OPINIÃO
17/07/2020 04:00 -03 | Atualizado 17/07/2020 04:00 -03

'Cursed' é mais uma tentativa da Netflix de ter seu próprio 'Game of Thrones'

Série que faz uma releitura das lendas do Rei Arthur estreia nesta sexta-feira (17) no catálogo da plataforma.

Por mais que as últimas temporadas de Game of Thrones (2011-2019) tenham sido, no mínimo, decepcionantes, o mega sucesso da trama de fantasia da HBO é quase uma obsessão para a Netflix, que ano após ano aposta em séries do gênero para ter seu próprio GoT. Cursed - A Lenda do Lago, que estreia no catálogo da plataforma de streaming nesta sexta-feira (17), é apenas mais uma dessas tentativas.

Agora, se ela conseguirá ou não alcançar o seu objetivo e se tornar, assim como a produção da concorrente, um marco da TV americana, isso só o tempo dirá. Porém, depois de assistir aos 5 primeiros episódios da série baseada no best-seller escrito por Tom Wheeler e a fera dos quadrinhos Frank Miller, já dá para se ter pelo menos uma primeira impressão.

Reinterpretar a lenda do Rei Arthur pode parecer arriscado, mas há tantas produções baseadas nessa narrativa mítica que foram tão bem condensadas em Le Morte d’Arthur, escrito por Sir Thomas Malory em 1485, que optar por uma releitura parece até um caminho mais seguro, dando a Wheeler e Miller liberdade para brincar na construção de um mundo medieval/fantástico que soasse como algo novo. O problema é que, em grande parte, a oportunidade não foi bem aproveitada.

A série é até bem-sucedida em alguns aspectos que essa liberdade criativa lhe dá, como a diversidade de seu elenco, colocada na trama de forma natural, sem que seja obrigada a explicar que um povo x ou y é composto por pessoas de etnia x ou y. Isso é bem louvável por parte da Netflix, que já vêm aplicando essas mudanças de mentalidade em outras produções, como o recente filme The Old Guard.

Divulgação
Katherine Langford (de "13 Reasons Why" e "Entre Facas e Segredos") como Nimue.

No entanto, em todo o resto, como roteiro, direção, atuações e até efeitos especiais, Game of Throne e Cursed estão a anos-luz de distância um do outro. Há até alguns personagens que tentam trazer alguma complexidade à Cursed, mas a trama é extremamente maniqueísta e se tem a impressão que foi investido bem menos dinheiro aqui do que na filmagem de GoT. Há os Paladinos Vermelhos, um grupo de monges do mal, e os feéricos, seres mágicos do bem.

Entre eles, gravitam figuras marcantes do imaginário mundial, como Arthur e o mago Merlin (só para ficar entre os mais famosos), mas eles estão tão presos a essa luta do bem contra o mal personificado pela figura da protagonista Nimue, que tudo parece óbvio. O cúmulo dessa sensação acontece em um momento de uma grande revelação no 5º episódio, que é tão Star Wars que chega a ser ridículo de tão previsível. 

Cursed - A Lenda do Lago conta a história da feérica Nimue (Katherine Langford) que, ao ver seu vilarejo violentamente atacado pelos Paladinos Vermelhos, recebe de sua mãe, à beira da morte, uma espada mágica que ela precisa entregar ao mago Merlin (Gustaf Skarsgård). No caminho, ela conta com a ajuda do jovem Arthur (Devon Terrell), um mercenário que sonha em se tornar um cavaleiro honrado.

Mas a tarefa não será nada fácil, pois o comandante dos implacáveis Paladinos Vermelhos, o Padre Carden (Peter Mullan), e seu protegido, o misterioso Monge Chorão (Daniel Sharman), estão em seu encalço.

É impossível bater o martelo definitivamente sobre a temporada toda da série sem vê-la em sua totalidade, mas é visível que se a Netflix seguir nessa mentalidade de agradar a tudo e a todos, suas produções no gênero fantasia nunca vão alcançar a complexidade de GoT (pelo menos enquanto a produção tinha os livros de George R. R. Martin para se apoiar), e Cursed - A Lenda do Lago será mais uma vítima desse moedor de carne.