COMPORTAMENTO
24/03/2019 01:00 -03

Você precisa ensinar seus filhos a fracassar. Saiba como

É natural que os pais queiram proteger os filhos de decepções, mas isso pode acabar criando dificuldades futuras.

Keith Berson via Getty Images
Os “pais cortadores de grama” estão ficando famosos: eles tentam remover todos os obstáculos ou dificuldades que possam ser enfrentados pelos filhos.

O escândalo envolvendo o processo de seleção de universidades de elite nos Estados Unidos parece ser um caso restrito a famílias ricas o suficiente para garantir a entrada de seus filhos por meio de suborno.

Mas ele tem a ver com a pressão sentida por todos os pais, mães e estudantes de hoje. O escândalo também destaca como vários pais estão roubando dos filhos uma lição de vida essencial: Como lidar com o fracasso.

Há muito tempo se fala nos “pais helicóptero”, que ficam “sobrevoando” todos os aspectos da vida dos filhos. Mais recentemente surgiu um novo termo: os “pais cortadores de grama”, que removem todos os obstáculos ou dificuldades que possam ser enfrentados pelos filhos. Esse tipo de pai e mãe também é conhecido como “limpa-neve”.

É natural que os pais queiram proteger seus filhos de decepções, mas isso pode acabar atingindo a autoestima das crianças e criando dificuldades futuras. O HuffPost conversou com educadores e especialistas em desenvolvimento infantil sobre a importância da resiliência e de aprender a lidar com fracassos.

 

A importância do fracasso

“O fracasso e as falhas ajudam a desenvolver habilidades emocionais e qualidades para a vida toda – persistência, autoconfiança, autocontrole, autossuficiência, foco e paciência”, diz ao HuffPost Kim Metcalfe, professora aposentada de educação infantil e autora de Let’s Build Extraordinary Youth Together (Vamos construir juntos uma juventude extraordinária, em tradução livre).

Mas permitir que seu filho fracasse parece quase um ato antinatural, diz Jessica Lahey, professora, jornalista e autora de The Gift of Failure: How the Best Parents Learn to Let Go So Their Children Can Suceed (O dom do fracasso: como os melhores pais dão liberdade para que suas crianças tenham sucesso, em tradução livre).

Ela afirma que os pais são bombardeados por manchetes assustadoras como “é impossível entrar na faculdade hoje em dia” ou “a próxima geração de crianças provavelmente não terá o mesmo sucesso econômico dos seus pais”. 

“Diante de cenários assustadores como esses, a tendência é entrar num modo ‘pai protetor’, que é racional do ponto de vista evolutivo”, explica Lahey. “Mas estamos reagindo a coisas que não são ameaças reais. Não entrar em Harvard não é uma ameaça. Não ser o artilheiro do time não é uma ameaça. É uma experiência positiva.”

O fracasso é parte da vida, e, se seus filhos não tiverem a oportunidade de fracassar ou cometer erros, nunca vão perceber que podem dar a volta por cima. Isso se chama resiliência.”Michele Borba, psicóloga e escritora

Como os pais têm a tendência a proteger os filhos de fracassos e decepções, é necessário entender o que são ameaças reais e o que é simplesmente parte do crescimento.

“O fracasso é parte da vida, e, se seus filhos não tiverem a oportunidade de fracassar ou cometer erros, nunca vão perceber que podem dar a volta por cima. Isso se chama resiliência”, diz Michele Borba, psicóloga e autora de Unselfie: Why Empathetic Kids Succeed in Our All-About-Me World (Unselfie: por que crianças empáticas têm sucesso em nosso mundo que só olha pro próprio umbigo, em tradução livre).

“Seu filho não aprende a se levantar porque você diz que é o que ele tem de fazer, mas sim por experiência própria. Aí, quando aparece um problema realmente grande, eles se dão conta: ‘Ei, eu consigo lidar com isso!’”

 

O problema com os ‘cortadores de grama’

“Não dá para sair destruindo tudo o que aparece no caminho dos nossos filhos”, diz Lahey. “Se esse escândalo das universidades serve como exemplo, os pais estão criando um problema enorme pros filhos. A filha de Lori Loughlin, influenciadora do Instagram, virou motivo de piada, e agora sua vida será examinada com um microscópio.”

Pais que usam meios ilícitos para garantir a entrada de seus filhos em universidades para as quais eles não têm as qualificações necessárias não estão resolvendo um problema. Pelo contrário: eles estão criando uma dificuldade para os filhos. No fim das contas, isso vai afetar o senso de competência e a autoestima deles. 

Uma das melhores maneiras de desenvolver a autoestima dos filhos é separar o valor que você dá a si mesmo como pai ou mãe das conquistas dos seus filhos.

