ENTRETENIMENTO
02/10/2020 09:38 -03

'Scorsese e Tarantino estão preocupados com a Cinemateca', disse diretor britânico

Frase do cineasta Mark Cousins foi revelada por Amir Labaki, diretor do festival É Tudo Verdade, no programa Conversa com Bial.

A maior crise da história da Cinemateca Brasileira foi o assunto da edição mais recente do programa da Rede Globo Conversa com Bial, que foi ao ar na madrugada desta sexta (2). Nele, o apresentador Pedro Bial discutiu sobre a importância, a situação atual e os rumos da instituição com a cineasta Sandra Kogut, o professor de cinema Carlos Augusto Calil (ex-diretor da Cinemateca), e Amir Labaki, diretor do festival de documentários É Tudo Verdade.

Ao falar sobre a segunda parte de seu festival, que acontece de forma virtual e gratuita até domingo (4), Labaki contou sobre a Conferência Internacional do Documentário, que aconteceu dentro da programação do É Tudo Verdade, onde o diretor norte-irlandês Mark Cousins disse uma frase que mostrou que a preocupação com a crise da Cinemateca Brasileira atravessa fronteiras.

“Em certo ponto da conversa, o Mark Cousins falou: ‘Recado aí para o Brasil. Quero dizer para vocês que eu sei muito bem o que está acontecendo aí com a Cinemateca, e isso é muito grave. Mas o [Martin] Scorsese também está preocupado. O [Quentin] Tarantino também está preocupado.Avise aí aos responsáveis por isso que eles serão responsabilizados se alguma coisa grave acontecer com a Cinemateca Brasileira, porque ela é muito importante’”.

Veja aqui o vídeo completo da conferência:


Entenda o que acontece na Cinemateca

O auge da crise entre a Secretaria de Cultura do governo Bolsonaro - comandada atualmente pelo ator/apresentador Mario Frias - e a Cinemateca Brasileira aconteceu no começo de agosto, quando a instituição que detém praticamente todo o acervo do audiovisual brasileiro, com mais de 250 mil rolos de filmes e um milhão de documentos, foi literalmente fechada.

O embate entre governo federal e a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que gere as atividades da Cinemateca desde 2018, vinha se arrastando há mais de um ano, desde 2019. A Secretaria de Cultura, que na administração do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é subordinada ao Ministério do Turismo, sugeriu o fim antecipado do contrato com a Acerp, que terminaria apenas em março de 2021. 

A Roquette Pinto tentou resistir, mas na manhã do dia 7 de agosto, em uma manobra “cinematográfica”, o secretário nacional do audiovisual substituto, Helio Ferraz de Oliveira foi à Cinemateca - instalada em um prédio histórico em São Paulo - escoltado pela polícia federal para pegar as chaves da instituição das mãos de Francisco Câmpera, diretor da Acerp. “Pusemos R$ 14 milhões na Cinemateca. Nós fizemos o nosso trabalho e agora eles se recusam a assumir essa dívida”, disse Câmpera à época.


Todo esse imbróglio começou quando o Ministério da Cultura do governo Michel Temer (MDB) transferiu a administração da Cinemateca à Roquette Pinto, que geria a TV Escola, ligada ao Ministério da Educação (MEC).

Essa “parceria” entre pastas distintas abriu um precedente. Quando o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, suspendeu o contrato do MEC com a Acerp em relação à TV Escola, essa decisão acabou atingindo a Cinemateca.

Aí veio a pandemia do coronavírus e tudo ficou ainda mais complicado. Sem nem mesmo conseguir utilizar seu espaço para eventos, a Cinemateca começou a definhar. Os funcionários da instituição criada em 1956 pelo crítico Paulo Emílio Sales Gomes ficaram boa parte de 2020 sem receber salários e a queda de braço entre a Acerp e o governo federal se acirrou. 

