 feridos, interações no Dogolachan foram atribuídas aos atiradores.

De acordo com as mensagens, os jovens teriam usado o fórum para pedir conselhos de como executar o ataque na escola inspirados no atentado de Columbine, que ocorreu em 1998 nos Estados Unidos,.

“Muito obrigado pelos conselhos e orientações, DPR. Esperamos do fundo dos nossos corações não cometer esse ato em vão”, diz parte da mensagem atribuída a um dos jovens. 

Em 2018, Marcelo Valle Silveira Mello, identificado como um dos fundadores do Dogolachan, foi condenado a 41 anos de prisão por divulgação de imagens de pedofilia, racismo e incitação ao cometimento de crimes cometidos na internet. Desde a prisão de Mello, quem administra o chan é um usuário anônimo conhecido como DPR.

Não é a primeira vez, no entanto, que os chans são alvo de discussão fora da deep web. Em 2015, o dono do site e administrador do fórum “The Silk Road”, Ross Ulbricht, foi condenado nos Estados Unidos. 

O “Silk Road” (“A Rota da Seda, em tradução literal) era um marketplace de coisas proibidas, principalmente de drogas, e Ulbricht foi sentenciado à prisão perpétua como o “líder de uma organização mundial de tráfico de drogas”

Galeria de Fotos Massacre em escola de Suzano (SP) deixa 10 mortos Veja Fotos

 

Se acontecem crimes na deep web, por que ela existe? 

Francisco Brito Cruz destaca que, apesar de ser um espaço que proporciona esse tipo de organização e de crimes, a deep web não é ilegal. “Inclusive, o navegador Tor foi financiado por muito tempo pelo próprio governo dos Estados Unidos.”

Ele explica que a ferramenta de ocultamento de identidade é importante, sobretudo, em casos de conflitos políticos e investigações delicadas: “Da mesma forma que a criptografia protege a mensagem, esse tipo de ferramenta protege o emissor da mensagem.”

 

Como combater o discurso de ódio que acontece nos chans?

Para o especialista, esses fóruns ou chans são mais um dos espaços encontrados por essa cultura online que já ocupa vários espaços e que está em constante migração. Ou seja: o discurso de ódio está além da própria deep web. 

“Precisamos evitar a explicação tecnocêntrica de atentados como o de Suzano. Apesar da existência desses fóruns e de sua possível influência nos ataques, esse argumento é simplista”, argumenta.

“‘Desligar’ a deep web não vai resolver o problema da violência. Você só vai deslocá-lo. São raízes pedagógicas, psicológicas, sociais e até mesmo de gênero que estão envolvidas nos discursos de ódio que predominam esses espaços.”

Cruz chama ainda atenção para a necessidade de reconhecimento e repercussão que movem os grupos organizados dos chans. 

‘Desligar’ a deep web não vai resolver o problema da violência. Você só vai deslocá-lo. São raízes pedagógicas, psicológicas, sociais e até mesmo de gênero que estão envolvidas nos discursos de ódio que predominam esses espaços

Quem frequenta ou estuda esses tipos de fóruns entende que há o objetivo de causar choque e revolta em quem assiste os chans “de fora”, daí as mensagens polêmicas e violentas. 

″É próprio do comportamento troll querer causar esse espanto. E é por isso que precisamos ter cautela nessa abordagem de correlacionar uma coisa à outra.”