20/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 20/01/2019 00:00 -02

Debora Ambrósia e a vontade de mostrar que a periferia também fala de amor

Produtora do Slam das Minas RJ quer contar histórias que não narrem exclusivamente sobre a dor da favela.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Debora Ambrosia é a 319ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

A cerca de 340 km do Rio de Janeiro está a cidade mineira de Cambuquira, que comporta pouco mais de 13 mil habitantes. O pequeno município é onde Debora Ambrósia, de 30 anos, nasceu, mas foi na capital fluminense que ela tornou-se uma mulher forte, decidida e retomou as rédeas da sua vida. Depois de trabalhar por anos na noite carioca, Debora se encontrou como a produtora do Slam das Minas RJ, um coletivo focado em divulgar pelos quatro cantos do Rio de Janeiro poesia, amor e apresentar novos expoentes da rima.

Debora aportou definitivamente no Rio aos 18 anos, entre idas e vindas. Na infância, sua mãe trabalhava na cidade e por isso ela lembra de passar suas férias com os cariocas. Por uma época, morou definitivamente, mas aos 15 decidiu voltar de vez para Minas Gerais. Ela conta que nunca teve medo de trabalho, e já trabalhou até em plantação colhendo frutas. Mas a história de sua vida no Rio tem um início triste: ela saiu de Minas depois de ser agredida fisicamente por um homem. Por três meses, viveu um período de depressão profunda: “Fiquei esse período todo fazendo artesanato, coloquei minha energia toda ali”.

Era uma outra coisa, bem diferente do que eu trabalhava nos bares: tinha a ver com poesia.
HuffPost Brasil
Conseguir viver de arte no Rio de Janeiro não é fácil, mas é o desejo de Debora para si mesma e para as meninas do Slam das Minas.

Depois desse episódio, Debora construiu sua vida trabalhando na noite carioca: bares, restaurantes e boates foram caminho para que ela descobrisse que tem o dom de organizar, produzir e comandar qualquer negócio. Depois da demissão do último emprego formal, decidiu abrir seu próprio negócio e vender pizzas em rodas de samba no Rio de Janeiro. Esta foi a última empreitada de Debora antes de realmente trabalhar com produção cultural e artística, que é o que realmente gosta.

Quando foi convidada para trabalhar com o Slam das Minas, nem titubeou: “Aceitei porque eu iria trabalhar com o que eu gostava e com mulheres. Era uma outra coisa, bem diferente do que eu trabalhava nos bares: tinha a ver com poesia. Era o que eu queria fazer, e sabia que eu iria agregar muito”, conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Pagar o aluguel com poesia era uma coisa que eu não esperava.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Aceitei porque eu iria trabalhar com o que eu gostava e com mulheres."

Por cerca de seis meses no comando da produção do grupo, Debora viu as meninas que o compõem ficarem em situação delicada em relação a dinheiro. Elas viviam de passar o chapéu ao fim das apresentações, até que foram convidadas para um grande evento no interior do estado do Rio de Janeiro. Para lá, carregaram algumas zines para vender, entre uma apresentação e outra, e se fortaleceram enquanto coletivo.

“Nós fomos, e quando voltamos já era um coletivo montado. Voltamos com muita força para manter isso. Desde então, de julho para cá, já conseguimos viver mais tranquilas e pagamos o nosso aluguel com poesia. Isto era uma coisa que eu não esperava, mas apostei que ia dar certo e deu”, afirma.

 

A gente não precisa vender a dor, pode vender a nossa arte.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Os próximos planos de Debora e do slam consistem na construção de uma casa coletiva, para exaltar a fala e a voz da mulher.

Conseguir viver de arte no Rio de Janeiro não é fácil, mas é o desejo de Debora para si mesma e para as meninas do Slam das Minas. Ela conta que o movimento de slam está em franca ascensão, e que todo mundo vê ali apenas um mercado, mas que não é só isso.

“A gente não está pensando só na gente quando a gente fala que quer dinheiro, quer trabalhar. A gente está pensando em todas as mulheres, tem uma questão de se preocupar com as outras também. Existem mulheres que estão em situação de violência doméstica e nos procuram. Não é uma brincadeira”, defende.

Mesmo sendo a poesia uma potente ferramenta de denúncia, Debora defende que o trabalho do Slam das Minas é subverter o que normalmente se pensa sobre a arte produzida nas favelas e periferias: “A gente é contra vender a dor. A gente não precisa vender a dor, pode vender a nossa arte”.

Para ela, o estereótipo de negro e favelado que só consegue discutir ou expor sua dor já está ultrapassado, e isso fica evidente na última batalha final que o Slam das Minas produziu. “A gente tem muita arte para mostrar do que somos capazes. Na última final, quase todos os poemas falavam sobre amor. Mulheres lésbicas falando sobre amor. O preto periférico não tem só dor, ele tem muita coisa para oferecer”, afirma, de forma firme.

O sorriso largo, responsável por deixar os olhos pequenininhos entre uma gargalhada e outra, não existe para esconder qualquer traço da história da produtora. À reportagem, ela conta como foi superar, além da primeira agressão que sofreu, o fato de que foi agredida, inclusive na gravidez, pelo pai da própria filha. Hoje com 10 anos, Maria é a melhor amiga de sua mãe, mas obviamente sente-se desconfortável ao ouvir sobre o tema. A dor vivida por Debora no início da vida da adulta não eclipsou sua vontade de viver, principalmente com Maria nos braços. E a história mostra que o saldo, até agora, é positivo.

“Em vários momentos, pensei em voltar para a minha cidade, mas decidi ficar com minha filha. No início, já passamos um mês comendo praticamente pão com mortadela, mas eu fiquei. A vida e a filha eram minhas. Quando eu vejo tudo isso acontecendo, fico abismada”, revela.

Quando o preto periférico ouve as meninas falando de outra coisa que não a dor, ele se vê de outra forma.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Debora defende que o trabalho do Slam das Minas é subverter o que normalmente se pensa sobre a arte das favelas e periferias.

“Tudo isso”, que impressiona a vida da produtora, vai desde o reconhecimento e solidez do grupo em que trabalha até os convites recebidos para discutir temas como a gordofobia fora do Brasil. Recentemente, Debora esteve na Argentina, junto com o Slam das Minas, para uma apresentação. Poucos dias antes do início da viagem, que durou seis dias de ônibus, considerando ida e volta, descobriu que iria compor um debate sobre a realidade de ser gorda em um país como o Brasil.

“Eu já tinha uma autoestima elevada em relação à minha gordura. Depois da depressão, eu passei a não me importar mais com o que os outros pensam. Eu vou à praia de biquíni, porque todo mundo vai. Eu não tenho problema com esse tipo de coisa. Esse rolê [na Argentina] me deu mais empoderamento do que eu já tinha”, explica.

Os próximos planos de Debora e do slam consistem na construção de uma casa coletiva, para exaltar a fala e a voz da mulher, firmar mais trabalhos que trabalhem com poesia e, no campo pessoal, vem por aí até casamento. Sobre o desafio de produzir um grupo que produz arte tida como marginal, ela explica que a maior dificuldade é a falta de reconhecimento financeiro. Mas com luta, persistência e, principalmente, firmeza, elas pretendem chegar muito mais longe: nos corações. Até agora, objetivo atingido. “Quando o preto periférico ouve as meninas falando de outra coisa que não a dor, ele se vê de outra forma. É o que a gente quer.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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