LGBT
26/08/2019 18:39 -03 | Atualizado 28/08/2019 21:07 -03

'Marie', curta com temática trans, leva quatro prêmios no Festival de Gramado

"As pessoas decidiram que a minha vivência pode ser representada por mim mesma”, disse atriz Wallie Ruy, ao receber prêmio no último domingo (25).

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Marie festival de gramado

O curta Marie, dirigido pelo pernambucano Leo Tabosa e estrelado pela atriz trans Wallie Ruy, foi premiado em três categorias, além de levar o Prêmio Especial do Júri, no 47º Festival de Cinema de Gramado neste fim de semana.

Entre os curtas brasileiros, Marie foi premiado na categoria de Melhor Ator, pela atuação de Rômulo Braga; na de Júri da Crítica e também no Prêmio aquisição Canal Brasil. Ao anunciar o Prêmio Especial do Juri para as atrizes Divina Valéria e Wallie Ruy, pela atuação no curta, o júri do festival justificou que:

“Para as atrizes Divina Valéria e Wallie Ruy, em Marie, por nos permitirem vivenciar deslocamentos corporais inesperados e por imaginarem um futuro travesti num país que mais mata trans no mundo.”

A violência contra pessoas trans no Brasil

O Brasil é o País que mais mata pessoas trans no mundo, segundo a ONG Trasgender Europe. Entre 1º de outubro de 2017 e 30 de setembro de 2018, 167 transexuais foram mortos no país.

A pesquisa, feita em 72 países, classificou o México em segundo lugar, com 71 vítimas, seguido pelos Estados Unidos, com 28, e Colômbia, 21.

De acordo com um levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), feito em conjunto com o Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE), 163 pessoas trans foram assassinadas no País em 2018. Segundo o relatório, 97% delas eram travestis e mulheres trans, 82% eram pretas ou pardas e 60,5% tinham entre 17 e 29 anos.

O relatório afirma ainda que o número de assassinatos registrado é menor do que o que de fato ocorre, reforçando que há subnotificação e que a falta de tipificação deste tipo de crime dificulta o monitoramento dos dados.

Divina e Wallie compõe o elenco do curta que conta a história de Mário que, após passar 15 anos longe de sua cidade natal, retorna para o enterro de seu pai como Marie (Wallie Ruy), uma mulher trans. Ao reencontrar seu amigo de infância, Estevão (Rômulo Braga), ela faz uma intensa viagem ao passado.

Ao receber o prêmio, a atriz Wallie Ruy foi aplaudida de pé. Em seu discurso, que foi publicado em seu perfil do Instagram, ela lembra a violência com a qual a população trans é submetida no Brasil e reivindicou o lugar de atrizes trans.

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“A minha população tem uma idade média de 35 anos. Eu tenho 33. Eu estou chegando perto dessa média. E eu preciso dizer também que a arte é um lugar que revela e impõe poder (...). E agora, finalmente, as pessoas decidiram que a minha vivência pode ser representada por mim mesma”, disse.

Com cenas gravadas na Cidade do Congo, na Paraíba, a produção teve recursos captados pela Lei Rouanet e contou com o apoio do Armazém Coral e da Universidade Católica de Pernambuco (UCP).

Neste ano, Marie será exibido no 30º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, no 29º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema, no 26º Festival de Cinema de Vitória e também na 9ª Goiânia Mostra de Curtas.

Além de Marie

Baseado em uma história real, Pacarrete, filme estrelado pela atriz Marcélia Cartaxo - foi o grande vencedor do 47º Festival de Gramado. O longa do estreante Allan Deberton faturou oito Kikitos, incluindo de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Roteiro.

Filmado na cidade de Russas, no Ceará - onde viveu a personagem-protagonista e cidade natal de Deberton -, Pacarrete conta a história de uma mulher que alimentou desde criança o sonho de ser bailarina e viver a vida na ponta da sapatilha, mesmo sendo de uma cidade conservadora.

Deberton também é produtor da série Transversais, que conta a história de cinco cearenses transgêneros e foi citada nominalmente por Bolsonaro em live no dia 15 de agosto.

Projeto concorria à chamada pública RDE/FSA PRODAV, um edital da Ancine com o objetivo de selecionar séries para TVs públicas em canais como a TV Brasil, com financiamento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). 

Edital, que contemplaria mais de 80 obras não só dentro da temática “diversidade de gênero” e “sexualidade”, foi vetado na semana passada pelo Ministério da Cidadania após críticas do presidente.

Segundo o site GaúchaZN, ao receber o prêmio de melhor direção, Deberton citou Bolsonaro diretamente e disse que fará Transversais “mesmo assim”.