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22/09/2020 15:39 -03 | Atualizado 22/09/2020 15:45 -03

7 declarações de Jair Bolsonaro na ONU que promovem desinformação

Discurso do presidente teve afirmações ambíguas, falsas e fora de contexto.

O discurso do presidente Jair Bolsonaro ao abrir os debates gerais da 75ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) foi marcado por afirmações que promovem desinformação. Logo no início, ao falar da pandemia do novo coronavírus, o presidente se colocou como uma autoridade que alertou o povo brasileiros dos efeitos da crise sanitária que vinha pela frente. A declaração, no entanto, não é verdade. Desde o início da pandemia, o presidente minimiza a doença que causou a morte de cerca de 140 mil pessoas no País. 

Bolsonaro usou outros artifícios em seu discurso que não condizem com a verdade ao retratar sua gestão para a audiência internacional. O presidente disse, por exemplo, que o País tem a melhor legislação ambiental do planeta, outra declaração que não é verdadeira. Investidores estrangeiros enviaram uma carta ao País na semana passada afirmando que acordos comerciais podem ser revistos caso o Brasil não demonstre comprometimento com o meio ambiente. 

“Ao negar simultaneamente a crise ambiental e a pandemia, o presidente dá a trilha sonora para o desinvestimento e o cancelamento de acordos comerciais no momento crítico de recuperação econômica pós-Covid”, disse em nota o organização Observatório do Clima, que reune ONGs de defesa do Meio Ambiente.

Em nota, Camila Asano, diretora de programas da Conectas Direitos Humanos, afirmou que o presidente “fez um discurso desrespeitoso aos líderes mundiais em que subestima a inteligência e nível de conhecimento e informação de seus pares sobre a crise no Brasil. Ele negou a gravidade da destruição ambiental, culpou ‘caboclos e índios’ e atacou o trabalho de organizações ambientais”,

Aqui estão sete declarações e seus contextos.

1. “Desde o princípio, alertei, em meu País, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade.”

A responsabilidade com que o governo tratou os dois problemas não foi a mesma. Desde o início, informado sobre a gravidade do novo vírus, o presidente a tratou como uma gripezinha. Quando as regras de isolamento já estavam em vigor, ele descumpriu e, em 15 de março, causou aglomeração e cumprimentou apoiadores em frente ao Palácio do Planalto. Com discurso de combate à onda de desemprego, o presidente incentivou o descumprimento de medidas de prevenção da covid-19.

2. “[O governo] Estimulou, ouvindo profissionais de saúde, o tratamento precoce da doença;”

O presidente travou uma batalha que custou a saída do médico Nelson Teich do comando do Ministério da Saúde para emplacar o uso da cloroquina no tratamento precoce da doença. O medicamento, porém, não tem eficácia comprovada e seus efeitos colaterais podem causar danos maiores se usados na fase precoce da doença. Isso porque o medicamento causa complicações cardíacas, possíveis de serem monitoradas no hospitalar, mas não em ambiente domiciliar. 

Andressa Anholete via Getty Images
Na ONU, Bolsonaro voltou a defender o uso da cloroquina, que não tem eficácia comprovada para covid-19. 

3. “Não faltaram, nos hospitais, os meios para atender aos pacientes de covid.”

Não houve um colapso completo do sistema de saúde, no entanto, faltaram equipamentos de proteção individual, respiradores e remédios anestésicos. Em julho, o Ministério da Saúde admitiu que faltavam insumos para intubação. 

4. “Nosso agronegócio continua pujante e, acima de tudo, possuindo e respeitando a melhor legislação ambiental do planeta.”

A legislação ambiental brasileira está em xeque. Na semana passada, um grupo de países europeus pediu ao País um compromisso político firme e renovado para reduzir o desmatamento. Em uma carta enviada ao governo, os países afirmaram que desmatamento pode frear a compra de produtos brasileiros.

5. “Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação. Mantenho minha política de tolerância zero com o crime ambiental. Juntamente com o Congresso Nacional, buscamos a regularização fundiária, visando identificar os autores desses crimes.”

O governo Bolsonaro tem dado uma série de demonstração de pouco interesse em combater incêndios criminosos. No ano passado houve uma queda de 34% nas multas ambientais em comparação com o ano anterior. O índice é o mais baixo em 24 anos; em 1995 quando as multas também registraram baixa, houve maior índice de desmate. Além disso, recentemente, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ao saber de possível corte no orçamento, suspendeu todas as ações de combate ao fogo no Pantanal e Amazônia. Ele recuou após repercussão negativa da notícia. 

6. “Em 2019, o Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano, vendido sem controle, acarretando severos danos ao meio ambiente e sérios prejuízos nas atividades de pesca e turismo.”

Um ano após o derramamento de óleo na costa do Nordeste brasileiro, a Marinha concluiu as investigações e não encontrou culpado. Foi comprovado que o óleo é de origem venezuelana, mas não necessariamente foi lançado por navios ou empresas daquele país.

7. “E, no primeiro semestre de 2020, apesar da pandemia, verificamos um aumento do ingresso de investimentos, em comparação com o mesmo período do ano passado. Isso comprova a confiança do mundo em nosso governo.”

De acordo com dados do Banco Central, houve uma queda de 7,3% na captação de recursos na comparação entre o primeiro semestre deste ano e o mesmo período de 2019. Foram investidos R$ 66,2 bilhões nos primeiros seis meses de 2019 e R$ 61,4 bilhões no início deste ano.

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