COMPORTAMENTO
28/08/2019 03:00 -03 | Atualizado 28/08/2019 09:10 -03

Como cuidar de si mesmo quando seus pais estão morrendo

Conhece a metáfora da máscara de oxigênio? Pois é.

Quando um de seus pais recebe o diagnóstico de uma doença terminal, você talvez imediatamente entre no modo “cuidador” – levando-os para consultas médicas, buscando remédios na farmácia, mantendo sempre uma atitude positiva e fazendo tudo o que for possível para mantê-los confortáveis.

Mas é importante não esquecer de si mesmo.

“Quando alguém da família sofre de uma doença grave, você pode ficar tão envolvido, que acaba esquecendo de coisas como se alimentar de forma saudável, caminhar ou dormir”, diz VJ Periyakoil, especialista em cuidados paliativos da Stanford Health Care, em San Francisco, ao HuffPost US.

A exaustão só vai te impedir de estar 100% presente quando seus pais precisarem de você – e vai colocar sua saúde em risco.

Brent T. Mausbach, psicólogo do Moores Cancer Center, da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, diz que cuidadores que esquecem de si mesmos “correm o risco de sofrer de depressão, hipertensão e doenças cardiovasculares”.

Mas sendo realista: como cuidar de si mesmo quando uma pessoa amada exige tanta atenção?

É claro que ela será sua prioridade, mas atenção para o spoiler: você não tem como cuidar do outro de maneira eficaz se também não cuidar de si mesmo.

O HuffPost US conversou com médicos e pessoas com experiência em cuidar dos pais doentes para saber quais dicas eles dão sobre os cuidados com a sua própria saúde física e mental neste momento tão importante.

Informe-se

Daniel Vorobiof  – diretor médico chefe da Belong.Life, uma rede social para quem sofre de câncer, seus cuidadores e profissionais médicos – sugere aprender tudo o que for possível sobre o problema de saúde dos seus pais. 

“Estar informado sobre os tratamentos disponíveis, os benefícios e possíveis efeitos colaterais ajuda a apoiar o paciente na hora de tomar a decisão correta”, afirm Vorobiof.

Quando você sabe mais sobre a doença, vai entender eventuais mudanças físicas e mentais do paciente – e poderá lidar com elas de forma proativa. Isso também ajuda na hora de consultar os especialistas certos e na preparação mental para o desafio que terá pela frente.

Peça ajuda

“Não tente cuidar de tudo sozinho. Ninguém dá conta”, diz Elizabeth Landsverk, fundadora do Elder Consult, empresa que oferece cuidados geriátricos domésticos.

Peça ao médico recomendações de serviços que cuidem de tarefas da casa e ajudem a levar os pacientes para as consultas, por exemplo.E recrute outros parentes ou contrate enfermeiros profissionais para ficar de plantão à noite. Considere também contratar uma empregada doméstica ou então um serviço de entrega de refeições ― se for possível, claro, já que todos estes serviços vão exigir mais financeiramente do cuidador e da rede de apoio que pode se formar.

Susan Scatchell, de Illinois, cuidou de seus pais quando eles estavam doentes. Ela sugere manter uma lista das tarefas que você está disposto a delegar e passá-las adiante caso alguém se ofereça para ajudar.

“Pode ser passear com o cachorro, cuidar do jardim, buscar os netos ou fazer companhia no hospital”, diz Scatchell.

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Converse sobre o que está acontecendo

Encontrar alguém – um terapeuta ou um líder espiritual ― com quem você possa falar aberta e honestamente sobre seus sentimentos ajuda no processamento das emoções.

“A morte tem significados diferentes para cada um, e é importante encontrar alguém que lhe dê apoio”, diz Jodie Robinson, diretora executiva de serviços militares da Centerstone, uma organização que oferece aconselhamento psicológico.

Uma ideia é encontrar pessoas que já passaram por algo parecido, afirma Michelle Braley, gerente clínica da The Learning Corp, empresa que faz um app usado para tratar transtornos cognitivos e de fala e linguagem.

“Além da simpatia e do incentivo, grupos de apoio presenciais ou online podem ajudar a validar o esforço dos cuidadores e reduzir a sensação de solidão”, diz Braley.

Avise seu chefe do momento que você está vivendo

Muitos adultos não se sentem à vontade para pedir folga no trabalho para cuidar da doença dos pais. Jisella Doan, da Home Instead Senior Care, em Omaha, recomenda conversar com seu chefe sobre qual seria a melhor solução, “como horários flexíveis, divisão da sua carga de trabalho com colegas ou acesso a recursos oferecidos pela empresa”, afirma Doan.

