MULHERES
26/09/2019 03:00 -03

Este ensaio poderoso celebra a ‘pele real’ em toda sua plenitude

Sophie Harris-Taylor fotografou 20 mulheres com problemas de pele como acne, rosácea e eczema, para normalizar a beleza natural na era do Photoshop.

“Preciso fazer outras mulheres se sentirem menos sozinhas”, diz Sophie Harris-Taylor, fotógrafa cuja série Epidermis – mostrando as realidades de problemas de pele como acne, rosácea e eczema de 20 mulheres – foi exposta em Londres no começo de setembro.

É irônico que pessoas com problemas de pele se sintam sozinhas, pois 60% dos britânicos vão ter algum tipo de doenças de pele em suas vidas. Mas, num mundo de retoques digitais, o trabalho sem filtro de Harris-Taylor não é a regra.

A fotógrafa de 31 anos teve acne da adolescência aos 20 e poucos anos. Apesar de estar melhor agora (ela fez três tratamentos com o remédio Roaccutane, além de peelings), ela diz que sua pele ainda não está perfeita. Por isso, ela quer continuar atrás da câmera, não na frente dela. 

Foi a experiência pessoal que a levou a mostrar a pele como ela realmente é para muitas mulheres. “Foi um duro golpe na minha autoestima quando eu era mais jovem. Sentia muita insegurança, e foi isso o que me levou a fazer esse projeto. Para que outras mulheres se sintam bem e não tenham vergonha da sua pele”, diz ela ao HuffPost UK.

Vencer a vergonha é um dos maiores objetivos do projeto, diz Harris-Taylor. Quando estava procurando participantes para o ensaio nas redes sociais, ela não sabia se as candidatas tinham problemas de pele, porque havia muita maquiagem e retoques digitais. 

“Pode ser uma coisa muito escondida”, explica ela. “Acho que muitas de nós sentem a necessidade e a pressão de esconder. Mas quero começar a conversa e normalizar [o assunto].” 

Apesar de vermos mais positividade em relação ao corpo na mídia, pelo menos em comparação com a adolescência de Harris-Taylor (e ela só tinha atrizes de Hollywood nas revistas para admirar), a fotógrafa diz que ainda há um longo caminho pela frente. 

Apesar do progresso, as modelos ainda tem a pele do rosto perfeita. “Parece bem estranho que ainda ignoremos o fato de que o rosto de todas as pessoas que você vê nessas fotos foram retocados, e a pele parece perfeita. Elas parecem de plástico”, diz ela.

Nos últimos anos, algumas marcas começaram a mostrar modelos de pele imperfeita – a Glossier, marca lançada por Emily Weiss em 2010, lançou uma campanha publicitária no Facebook em 2018 em que uma modelo tinha uma espinha branca na bochecha e poros visíveis. Mas isso ainda é exceção.

“Você não vê a pele real. Não vê as texturas ou a pigmentação que tanta gente tem”, diz Harris-Taylor.

Além de tentar mudar a cara da publicidade (literalmente), Harris-Taylor diz que quer começar uma conversa entre as pessoas que acham que têm de ficar em silêncio – por vergonha ou por medo de causar indisposição.

“Quando eu era mais nova, não falava da minha pele – talvez com exceção de conversas de 10 minutos com meu clínico geral ou o dermatologista. As outras pessoas, os amigos, não querem tocar no assunto por medo de se indispor com você. E as próprias pessoas [com problema de pele] não tocam no assunto porque têm vergonha.”

Ela também quer que a sociedade entenda as causas dos problemas de pele e seja mais compreensiva. Acne, por exemplo, não tem nada a ver com falta de higiene ou beber pouca água. Harris-Taylor diz que essa ignorância faz as pessoas se sentirem ainda pior, porque no fundo a impressão que fica é que o problema teria solução – seria puro desleixo.

“É difícil para as outras pessoas entenderem o que é ter um problema de pele”, diz ela. “Também falta educação. As pessoas não sabem necessariamente o que causa esses problemas – simplesmente acham que tem de lavar mais e comer melhor. Mas isso não é necessariamente verdade.”

Por isso, muita gente acha que tem de esconder o problema na hora de sair de casa. “Tem muita maquiagem à nossa volta, e a tendência é nos conformarmos a isso”, diz ela. “Aos poucos fui aprendendo a aceitar meu rosto como ele é e a sair de casa sem me cobrir.” 

Apesar de parecer uma vaidade pequena, Harris-Taylor diz que a questão é muito mais profunda. “Existem pessoas que sofrem de doenças mentais por causa disso”, diz ela. 

E, se as pessoas estão sofrendo, precisam conversar. “As pessoas precisam ficar à vontade para falar da pele com os amigos, para dividir o que estão passando, porque isso tem implicações profundas na saúde mental.”

Às vezes, nem sequer os médicos levam a questão tão a sério. Alguns simplesmente acham que é uma fase da adolescência ou uma questão de vaidade, afirma Harris-Taylor.

“Ouvi pessoas dizendo que têm dificuldade de conseguir uma indicação do seu clínico geral para um dermatologista.” (No sistema de saúde britânico, consultas com especialistas precisam da indicação do clínicos gerais.)

Harris-Taylor afirma que a exposição mostrou o quanto as pessoas querem ver mais imagens como essas.

“Recebo mensagens todos os dias de homens e mulheres do mundo inteiro, dizendo como o projeto os ajuda”, diz ela. “Quero que as pessoas saibam que estão passando por uma coisa normal, que elas podem ser lindas tendo problemas de pele. Quero que elas saibam disso.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.