MULHERES
24/02/2020 16:25 -03

'O maior recado é que o corpo é nosso', diz criadora do bloco 'Vaca Profana'

Bloco de Carnaval feminista criado em Pernambuco rompe com padrões ao exaltar a liberdade dos corpos; grupo briga por patrocínio em meio a onda conservadora.

Arquivo Pessoal
O bloco surgiu após uma fantasia usada por Dandara Pagu em 2015.

Nasceu em Recife e por isso tinha um outro sentido. Desde sempre. Festa sim, não se pode negar. Mas vai além. “É um significado realmente religioso e tem uma simbologia muito forte. Desde criança eu via minha vó desfilando no carnaval, meu avô. Cresci de fato nesse lugar do carnaval”, lembra a produtora cultural Dandara Pagu, 31 anos. Desde 2016, além de vivenciar os dias de carnaval, ela passou também a comandar um bloco criado por ela, o Vaca Profana.

Mulheres com os seios de fora vão às ruas em São Paulo e em Olinda, Pernambuco. “Acho que o maior recado que a gente pode passar é, de fato, o quanto o corpo é nosso, e trazer essa discussão dentro do lugar lúdico e da brincadeira da permissividade do carnaval”, diz.

O bloco surgiu após uma fantasia usada por ela em 2015. Com uma cabeça de vaca e sem blusa, Dandara foi pular o carnaval. “Fui abordada de forma violenta por um policial e acho que isso foi um estalo. E percebi. Meu estalo para acordar para o feminismo foi quando percebi que não era dona do meu corpo”, lembra. Depois disso, juntou outras vacas - com muito orgulho.

Dandara atua na área cultural desde a adolescência, quando se destacou em um curso de produção que aconteceu em seu bairro. “Era um bairro super perigoso e as pessoas que mais se destacaram ganharam uma bolsa pra trabalhar e comecei na secretaria de cultura”. Depois se envolveu com teatro, cinema e música. Hoje faz produção de shows e atua com artistas como Liniker e Luedji Luna, além de fazer programas de TV e trabalhar como DJ e performer.

Acho que o maior recado que a gente pode passar é, de fato, o quanto o corpo é nossoDandara Pagu
Arquivo Pessoal
Integrantes do bloco "Vaca Profana" em São Paulo.

Em 2020, apesar de todo o amor pelo carnaval, nem tudo está tão festivo. Sem os patrocínios e apoios dos anos anteriores, o Vaca Profana enfrenta desafios para conseguir desfilar. Por isso, o grupo organizou uma vaquinha para pagar a orquestra de frevo que toca nos desfiles do bloco.

Mas, apesar das dificuldades, o grupo defende que os dias de carnaval podem ir além da brincadeira e devem levantar bandeiras e questões sociais.

“Essas dificuldades não vão nos abater porque agora é que tem graça de botar na rua mesmo. Quando o povo não quer”, provoca. A produtora cultural e criadora do bloco conversou com o HuffPost Brasil sobre o movimento, a importância dele e a expectativa para esse carnaval. 

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: A ideia do bloco surgiu depois de um episódio envolvendo uma fantasia de Carnaval que você criou. Como foi esse processo?
Dandara Pagu: O bloco surge depois de uma fantasia de carnaval que eu fiz. Estava com um shorts cropped, de vaca, e os peitos à mostra com glitter. Era uma alusão à música do Caetano, Vaca Profana, era o nome da fantasia. Fui abordada de forma violenta por um policial e acho que isso foi um estalo. E percebi. Meu estalo para acordar para o feminismo foi em 2015, quando percebi que não era dona do meu corpo, mais ainda se ele não era um corpo padronizado e que, óbvio, o corpo da mulher é sempre usado para algum tipo de venda, ou alguém decide se ela pode ou não pode mostrar. E disso, dessa indignação, dessa humilhação e dessa dor eu transformei em um bloco de carnaval. Pensei que no ano seguinte não ia sair sozinha, não ia dar esse lugar para que pudessem me atacar. No ano seguinte saímos 7 mulheres, depois 50, depois 100, ano passado saímos com 5 mil. 

Fui abordada de forma violenta por um policial e acho que isso foi um estalo. E percebi. Meu estalo para acordar para o feminismo foi quando percebi que não era dona do meu corpoDandara Pagu
NurPhoto via Getty Images
Desfilando pela primeira vez em São Paulo, em 2018, o bloco Vaca Profana propôs uma reflexão sobre assédio e machismo.

