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06/09/2019 14:39 -03 | Atualizado 06/09/2019 19:15 -03

Crivella manda recolher HQ com beijo gay da Bienal do Livro do Rio de Janeiro

Prefeitura rechaça ter havido 'qualquer ato de trans ou homofobia ou qualquer tipo de censura à abordagem feita livremente pelo autor'.

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Em "Vingadores: A cruzada das crianças", os personagens Wiccano e Hulkling são namorados.

O prefeito Marcelo Crivella, na noite desta quinta-feira (5), determinou que a história em quadrinhos Vingadores: A cruzada das crianças, da Marvelfosse recolhida da Bienal do Livro, que acontece no Rio de Janeiro nesta semana.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito afirma que a HQ de super-heróis tem “conteúdo sexual para menores”. Dois dos personagens da saga são namorados e aparecem se beijando em uma das páginas.

No vídeo, Crivella afirma que “conteúdo como este precisa estar embalado e lacrado com plástico preto e, do lado de fora, avisando o conteúdo. Portanto, a prefeitura do Rio de Janeiro está protegendo os menores da nossa cidade.”

Vingadores: A cruzada das crianças é o 66º volume da Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, lançado no Brasil em 2016 pela Editorial Salvat em parceria com a Panini Comics, que republica gibis no chamado “formato de luxo”, com capa dura e folhas em gamatura diferenciada.

A história da HQ citada pelo prefeito do Rio envolve dezenas de heróis da Marvel em novas histórias e contextos. Wiccano e Hulkling, dois personagens da “Jovens Vingadores”, Wiccano e Hulkling, são namorados.

“Para deslindarem os mistérios do seu passado, Wiccano e os seus colegas dos Jovens Vingadores embarcam numa aventura épica para encontrar a Feiticeira Escarlate. Mas quererá a mulher que desfez os Vingadores e quase dizimou a raça mutante ser encontrada? Uma coisa é certa, esta incrível busca está prestes a mudar o Universo Marvel para sempre!”, diz sinopse da HQ.

Em apenas uma das páginas do quadrinho, eles aparecem se beijando. Em outra aparecem abraçados durante um diálogo.

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Publicada originalmente nos EUA entre 2010 e 2012, Vingadores: A cruzada das crianças chegou ao Brasil em 2012, segundo a editora.  

A edição é escrita pelo americano Allan Heinberg e ilustrada pelo britânico Jim Cheung. Publicada originalmente nos EUA entre 2010 e 2012, Vingadores: A cruzada das crianças chegou ao Brasil em 2012, segundo a editora.

Ainda na quarta-feira (4), no plenário da Câmara Municipal do Rio, o vereador Alexandre Isquierdo (DEM) reclamou da comercialização do livro na Bienal. Empunhando o livro na tribuna, ele afirmou que seu ato não era homofóbico:

“O autor, que é assumidadamente gay, coloca dois super-heróis se beijando e tendo relação homossexual. Não dá para admitir covardia contra as nossas crianças. Propagação e divulgação homossexual para as crianças”, disse.

“Os pais estão comprando achando que é um livro infantil. Cada um faz o que quiser da sua vida. Agora, descer goela abaixo das nossas crianças é coisa de bandido e covarde. Estou apresentando uma moção de repúdio”, completou.

O vereador também publicou vídeo na redes sociais, se juntando a um coro que, nos últimos dias, reclamou do teor do conteúdo da publicação.

A prefeitura do Rio notificou extrajudicialmente a Bienal, não pedindo o recolhimento dos livros, mas dizendo que os exemplares da HQ fossem lacrados e viessem com uma classificação indicativa ou aviso de que há material ou cenas impróprios para menores de idade. ​

A Bienal se recusou a atender o pedido da Prefeitura. Em nota, a organização do evento afirmou que “dá voz a todos os públicos, sem distinção, como uma democracia deve ser. Inclusive, no próximo fim de semana, a Bienal do Livro terá três painéis para debater a literatura Trans e LGBTQA+.”

E completou, dizendo que “a direção do festival entende que, caso um visitante adquira uma obra que não o agrade, ele tem todo o direito de solicitar a troca do produto, como prevê o Código de Defesa do Consumidor.”

Em nota, a Prefeitura do Rio de Janeiro confirmou que notificou a Bienal na última quinta para que o evento adequasse as obras expostas como determinado nos artigos 74 a 80 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), “que preveem lacre e a devida advertência de classificação indicativa de conteúdo em publicações com cenas impróprias a crianças e adolescentes.

A nota diz que “em caso de descumprimento, o material sem o aviso será apreendido e o evento poderá ainda ter a licença cassada”e relata reclamação de frequentadores da feira, “que têm direito à livre opinião e opção quanto ao conteúdo de leitura de filhos e adolescentes, pessoas em formação”.

O texto ainda nega ter havido “qualquer ato de trans ou homofobia ou qualquer tipo de censura à abordagem feita livremente pelo autor”. 

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Capa da HQ "Vingadores: A cruzada das crianças", publicada no Brasil em 2012.

Prefeitura diz que a editora da HQ sabia da obrigação legal. “Tanto que a obra estava lacrada. Não havia, porém, uma advertência neste sentido, para que as pessoas fizessem sua livre opção de consumir obra artística de super-heróis retratados de forma diversa da esperada”, alegou.

O recolhimento dos livros

O G1 informa que, na manhã desta sexta-feira (6) um grupo de guardas municipais foi ao evento com o objetivo de recolher os livros. Os agentes foram recebidos pela direção e, após uma conversa, saíram sem cumprir seu objetivo.

“Se ele não estiver seguindo as recomendações de estar lacrado e com a orientação quanto ao conteúdo, nós vamos apreender esse material”, disse o coronel Wolney Dias, subsecretário de operações da prefeitura do Rio, ao site. 

Também na manhã desta sexta, a reportagem do jornal O Globo noticiou que, ao visitar oito estandes que comercializam quadrinhos no evento, a HQ não estava à venda porque não fazia parte do estoque.

Em um deles, chamado “Taverna do Rei”, um funcionário confirmou que havia cerca de 20 exemplares à venda, mas que se esgotaram há dois dias, antes da manifestação do prefeito. Já o G1 informa que os exemplares que estavam à venda se esgotaram em pouco mais de meia hora na manhã de hoje.

O que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente

Mencionado pela Prefeitura, o ECA fala sobre publicações em seus artigos 78 e 79. Em nenhum deles questões sobre da sexualidade ou beijo entre personagens homossexuais é mencionado.

O primeiro artigo diz que revistas e publicações com material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes devem ser comercializados em embalagem lacrada, com advertência de seu conteúdo.

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O estatuto também prevê que as editoras devem cuidar para que as capas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas sejam protegidas com embalagem opaca. 

Já o segundo artigo diz que “revistas e publicações destinadas ao público infantojuvenil não poderão conter ilustrações, fotografias, legendas, crônicas ou anúncios de bebidas alcoólicas, tabaco, armas e munições, e deverão respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família.”

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