LGBT
06/09/2019 17:22 -03 | Atualizado 06/09/2019 18:05 -03

Editoras reagem à censura promovida por Crivella ao mandar recolher HQ com beijo gay

Prefeito do Rio de Janeiro enviou fiscais para recolher livro com beijo gay entre dois personagens considerado "impróprio para crianças".

Reuters/Reprodução
Em um vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito afirma que HQ de super-heróis tem “conteúdo sexual para menores”. 

Após Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, enviar fiscais para recolherem exemplares do livro Vingadores - A Cruzada das Crianças, que estava à venda na Bienal do Rio, por conterem imagens de um beijo gay, editoras estão se manifestando contra a ação, considerada censura.

No início da tarde desta sexta-feira (6), funcionários da Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP) chegaram ao evento, que está sendo realizado no Riocentro, para identificar e lacrar livros considerados “impróprios” para menores de idade. As informações são do jornal O Globo.

Segundo a Folha de S. Paulo, após duas horas na feira, equipe da SEOP disse não ter encontrado conteúdo pornográfico indicado para menores de idade. “Não é censura. Estamos cumprindo uma recomendação da Procuradoria Geral do Município”, disse o subsecretário de operações da Secretaria Municipal de Ordem Pública, o coronel Wolney Dias a jornalistas.

Poucas horas após a ação ser divulgada pela imprensa, editoras de livros brasileiras foram às redes sociais protestar e apontar o ato da prefeitura do Rio como arbitrário e de censura, defender a liberdade de expressão, além de pontuar que livros com temática LGBT fazem parte de seus catálogos.  

Na quinta-feira (5), o prefeito Marcelo Crivella, anunciou em seu Twitter que ordenou que o livro Vingadores - A Cruzada das Crianças fosse recolhida da Bienal do Rio. A história em quadrinho, que pertence à coleção de luxo da Marvel, contém imagem de dois personagens, que são namorados, se beijando ― o que o ex-pastor disse considerar “pornografia” e, portanto, a publicação iria contra o que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Em comunicado, a Companhia das Letras manifestou seu “repúdio a todo e qualquer ato de censura” e se posicionou ”à favor da liberdade de expressão”.

“Essas medidas, mais a suspensão do edital que daria apoio a produção de filmes LGBTQ+ por parte do governo federal, indicam uma perigosa ascensão do clima de censura no país – flagrantemente inconstitucional – e que traz a marca de um indesejável sentimento de intolerância discriminatória”, diz Luiz Schwarcz, CEO e fundador da Companhia das Letras.

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Diante da censura feita por Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, ao quadrinho “Vingadores: A Cruzada das Crianças” e da fiscalização para identificar livros considerados “impróprios” na Bienal do Livro Rio, a Companhia das Letras manifesta seu repúdio a todo e qualquer ato de censura e se posiciona, mais uma vez, a favor da liberdade de expressão. “Ficamos orgulhosos com a posição da organização da Bienal do Rio em defesa da liberdade de expressão e da diversidade. Ela mostra com dignidade a vocação e vontade dos editores. Posturas como a do prefeito Marcelo Crivella e do governador João Doria – que recentemente mandou recolher uma apostila escolar que falava sobre diversidade sexual – tentam colocar a sociedade brasileira em tempos medievais, quando as pessoas não tinham a liberdade de expressar suas identidades. Eles desprezam valores fundamentais da sociedade e tentam impedir o acesso à informação séria, que habilita os jovens a entrar na fase adulta mais preparados para uma vida feliz. Essas medidas, mais a suspensão do edital que daria apoio a produção de filmes LGBTQ+ por parte do governo federal, indicam uma perigosa ascensão do clima de censura no país – flagrantemente inconstitucional – e que traz a marca de um indesejável sentimento de intolerância discriminatória”, diz Luiz Schwarcz, CEO e fundador da Companhia das Letras #leiacomorgulho

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Mais tarde, a editora também publicou uma foto nas redes sociais com os livros de temática LGBT que estão expostos em seu estante na Bienal do Rio.

“Nossa proposta é dar mais visibilidade aos livros com autores e/ou personagens lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis, queer, intersexuais, assexuais e mais”, disse a editora usando a tag #LeiaComOrgulho.

A Galera Record, selo jovem do Grupo Editorial Record, também publicou uma foto com diversos livros de temática LGBT distribuídos por ela.

“Homofobia é crime e acreditamos que o papel do Estado é incentivar a leitura e não criar barreiras que marginalizem uma parcela da população que já sofre com a intolerância”, diz a nota da editora, que chegou a enviar um exemplar do “Kit Gay” para a ministra Damares Alves em março deste ano.

 

De forma semelhante, a editora Intrínseca compartilhou nas redes sociais imagens de livros de seu catálogo, como Me Chame pelo Seu Nome e Boy Erased, que teve estreia do filme homônimo cancelada em janeiro deste ano.

“Em um mundo que nega nossa existência, os livros nos mostram a beleza de ser quem somos”, diz a publicação. “Não há identidade, amor nem livro impróprio. ‬Repudiamos todo e qualquer tipo de discriminação ou censura e, como sempre, nos posicionamos à favor da liberdade de expressão e da diversidade”, completa a editora em outra publicação.

Assim como as outras editoras, a Todavia escreveu que continuará “publicando e vendendo livros que exprimem nossa visão plural de mundo e do Brasil, direito esse amparado pela Constituição”.

“A fiscalização de livros remete a uma era sombria de nossa história, e seguiremos publicando e vendendo livros que exprimem nossa visão plural de mundo e do Brasil, direito esse amparado pela Constituição”, escreveu.

A editora a Plataforma 21 diz que “a arte está sob ataque” e que “os livros e a literatura são a mais valiosa arma para vencer preconceitos e acabar com a desinformação”.

Já a Quimera Produções Literárias compartilhou imagem que diz “aqui não acreditamos em censura”.

A livraria Blooks, do Rio de Janeiro, publicou a imagem do quadrinho criticado por Crivella e afirmou que “repudia veementemente qualquer tipo de censura. 
Reafirmamos a importância da pluralidade, da liberdade de escolha e expressão e do respeito à diversidade, todos garantidos pela Constituição”.

Após a saída dos ficais do evento, a organização divulgou nota em que afirma que entrou com um pedido de mandado de segurança preventivo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, “a fim de garantir o pleno funcionamento do evento e o direito dos expositores de comercializar obras literárias sobre as mais diversas temáticas - como prevê a legislação brasileira.”

Leia nota completa:

“A Bienal do Livro Rio entrou com pedido de mandado de segurança preventivo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (6/9), a fim de garantir o pleno funcionamento do evento e o direito dos expositores de comercializar obras literárias sobre as mais diversas temáticas – como prevê a legislação brasileira.

Consagrada como o maior evento literário do país, a Bienal do Livro mantém sua programação para o fim de semana, dando voz a todos os públicos, sem distinção, como uma democracia deve ser. Este é um festival plural, onde todos são bem-vindos e estão representados.

Entre sexta (6/9) e domingo (8/9) – último dia de evento – a Bienal recebe autores, artistas, pensadores e acadêmicos do Brasil e exterior para participar de 39 painéis sobre os mais variados temas, como fake News, felicidade, ciências, maternidade, teatro, literatura trans, LGBTQA+ e muito mais.

Além de todo um pavilhão dedicado às crianças, com contação de histórias, lançamento de livros e espetáculos circenses.”

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