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04/04/2019 08:25 -03

Venezuela retorna a níveis dos anos 90 de mortalidade infantil e doenças controladas

Com epidemias de sarampo, tuberculose e malária, o sistema de saúde venezuelano está em colapso total, aponta Human Rights Watch.

LUIS ROBAYO via Getty Images
Protesto em Caracas contra as péssimas condições de saúde no país.

A Venezuela é o único país da América do Sul a ter retornado aos níveis dos anos 1990 de mortalidade infantil e de doenças que antes eram controladas, como sarampo, difteria, tuberculose e malária, que agora voltaram a se tornar epidêmicas. 

De acordo com o novo relatório da Human Rights Watch (HRW), realizado em parceria com a Faculdade Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins e divulgado nesta quinta-feira (4), o sistema de saúde venezuelano está em colapso total.

A mortalidade materna aumentou em 65%, a mortalidade infantil aumentou 30% em apenas um ano e 80% das famílias venezuelanas vivem sob insegurança alimentar.

O relatório de 74 páginas também aponta para a interrupção da divulgação dos dados oficiais sobre nutrição e saúde por parte do governo.

Em 2017, Antonieta Caporal, a ministra da saúde foi demitida pelo ditador Nicolás Maduro após divulgar estatísticas da situação do país.

Desde então, o Ministério da Saúde venezuelano não publicou nenhum dado epidemiológico oficial.

De acordo com Tabata Taraciuk, pesquisadora da HRW, a principal conclusão do estudo é de que o país enfrenta uma emergência humanitária complexa. 

“Não é um crise por conta de uma guerra ou de um desastre natural. Mas é uma crise decorrente da má gestão do governo venezuelano. As autoridades negam a crise, suspendem os dados oficiais sobre nutrição e saúde e são hostis às pessoas que coletam os dados. Essas ações aumentam o sofrimento do povo venezuelano”, explica a porta-voz.

 

Crise no sistema e interrupção de tratamento contra HIV

Em declínio desde 2012, as condições do sistema de saúde na Venezuela atingiram o seu limite em 2017 pela falta de medicamento e de infraestrutura para atender à população. 

Em março deste ano, um apagão no país que durou mais de 24 horas afetou a refrigeração de medicamentos e suspendeu tratamentos nas unidades de saúde.

De acordo com o relatório da HRW, a Venezuela enfrenta surtos de doenças por conta do declínio da cobertura de vacinas no país.

Entre 2008 e 2015, por exemplo, apenas um único caso de sarampo foi registrado (ocorreu em 2012). Mas desde junho de 2017, mais de 9.300 casos de sarampo foram notificados, dos quais mais de 6.200 foram confirmados.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também aponta para o crescimento de casos de malária na Venezuela.

Em 2017, 414 mil casos foram confirmados. No mesmo ano, mais de 13 mil casos de tuberculose também foram registrados no país.

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a Venezuela é o único país do mundo onde um grande número de pessoas vivendo com o
vírus do HIV foi forçado a interromper o tratamento devido à falta de  medicamentos antirretrovirais (ARV).

De acordo com dados da instituição, 87% dos venezuelanos não tinham acesso ao tratamento em 2018.

 

A fome é geral no país

A desnutrição e a grave escassez de alimentos atingem toda a Venezuela.

Uma pesquisa realizada por universidades locais indicou que 80% das famílias enfrentam insegurança alimentar. 

A maioria dos entrevistados pela HRW afirmou que perdeu peso nos últimos anos (em média, 11 quilos desde 2017) e que costuma fazer entre 1 e 2 refeições por dia. Geralmente, elas são compostas por mandioca e sardinha enlatada.

 

O impacto da crise venezuelana no Brasil

Nos últimos anos, quase 100 mil venezuelanos vieram para o Brasil fugindo da crise e, principalmente, em busca de atendimento médico.

O surto de sarampo que acomete a Venezuela já registra casos em Roraima e Manaus. A doença estava controlada no País desde 2015, mas já registrou 9.804 casos e 12 mortes desde 2018.

O aumento acentuado de pacientes também impactou o serviço público de saúde em Roraima. 

Para amenizar a sobrecarga nos hospitais da região, a atenção básica no Brasil é fornecida como parte da Operação Acolhida do governo federal.

As Forças Armadas também têm deslocado profissionais de saúde para o estado para atender as demandas dos venezuelanos.

LUIS ROBAYO via Getty Images

 

Ajuda humanitária internacional é insuficiente

Embora mais ajuda internacional tenha entrado no país desde 2018, as medidas ainda são insuficientes para atender as necessidades do povo venezuelano.

Para a HRW, a ajuda humanitária precisa ser dissociada da disputa política que envolve o país.

A organização recomenda que a ONU lidere uma diplomacia proativa para pressionar as autoridades venezuelanas a implementarem uma resposta humanitária em larga escala.

″É necessário uma participação estrangeira na Venezuela de profissionais e de envios de insumos médicos e nutricionais”, explica Tabata Taraciuk.

Segundo ela, a ONU não teve, até então, uma ação contundente diante da crise.

“O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, não precisa do consentimento do Maduro para considerar a crise na Venezuela uma prioridade dos órgãos da ONU. É preciso aumentar a pressão internacional sobre as autoridades venezuelanas para negociar uma saída à crise.” 

O relatório recomenda que o Secretário-Geral reconheça publicamente que a Venezuela está enfrentando uma crise humanitária complexa.

Isso vai fazer com que as Nações Unidas possam mobilizar recursos e esforços para criar soluções de enfrentamento da crise.

Contudo, a ação da ONU só será possível se Guterres pressionar as lideranças políticas da Venezuela para que a ajuda humanitária possa ser implementada.

Para isso, a HRW defende que exista uma negociação para que a ONU e outras organizações não governamentais tenham acesso aos dados oficiais sobre doenças e segurança alimentar, bem como tenham permissão para promover uma maior presença dos agentes humanitários no país.