“Garantir o equilíbrio adequado entre vida pessoal e profissional pode fazer uma diferença enorme na sua saúde mental e na sua capacidade de cuidar da pessoa querida”, acrescenta ela.

Aproveite para fazer coisas que te dão prazer

“Fazer coisas que você curte e te restauram é muito importante”, diz Jephtha Tausig, psicóloga de Nova York. Aproveite um momento de calma no hospital para ler. Assista um filme engraçado para melhorar seu humor. Ligue para algum amigo. Tausig afirma que caminhadas são uma ótima maneira de descomprimir e organizar os pensamentos.

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Athletic woman typing message on cell phone after sports training in locker room at health club.

Quando tiver a oportunidade, mexa-se 

“O luto, ou mesmo o luto por antecipação, é uma energia que precisa se mexer”, diz Shelby Forsythia, do podcast “Coming Back: Conversations on Life After Loss”

Ela diz que, quando sua mãe estava morrendo de câncer, corridas diárias eram uma espécie de indulto. “Colocava a música bem alto e corria, nem que fosse por dez minutos.”

Karen Selby, do The Mesothelioma Center, diz que, “se você perceber que fica sentado por longos períodos, coloque um alarme para te lembrar de se levantar e dar uma volta a cada hora”.

Sem tempo para ir à academia? Uma caminhada pelos corredores do hospital ou uma volta do lado de fora para respirar ar puro podem ajudar. Mexer o corpo, mesmo que só um pouco, pode melhorar seu humor.

Priorize o sono. Ele é muito importante

Julie Smith, fisioterapeuta e coach de nutrição em St. Louis, diz que dormir foi essencial para manter-se energizada durante o período em que ela cuidou da mãe, que sofria de câncer.

“O sono é necessário para funções cerebrais, mas também tem um papel muito importante em nossa saúde física e emocional”, afirma ela.

Smith sugere ir para a cama e acordar sempre no mesmo horário. Ela também recomenda fazer exercícios de respiração antes de dormir, uma técnica que a ajudou a relaxar o suficiente para pegar no sono.

Tente não encanar com as brigas de família

Garland Walton, consultor em Nice, na França, ajudou a cuidar da mãe nos últimos meses de vida dela. Ele afirma que o período foi muito estressante para a família.

“Eu e minha irmã nos magoamos muito. Relevei algumas coisas, outras não, mas aprendi que esses episódios não trouxeram nada de bom. Toda briga ou discussão foi um desperdício de energia que eu deveria estar investindo na minha mãe”, diz ele.

Walton afirma que, nesses períodos de crise, o correto é deixar as diferenças de lado e focar nos cuidados com o paciente.

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Mixed age ranges enjoying meal together in family home, pre teen girl pouring water for dinner guests, social vibrant lively family gathering

Mantenha uma alimentação saudável sempre que possível

Uma alimentação nutritiva faz muita diferença, diz a nutricionista Wendy Kaplan. Ela sugere manter beliscos saudáveis sempre à mão e deixar a geladeira cheia de frutas lavadas e cortadas. E não se esqueça de se hidratar.

Considere uma terapia com bichos de estimação

“Estudos mostram que socializar com bichos de estimação podem aumentar os níveis de serotonina e dopamina, que diminuem a depressão e ajudam a relaxar depois de um dia estressante”, diz Nalin.

Portanto, depois de um dia complicado, ficar agarrado no seu bichinho peludo pode ser uma ótima solução para mandar o estresse para longe.

Use roupas confortáveis

Salas de espera já são lugares difíceis por natureza.

“Nunca use roupas que dão trabalho para colocar ou tirar, nunca use roupas ou sapatos desconfortáveis”, diz Bonnie B. Matheson, uma escritora de Washington que cuida de sua mãe, que tem 101 anos.

Outra dica é usar roupas que possam servir na academia, caso sobre um tempinho inesperado.

Não se culpe

Você também merece cuidados – e não deveria culpar-se por isso.

“Se seu pai está no hospital, muito doente, você pode sentir-se culpado por não estar ao lado dele o tempo todo”, diz Stephanie Wijkstrom, fundadora do The Counseling and Wellness Center, de Pittsburgh.

Mas ela observa que o problema com esse tipo de culpa irracional é que ela é invencível. “Você tem de aceitar que se trata de um comportamento irracional e reconhecer que também precisa de cuidados e equilíbrio”, afirma ela.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.