MULHERES
31/05/2020 01:00 -03

A licença-maternidade e os momentos com as crianças só acontecem uma vez, então são prioridade

A dona do 28º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é a cofundadora do Nubank, Cristina Junqueira, mãe de Alice e Bella.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, com a filha Bella.

Quando era mais nova, nunca pensei em ter filhos. Sempre fui focada na carreira e não queria nem pensar em outra coisa. Ser mãe, para mim, sempre pareceu uma responsabilidade enorme, e eu passava horas imaginando diferentes cenários e pensando em tudo o que poderia dar errado. Tinha medo de não dar conta.

Quando conheci o meu marido, ele já tinha sido casado e tinha 2 filhos. Essa nova convivência me fez repensar a maternidade, mas mesmo assim foi um processo demorado até que eu engravidasse — já estávamos juntos há 9 anos quando eu tive a Alice.

Na minha primeira gravidez, o Nubank ainda estava muito no começo, nosso escritório era uma casinha no Brooklin. O espaço era pequeno e já estava completamente ocupado com os engenheiros e desenvolvedores que estavam trabalhando no aplicativo e deixando tudo preparado para o produto que queríamos lançar. Foi um período turbulento.

A gente tinha acabado de levantar a primeira rodada de investimentos, e eu tinha ido pessoalmente aos Estados Unidos, grávida de 7 meses, para falar com investidores. Tive reuniões até o último minuto e o David Vélez, meu sócio, chegou a levar papéis para eu assinar na maternidade. Como a equipe ainda era muito pequena e eu precisava fazer muita coisa, cheguei a responder e-mails e atender a ligações de clientes ali mesmo.

Nesse contexto, quando a Alice nasceu, eu não consegui tirar um tempo para ficar com ela. Contei com a ajuda da minha mãe e da minha sogra, que se revezaram lá em casa para me dar uma força. Foi um período difícil. Eu não tinha equipe. Fazia tudo sozinha. As coisas não podiam parar.

Já na gravidez da Bella, as coisas foram um pouco diferentes. Meu marido é mais velho que eu e decidimos: se for para termos outro filho, é agora. O Nubank também já estava num outro momento, muito mais estruturado e com pessoas em quem eu posso confiar para tocar as coisas na minha ausência. E eu queria a chance de viver isso de outro jeito: ter a licença-maternidade e ficar perto da bebê. 

Com a Alice, nunca tive babá. Sempre me organizei para acordar cedo, me arrumar, levá-la para a escola e ir trabalhar. No fim do dia, buscava na escola e vinha para casa, para ficarmos juntas. Com a chegada da Bella, acredito que será uma rotina mais desafiadora, mas parecida. Agora estamos todos em casa, mas quando voltar à rotina “normal” e a licença-maternidade acabar, a parceria e o revezamento das tarefas com meu marido terá que funcionar ainda melhor.

Divulgação
Cristina Junqueira conta como é conciliar a maternidade com a carreira; ela é uma das 40 mulheres mais poderosas do Brasil, segundo a Forbes.
A vida é feita de escolhas. O dia tem 24 horas para todo mundo, e você vai precisar decidir quais as coisas que são realmente importantes para você.

Uma coisa que sempre digo para quem me pergunta como é ser mãe e ainda comandar uma empresa como o Nubank é: a vida é feita de escolhas. O dia tem 24 horas para todo mundo, e você vai precisar decidir quais as coisas que são realmente importantes para você.

Desde o nascimento da Alice que, eu brinco, é a irmã gêmea do Nubank, os dois (família e Nubank) são a minha prioridade 1, 2 e 3. Até hoje, sempre que não estou trabalhando, procuro estar com a minha família. Começo o dia cedo para garantir que vou conseguir levar e buscar a Alice na escola todos os dias, e minhas horas de lazer são todas voltadas a passar tempo com ela e, agora, com a Bella.

Aprendi muitas coisas com a maternidade — como a ter mais disciplina, resiliência e capacidade de planejamento — e com uma responsabilidade final muito maior. Outra coisa que aprendi nesse processo, e que quero garantir para essa segunda experiência, é a manter a perspectiva de que sempre haverá coisas interessantes acontecendo na minha carreira e no Nubank. Já a licença-maternidade e os momentos passados com as crianças só acontecem uma vez, então a prioridade é essa.

O contexto em que eu vivi, desde que a minha primeira filha nasceu, é muito particular. Bem ou mal, eu sou uma das fundadoras do Nubank, que é uma empresa que tem a diversidade como um dos principais valores desde sempre.

Respeitar a liberdade e as particularidades da vida pessoal de cada um dos Nubankers faz parte da nossa cultura. Mas eu já trabalhei em grandes instituições antes disso e sei o quanto a realidade nessas empresas era muito diferente. Já fui a única mulher em equipes inteiras formadas por homens. As mudanças, ainda bem, vêm acontecendo, e as empresas estão percebendo cada vez mais que para atrair e manter grandes talentos é preciso pensar também em um ambiente que valorize a vida pessoal da equipe. Só que ainda existe um longo caminho a ser percorrido.

Espero que quando a Alice e a Bella chegarem ao mercado de trabalho, empresas como o Nubank — que valorizam ambientes profissionais onde as pessoas podem ser elas mesmas — sejam a regra e não mais a exceção.

E espero seguir usando a influência que tive o privilégio de conquistar para levar esse exemplo a cada vez mais negócios e setores.

Cristina Junqueira é dona do 28º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”. Cofundadora do Nubank, ela se formou em engenheira, fez mestrado na Escola Politécnica da USP e concluiu seu MBA na Northwestern University (Kellogg School of Management). Cristina foi nomeada como uma das 40 mulheres mais poderosas do Brasil  pela revista Forbes em 2016, em 2017 e em 2020.