O Caso Regina Duarte

Um dos capítulos mais bizarros dessa história aconteceu no dia 20 de maio, quando a então secretária de cultura Regina Duarte foi destituída do cargo. Em um vídeo surreal, a ex-atriz global, acompanhada do presidente Bolsonaro, disse em um live que estava deixando seu cargo para assumir a Cinemateca e ficar “mais perto dos seus netos”.


O problema é que como a Cinemateca era gerida pela Acerp, uma instituição privada, ninguém no governo, até o próprio Jair Bolsonaro, teria poder para dar a Regina Duarte qualquer cargo na instituição. Demonstrando que mesmo sendo secretária da cultura, Regina tinha total desconhecimento sobre a realidade da Cinemateca Brasileira.

“A Regina Duarte ainda disse aquela frase declarando inacreditavelmente que ela iria ‘fazer Cinemateca’. Aquela frase já diz tudo”, comentou Sandra Kogut no programa de Pedro Bial.

Risco de incêndio a qualquer momento

Mesmo prometendo que o governo manteria o “compromisso de resguardar a continuidade dos serviços e a segurança do patrimônio cultural preservado pela Cinemateca”, segundo informou a Folha de S. Paulo, a Secretaria de Cultura demitiu todos os funcionários da instituição logo após seu fechamento.

Uma atitude que coloca em perigo a memória audiovisual brasileira, já que por conta de seu material, muitos rolos de filmes - os produzidos até o começo da década de 1950 - devem ser mantidos sob refrigeração e constantemente acompanhado por especialistas para que não entrem em combustão espontânea, ou seja, eles simplesmente pegam fogo sozinhos.

“A Cinemateca já teve quatro incêndios em sua trajetória. Talvez seja a cinemateca que mais sofreu com esse tipo de descaso. E o último foi em 2016, nem faz tanto tempo assim. Corremos o risco, de novo, de que haja outro incêndio. Esse acervo tem de ser examinado todos os dias. A Cinemateca não pode ficar fechada. Ela não é como qualquer outra instituição que você pode fechar e reabrir a qualquer momento”, alertou Calil. 

Futuro incerto

Em sua coluna publicada no UOL no último domingo (27), o jornalista Ricardo Feltrim denunciou que outro serviço essencial da Cinemateca foi interrompido: o de cessão de imagens.

Segundo ele, os pedidos de cineastas, tanto brasileiros quanto estrangeiros, por material guardado na instituição, estão sendo sumariamente ignorados pela Secretaria de Cultura. Sem esse material, muitas produções para cinema, televisão e streaming têm de ser repensadas ou até mesmo paralisadas.

O jornalista afirma também, com base em fontes não identificadas, que a Cinemateca está sendo loteada politicamente, se transformando em um “cabide de emprego” de pessoas que não têm a mínima qualificação para os postos vagos.

No entanto, em sua participação no Conversa com Bial, Calil indicou que ainda há uma esperança, mas que ela depende do diálogo entre a Sociedade Amigos da Cinemateca e o governo federal: “Neste momento há uma negociação com o governo federal para que a Sociedade Amigos da Cinemateca, que foi criada em 1962, assumisse a gestão da Cinemateca por três meses, recontrataria, com recursos levantados pela câmara municipal e prefeitura de São Paulo, boa parte dos funcionários até que o governo federal encontre uma solução administrativa”.

“Essa crise aguda da Cinemateca tem uma dimensão muito maior do que nós imaginávamos. O Thierry Fremaux, que é o diretor do Festival de Cannes, o maior do mundo, exigiu, em uma coletiva do Festival de Veneza, há 15 dias, uma atitude do governo brasileiro”, contou Labaki.

“O fato de você ter uma consciência internacional e começar a ter uma consciência local sobre a importância da Cinemateca é fundamental. Que as pessoas do bairro valorizem a Cinemateca, que as pessoas na rua entendam que sacrificar a Cinemateca é como queimar o álbum de fotografias de cada família. É o álbum de fotografias em movimento do Brasil que está em risco. Ninguém quer perder quer perder suas fotografias ou o vídeo que faz com seu celular, contando sua própria história”, concluiu.

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