NOTÍCIAS
28/03/2020 01:00 -03 | Atualizado 28/03/2020 01:00 -03

Como cuidar melhor dos nossos idosos para protegê-los do coronavírus

“Quanto mais isolados socialmente esses idosos ficarem pelo período de surto, mais eles ficarão protegidos”, diz presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

Poucas coisas são claras em relação à disseminação do novo coronavírus, mas há uma certeza: nossos idosos compõem o principal grupo de risco da doença. É entre eles que os riscos e a taxa de mortalidade são maiores ― especialmente entre aqueles com mais de 80 anos. 

A letalidade na população em geral é de 2,3%, mas considerando a faixa etária entre 60 e 69 anos é de 3,6%. Dos 70 aos 79 anos, ela cresce para 8%. Quando passa de 80 anos, o índice chega a 14,8%. 

Os dados integram o mais completo levantamento divulgado até agora sobre o coronavírus e feito pelo Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças (Chinese Centre for Disease Control and Prevention - CCDC) a partir da análise dos primeiros 44.672 casos confirmados no país.

Os números indicam ainda que também são entre as pessoas com idade avançada que os casos são mais severos. O período já delicado da vida exige ainda mais cuidados neste momento de pandemia. Com a intenção de protegê-los, pessoas que convivem diariamente com idosos têm se perguntado o que podem fazer para preservar ao máximo seus pais e avós. 

Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), o médico Carlos André Uehara é taxativo na resposta: “o fundamental é mantê-los em casa”. “Quanto mais isolados socialmente esses idosos ficarem pelo período de surto, mais eles ficarão protegidos.”

Quanto mais isolados socialmente esses idosos ficarem pelo período de surto, mais eles ficarão protegidos.Carlos André Uehara, médico geriatra
Europa Press News via Getty Images
Idoso só deve sair de casa se for estritamente necessário. 

Uheara recomenda ainda que o idoso não suspenda nenhum tipo de medicação e que tome as vacinas. “Quem precisar sair de casa para se vacinar terá de evitar aglomerações, manter distância das pessoas e lugares fechados. Se não tomou, tomar também a vacina contra pneumonia”, aconselha. Consultas de rotina, segundo o médico, também devem ser evitadas, a menos que o idoso apresente algum sintoma agudo. 

Nesta semana, começou a campanha de vacinação da gripe e este ano o Ministério da Saúde inverteu a ordem de prioridades e colocou idosos e profissionais de saúde em primeiro lugar. Embora não haja evidência sobre a eficácia da imunização contra influenza no combate ao coronavírus, ajuda a reduzir os quadros de doenças respiratórias e evita sobrecarregar o sistema de saúde. 

Aos que têm possibilidade de fazer exercícios em casa, é recomendado manter essa rotina. “O idoso que não [pode], se tiver espaços abertos próximos de casa, pode sair, dar uma caminhada e voltar para casa”, acrescenta. Participação em missas e cultos também não é recomendada. “Se puder, é melhor acompanhar as missas pela TV, fazer suas orações em casa, para que não haja exposição.”

Uma das delícias de ser avó ou avô, que é a visita dos netos, também terá que ser repensada. Crianças e adolescentes são vetores da doença e muitas vezes assintomáticos ou com poucos sintomas.

“Tem de evitar ao máximo o contato. Tem aqueles que falam que preferem morrer a não ver os netos, mas é preciso pensar. Se o risco de a criança estar infectada for pequeno, se ela não apresentar nenhum sintoma, tudo bem. Mas se a criança estiver doente ou tiver tido contato com alguém com a doença, aí é evitar mesmo”, destaca Uheara. 

monkeybusinessimages via Getty Images
Contato físico com crianças e adolescentes não é recomendado para idosos. 

O conselho também tem sido frisado pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. “Muitas crianças são assintomáticas, não desenvolvem nem uma coriza. Não tem uma avó que não coloque o neto no colo e não encha de beijos. Pedir para que elas não os beijem, não os abracem e não deem colo seria muito duro. Então procurar dialogar, conversar, proteger”, completa. 

A orientação do ministro de buscar o diálogo vale especialmente para os pais e avós teimosos. 

Nesses casos, é seguir o mantra do ministro: “conversar e proteger”.

A portaria que decretou estado de transmissão comunitária em todo o País prevê que pessoas com mais de 60 anos de idade “devem observar o distanciamento social, restringindo seus deslocamentos para realização de atividades estritamente necessárias, evitando transporte de utilização coletiva, viagens e eventos esportivos, artísticos, culturais, científicos, comerciais e religiosos e outros com concentração próxima de pessoas”.

