MULHERES
14/05/2020 13:00 -03

O tempo, minhas Marias e a passagem do luto à luta diante do autismo severo

O 13º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é da advogada Cristina Fernandes, que após 7 anos de espera por gravidez se deparou com um visitante que lhe jogou em um buraco profundo — do qual ela precisou sair imediatamente.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Cristina Fernandes com as filhas, Maria Gabriela e Maria Fernanda.

Ainda nos meus sonhos de criança eu preferia ser a mãe. Sim, aquela que embalava as bonecas... Cresci, casei e a tão sonhada maternidade não vinha. Acho que, olhando para trás, vejo que esse tempo de espera tinha um propósito de me preparar para exercer a maternidade de uma filha típica e outra não... Esse tempo era uma maturação, a fase da metamorfose de quem nos sonhos busca a liberdade e o voo das borboletas.

Foi em um hospital da rede pública que fiquei anos em uma fila de espera enfrentando exames, consultas demoradas para agendamento. Foram exatos 7 anos. Foi quando Francisco, com ares de São Francisco, operava o milagre. Tocou o telefone e havia chegado a minha vez! Eu creio em milagres. Minha vida já é um milagre.

Fiz a tão sonhada fertilização com um médico que estava iniciando no Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas, fui uma de suas primeiras pacientes. Recentemente fiquei sabendo que aquele anjo, simples realizador de sonhos, também fez parte da equipe de transplante de úteros. Minha gratidão eterna para o centro de reprodução do hospital, apesar da longa espera!

Só então, depois de todos esses anos, nasceram minhas Marias, gêmeas, lindas, saudáveis, apelidadas de boquinhas de coração, ambas com desenvolvimento normal... Maria Gabriela e Maria Fernanda, meus tesouros.

Maria Fernanda, aos 2 anos, era uma cantora nata até que um dia a sua melodia inteira se resumiu em uma única estrofe repetidas vezes. Ali chegava um visitante que me jogou num buraco profundo, um visitante chamado autismo.

Mas eu precisava sair daquele buraco para ajudar, e minha passagem do luto a luta foi imediata. Pois além da Maria Fernanda, existia outro ser chamado Maria Gabriela, que precisava muito da figura materna feliz. E foi assim que fui me adaptando entre as rotinas com as duas. Na realidade, aquela demora lá atrás fazia sentido agora, pois não somos donos do tempo. Por isso aprendi a viver um dia de cada vez...

O diagnóstico é o que menos importa porque o tempo, sempre o tempo, é o relógio me ensinando. Esperar e acreditar; esse é meu lema. Filas e mais filas. Foram 7 anos para elas nascerem, 5 anos para o Estado cobrir terapias e assim por diante...

Estava diante de um autismo severo e regressivo: primeiro a fala, depois crises intensas, manipulação de fezes e autoagressão. Terapias, medicações, inclusão escolar aqui estou eu, que vivo entre o furacão e o frescor das flores de primavera. Supero os dias ruins e agradeço pelos dias maravilhosos, em que um sorriso vale mais do que um milhão de reais.

Ainda assim poetizei ao receber o diagnóstico já que um olhar me tiraria da solidão e, juntas, iremos olhar as estrelas e tomar banho de mar… E ainda tenho a outra Maria, uma verdadeira artista, cheia de sonhos. Seu canto me acalma, mergulho na sua dança, meu lenitivo que me revigora, uma filha maravilhosa que me arranca risos nas horas tristes.

Não me resta outra coisa do que ser FORTE! Posso dizer acertadamente que entre os momentos de angústia e tristeza sou FELIZ, porque preciso ser feliz.

Vivo em um País em que não é muito fácil se enquadrar quando pertencemos a um grupo chamado minoria. Acredito ser assim também com as mães da diversidade e a mãe que faz o papel de pai também. Dependendo do diagnóstico, ainda piora.

Aos 10 anos de Maria Fernanda, convivi com um novo visitante, [a síndrome de] rett. Ali fecharam-se muitas portas, como a fisioterapia, por exemplo. É preciso muita criatividade e exercício de paciência, porque faltam muitas políticas públicas, e isso exige uma luta diária. Até hoje não sei se minha filha é rett atípica ou autista severa. Mas o diagnóstico é o que menos importa porque o tempo, sempre o tempo, é o relógio me ensinando.

Esperar e acreditar; esse é meu lema. Filas e mais filas. Foram 7 anos para elas nascerem, 5 anos para o Estado cobrir terapias e assim por diante. Filas fazem parte da minha trajetória.

Hoje, estamos no meio de uma pandemia mundial e olha o tempo novamente nos pedindo calma, porque no momento muitas mães estão velando por seus filhos e ainda sinto a dor de estar longe da minha mãe. Uma explicação, para quem acredita, talvez venha da nossa Mãe do Céu, que lá na frente nos mostre o motivo disso tudo que vivemos agora.

Elas fizeram 15 anos. Não pude comemorar, mas não perco a oportunidade de falar para elas todos os dias que são o meu maior presente. Afinal, aquela fertilização em que eu era apenas um número foi feita no dia do meu aniversário.

E o médico até brincou comigo dizendo: “Jura? Então aí vai o seu presente”. Aprendi com elas a dar valor no caule da florzinha que está escondida atrás da pedra do viaduto. A maternidade é uma benção, e eu faria tudo de novo. Agradeço muito a oportunidade desse encontro. Sim, o meu presente estava escrito.

Cristina Fernandes é dona do 13º depoimento de Prazer, Sou Mãe. Tem 52 anos, é casada, advogada e há 6 anos se dedica exclusivamente à maternidade. Formou-se em pedagogia para auxiliar no desenvolvimento da filha e é amante de dança e artes