Como o bloco foi evoluindo e qual a principal mensagem que ele transmite hoje?
A gente desfila tanto em São Paulo, no pré-carnaval, quanto em Olinda, na segunda de carnaval, e acho que o maior recado que a gente pode passar é, de fato, o quando o corpo é nosso, e trazer essa discussão dentro do lugar lúdico e da brincadeira da permissividade do carnaval. Eu acho que é uma sacada muito interessante. Para além, eu recebo inúmeras mensagens de agradecimento. E acho que o bloco traz muito isso, traz o respeito à sua vontade, até porque tira a blusa quem quer. Mas, ao mesmo tempo, também traz esse um dia de liberdade e de união das mulheres e é muito bonito

Qual a sua relação com o carnaval? O que ele significa para você?
Os paulistas que me desculpem, mas, para quem é pernambucano, o carnaval é religião. Aqui, morando em São Paulo, eu percebi que ele é muito linchado, você tem que entrar em uma rua xis para encontrar uma quantidade de pessoas que está no nível do carnaval. Em Olinda não. Você vai descer no aeroporto e ‘se pá’ o comissário de bordo já está fantasiado. É uma efervescência, é um lugar de força, de poder, de equidade, de igualdade entre as pessoas para com a ideia de brincar o carnaval, de fantasiar, de ser lúdica, de se expressar. Natal, Ano Novo - não me traz nenhuma emoção. Mas o Carnaval, eu chego no primeiro dia, escuto os clarins, que é meio a anunciação de que está vindo o bloco, e eu começo a me arrepiar e chorar. E tem isso de Pernambuco ser um lugar onde a cultura é muito múltipla. Você tem maracatu, caboclinho, samba, frevo, frevo canção, rap beats. Então é uma cidade onde você vai viver o carnaval da forma que você quiser. E isso é muito fantástico. Então carnaval para mim é realmente religião, é uma coisa que eu amo muito. É um significado realmente religioso e tem uma simbologia muito forte. Desde criança eu via minha vó desfilando no carnaval, meu avô. Cresci de fato nesse lugar do carnaval.

São mulheres que fazem isso porque elas querem, é um momento de liberdade delas e é muito importante isso estar na rua mesmo.Dandara Pagu
NurPhoto via Getty Images
Com os seios expostos, o grupo canta não apenas frevos, mas entoa palavras de ordem, a fim de estimular o empoderamento feminino e combater o assédio.

Qual a importância de levantar discussões e enxergar o carnaval como uma expressão política e cultural hoje em dia?
Acho que a importância de levantar discussões é que a gente consegue continuar trazendo assuntos importantes de uma forma irreverente. Você não precisa parar de militar durante o carnaval. É engraçado porque a palavra militar caiu em desuso, tudo que é importante ser dito parece que cai em desuso e vira modinha, já usou demais, mas é importante militar. E o legal do carnaval é que você pode fazer isso talvez da forma mais solta e mais livre realmente. Não vou conseguir o ano inteiro ficar sem sutiã por milhões de motivos, mas um dia eu escolho celebrar esse lugar do meu corpo e estar de boa com isso. E acho que essa é a importância. Ela vai para além do social, ela vai para o pessoal também. São mulheres que fazem isso porque elas querem, é um momento de liberdade delas e é muito importante isso estar na rua mesmo. Mas tem muita gente que ainda não se liga nisso, tem muito preconceito.

Como estão os preparativos para esse ano? Quais os desafios de colocar o bloco na rua?
Esse ano é um dos piores anos para quem faz bloco porque o retrocesso do Brasil está em tudo, para todo mundo. A gente já está demente, pelo menos é o que eu sinto, já está tudo dormente no corpo de tanto que já apanhou. Está difícil e esse ano todos os parceiros que eram da Vaca não vão poder patrocinar e nunca tem uma explicação. Mas tem né? Governo é governo e quem quer um bloco com seios de fora? E não são seios padrão globeleza, propostos no fetichismo da mulher. São seios livres por vontade própria. Está bem difícil, a gente está bem sem grana. A gente está vendendo camiseta, fazendo vaquinha. A gente tem metade do dinheiro que precisa para desfilar, mas seguimos porque carnaval é militância, sim, e essas dificuldades não vão nos abater. Agora é que tem graça de botar na rua mesmo, quando o povo não quer. Está sendo difícil, mas a gente segue na luta até o fim.

NurPhoto via Getty Images
"Acho que para além de tudo, é preciso que a gente consiga de fato se desprender de todos os nossos preconceitos", afirma Dandara.

Qual a expectativa para o carnaval de 2020 como um todo, levando em consideração o contexto social atual do Brasil, com a polarização e o crescimento de discursos conservadores?
Acredito que, com a atual disposição, tudo está sendo mais fechado e mais careta. Mas como diz a música, a gente joga “leite mau na cara dos caretas” então estamos aí para isso. Acho que a premissa do respeito real ao corpo e ao desejo da mulher vem da permissão de que um dia por ano eu quero tirar a blusa e não quero ser incomodada por isso. Eu quero dar uma volta na rua sem blusa e voltar e viver minha vida. Tem várias coisas que o bloco representa. Mas tenho me sentido um pouco sozinha nisso.

Quais os planos para o futuro do bloco?
Uma coisa que queria dizer é que o bloco em si é de frevo. Ele é de Olinda e a gente toca frevo, e meu projeto maior é montar uma escola de frevo só para mulheres aqui em SP. Então até queria já fazer um apelo: mulheres de sopro, chega ‘nóis’ que a gente vai montar uma escola de frevo e ele vai ser fundado em São Paulo através das mulheres. Vai virar um ponto histórico. Fora isso estamos com a vaquinha e vendemos as camisetas. Todo ano escolhemos uma artista mulher para fazer nossas camisetas. Esse ano o tema é que toda bandeira de amor vale a pena. Estamos de mãos dadas ao máximo com o amor livre, com as escolhas pessoais de cada um, o respeito ao amor, seja ele a quem for, com quem for.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost