MULHERES
24/05/2020 07:00 -03

Me deram todos os papéis para abortar legalmente, mas decidimos ter a filha com síndrome de Down

A dona do 21º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é a pedagoga Deborah Pimenta, que reconheceu a bênção da chegada da 4ª filha quando morava na Espanha.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Deborah e os 4 filhos posando em frente à Torre Eiffel, em Paris.

Recordar é viver… 

“Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram, mas pela astúcia que têm certas coisas passadas.”

(Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas)

Gratidão. Aproveito essa oportunidade para agradecer profundamente a meus 4 filhos: Laura, Rafael, Daniela e Sarah por terem me escolhido para ser sua MÃE. Quando Laura nasceu eu tinha 33 anos e já morava na Europa desde os 28. Meus 4 filhos nasceram em Madri, na Espanha. No verão de 2007 nos mudamos para a França, e em 2010 me separei.

Depois do divórcio continuei na França, realizando minha maior missão que é educar e acompanhar os filhos, até que eles possam voar do ninho, para viver sua trajetória pessoal.

Às vezes sinto a síndrome do ninho vazio, ou se esvaziando… Porque atualmente Daniela e Sarah ainda estão comigo, mas me preparo para a partida da Daniela, que fez 20 anos agora em março e decidiu que fará um intercâmbio este ano.

Depois da casa cheia durante anos, viverei a experiência da distância física, mas seguirei desfrutando desse AMOR que cresce na calma silenciosa da certeza de ter sido uma mãe presente.

Talvez o fruto desses anos é saber que eles estão independentes, maduros e já são responsáveis pelas suas escolhas. Vida que segue! Eu continuo fazendo as minhas escolhas também…

Hoje quero simplesmente contar aqui uma das melhores escolhas que fiz na vida. Acolher e dar boas vindas à Sarah, quando eu tinha 42 anos. Sim, ela chegou com muita honestidade.

Na primeira ecografia soubemos que havia algo de particular e, depois da amniocentese, comprovamos que ela tinha síndrome de Down. 

Na Espanha me deram todos os papéis para abortar legalmente, mas nossa decisão familiar foi de reconhecer a bênção que estava chegando em nossas vidas. Sarah vinha do Planeta Sol para aquecer e alegrar nossas vidas e nossos corações. Atualmente ela tem 15 anos, uma mocinha que encanta por ser como ela é; um SER ESPECIAL!

Educar é um ato miudinho e os resultados são avassaladores, tanto para lograr o melhor ou o pior. Acertar é complicado, exigente, demanda tempo e astúcia.

E continuo meu agradecimento. Meus filhos são meu maior e melhor legado na Terra. Minha vida teve mais sentido e alegria depois da chegada dos 4.

Educar é um ato de coragem, disciplina, atenção, uma dedicação intensa e sobretudo uma abundância de amor. Me sinto privilegiada e tenho uma profunda gratidão pelos 4 filhos maravilhosos que sigo acompanhando porque, mesmo ausente fisicamente no cotidiano deles, sei que estamos conectados no amor, na confiança, no afeto.

Agradeço aos 4 por terem me ajudado a ser uma pessoa mais centrada, madura, generosa, menos egoísta, por terem me ensinado a buscar o melhor que existe em mim, diariamente.

Educar é um ato miudinho e os resultados são avassaladores, tanto para lograr o melhor ou o pior. Acertar é complicado, exigente, demanda tempo e astúcia.

Para mim, o mais importante é acompanhar com um olhar atento, sincero, amoroso, com um diálogo franco e honesto. O demais chega de mansinho… É desfrute de alegria e explosão de amor a cada encontro.

Mais uma vez muito obrigada Laura, Rafael, Daniela e Sarah por este encontro eterno de amor incondicional. Ele é o registro da nossa história compartilhada. Que seja infinito e que perdure. Amo vocês intensamente cada dia e estarei sempre aqui pronta para o abraço. Algum desejo?

Que outras mães possam sentir o mesmo que eu sinto quando penso nos meus 4 filhos. Orgulho, satisfação e a certeza de que ser mãe é meu maior e melhor projeto na vida.

Deborah Pimenta é dona do 21º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”. Ela é pedagoga e, após nascimento da quarta filha, passou a atuar como cuidadora de crianças, profissão que exerce até hoje na França, onde mora com as duas filhas mais novas.