Quem cuida 

Quem vive com idosos na mesma casa também tem de estar em isolamento. Tendo necessidade de sair, o médico indica fazer o possível para não levar o vírus para casa nem ficar doente.

“É preciso tomar cuidados básicos de higiene de mãos, não levar mãos ao olho, rosto, boca, limpar frequentemente com álcool em gel ou água e sabão. Não esquecer de limpar as mãos quando pegar no celular, no cartão de crédito ou em aparelhos para digitar a senha, elevador. O ideal é sair e voltar com pouca coisa, não ficar levando bolsa e adereços porque eles são possíveis veículos [de transmissão]”, diz. 

Ainda segundo ele, ao chegar em casa, o ideal é desinfetar o celular, canetas, crachá. “Chegou em casa, tire a roupa e vá direto para o banho. Não sente no sofá com a roupa que acabou de chegar da rua. Evite contatos sociais muito próximos. Neste momento, relações de afeto muito próximas devem ser evitadas, principalmente quem fica indo para a rua e voltando.”

Coordenador de vigilância em saúde e laboratórios da Fiocruz, o infectologista Rivaldo Venâncio alerta que não podemos criar um estigma em relação ao idoso devido a este momento de pandemia.

“Vamos comparar duas pessoas, uma com 40 anos de idade e outra com 60. A pessoa com 60 anos que não tem qualquer doença de base, doença cardiovascular, asma, nunca fumou, diabetes, pratica atividades físicas, essa pessoa é muito menos vulnerável às formas graves da infecção do que uma pessoa com 40 anos de idade e que fuma desde os 18 anos, que é sedentária. Então, não é a idade per si. Isso só a partir de 75 anos. Mas com 55, 60 anos, nos temos que deixar claro que existem hábitos que precisamos ter para nos mantermos saudáveis.”

Para todos, independentemente da idade, a orientação é a mesma. Manter distância social, evitar automedicação, procurar unidade de saúde em caso de sintomas e preste atenção na febre. Ele faz uma ressalva em relação aos idosos, que a febre pode ser desenvolvida apenas no quadro clínico mais grave.

Saúde mental

Um público que não pode ser esquecido são aqueles que moram em instituições para idosos. Nesse caso, o médico destaca que todas as visitas devem ser canceladas. “Esses idosos devem ser mantidos em isolamento máximo. A probabilidade de um ficar doente e muitos outros também irem a óbito é grande”, alerta o presidente da SBGG.

Sem visitas e em isolamento, quadros delicados de saúde mental podem piorar. A indicação é fazer o máximo de interações possíveis com seus pais ou avós nessa situação, usando Skype ou Google Hangout, encontros pelo celular ou computador. “Temos que usar muito a tecnologia a nosso favor para diminuir os efeitos da quarentena”, diz Uheara. 

Westend61 via Getty Images
Celular é um grande aliado nesse momento de isolamento social.

Psicóloga credenciada à Vittude, Eliana Totti reforça a importância da comunicação. “Jogar conversa fora e somente ouvi-los já será muito importante”, diz. Para ela, a tecnologia também é a grande aliada. 

“Solidão vai acontecer. Por isso aqui vale a criatividade para usar os recursos permitidos e disponíveis a fim de manter os idosos ocupados. Por exemplo: cantar parabéns online, jantar online, fazer ginástica online. É hora de ser criativo”, diz. 

Para os idosos que moram sozinhos, Totti pontua que eles ‘tendem’ a ser acostumados a estar em casa. “Mas normalmente eles possuem mobilidade. Este é o problema. Sem mobilidade, eles podem ficar muito deprimidos. Eventualmente, a família pode convencer o idoso a também ter acompanhamento psicológico profissional online.”

Para quem quiser ajudar, há uma plataforma online, chamada Anjo, que dá orientações sobre como voluntários podem ajudar idosos por meio de contato virtual a não enfrentarem esse momento sozinhos. 

Em resumo… 

  • Cuide e proteja os idosos
  • Mantenha-os em casa
  • Não é indicado suspender medicamentos de rotina
  • Vacinação contra gripe e pneumonia é recomendada
  • Consultas de rotina devem ser suspensas
  • Manter rotina de exercícios, desde que seja em casa ou em espaços abertos sem contato humano
  • Acompanhar missas e cultos pela TV
  • Evitar contato com crianças e adolescentes
  • Nada de transporte coletivo, viagens e eventos
  • Se precisar ir à rua, evitar aglomerações e locais fechados
  • Aos cuidadores, higienização das mãos e de objetos é fundamental
  • Mesmo distante fisicamente, esteja por perto