Jose Luis Pelaez Inc via Getty Images
Em vez de derrubar obstáculos, os pais deveriam incentivar os filhos a tentar, fracassar e tentar de novo.

Como todo mundo, os pais tendem a procurar indicadores concretos de sucesso e progresso. Mas não existem notas para a performance dos pais, então a reação normal de muitos deles é medir seu sucesso de acordo com o sucesso dos filhos.

Lahey observa que isso é parte do que a professora Wendy Grolnick chama de “Fenômeno dos pais sob pressão”.

“Os pais pensam: ‘Meu filho é titular do time de futebol da escola, então mereço nota 10 como pai’, ou ‘Eles ganharam a feira de ciência, então vou ganhar um 10 com louvor’”, explica Lahey. Ela diz que isso alimenta a tentação de remover todos os obstáculos do caminho dos filhos.

É óbvio que ninguém quer ver o filho fracassar, mas isso é essencial para que ele aprenda a lidar com as derrotas de maneira positiva e construtiva.

“As ferramentas de ensino mais eficazes que temos exigem que as crianças se frustrem e se esforcem para conquistar seus objetivos”, diz Lahey, apontando o conceito de “dificuldades desejáveis” – tarefas que exigem esforço considerável (mas desejável) para que haja aprendizado de longo prazo. 

“Para ter os benefícios das dificuldades desejáveis, as crianças precisam se frustrar, respirar fundo, reler as instruções e persistir o suficiente para superar a frustração e se sentir competentes quando finalmente alcançarem o objetivo”, afirma ela.

Lahey diz que pais e mães devem se concentrar em dar às crianças mais controle sobre os detalhes da tarefa, permitindo que elas fiquem frustradas e perseverem até chegar a uma solução. O oposto disso é explicar em detalhes como fazer as coisas e direcionar as ações das crianças.

Os pais pensam: ‘Meu filho é titular do time de futebol da escola, então mereço nota 10 como pai’, ou ‘Eles ganharam a feira de ciência, então vou ganhar um 10 com louvor’.”Jessica Lahey, professora, jornalista e escritora

“Como pais, somos muito bons na hora de fazer nossos filhos se sentirem confiantes. Mas confiança é como um otimismo vazio”, diz Lahey. “Competência – quando as crianças realmente perseveram, encontram soluções, tentam algo diferente, erram, tentam de novo e finalmente obtêm uma conquista por esforço próprio – é de onde vem a autoestima. É diferente de alguém dizendo que você é inteligente.” 

 

Como ensinar fracasso e resiliência todos os dias

Os pais podem incorporar lições de fracasso e resiliência no dia a dia dos filhos. Quando ela vai ao aeroporto com os filhos, Lahey às vezes calcula um tempo extra para que, quando eles chegarem, ela possa perguntar: “OK, para onde vamos? O que fazemos primeiro?” A ideia é que, quando eles viajarem sozinhos, eles se sentirão à vontade para se localizar no aeroporto.

Lahey admite que esse tipo de experiência geralmente exige tempo e planejamento, mas vale a pena. “Dar tarefas adequadas para a idade, que não envolvem grandes riscos, os ajuda na hora em que for algo realmente importante”, diz ela.

Westend61 via Getty Images
Os pais podem incorporar lições de fracasso e resiliência no dia a dia das crianças.

Quando era menor, o filho de Lahey amava uma loja de chocolates local e perguntou se eles poderiam ir lá um dia. Ela estacionou o carro na porta da loja, deu uma nota de 5 dólares para o filho e disse: “Vai lá!”. Mas o menino não queria ir sozinho, então eles foram embora. Lahey repetiu o exercício várias vezes ao longo de um ano, até que finalmente um dia ele decidiu que conseguiria entrar na loja sozinho.

“Foi um momento decisivo para ele, porque ele tinha medo de conversar com as pessoas nas lojas”, lembra Lahey. “Agora não é um problema para ele. Foi um jeito simples e sem riscos para ajudá-lo a superar algo que realmente dava medo.”

Lahey também recomenda que as crianças mais velhas preencham seus próprios formulários escolares e liguem para agendar as consultas de seus próprios médicos. “Isso parece uma burocracia chata para a gente, mas para as crianças é uma conquista real.” 

Livros também são ótima ajuda no ensino de fracasso e resiliência. Borba é fã de Fortunately (felizmente, em tradução livre), de Remy Charlip, um livro infantil sobre um menino chamado Ned que se vê em algumas situações difíceis.

“Toda vez que ele tem um momento ‘infeliz’, ele o transforma em um momento ‘feliz’”, explica Borba. “Essa transformação acontece em todas as páginas, para que as crianças vejam que todo mundo tem seus momentos infelizes.”

 

O poder do brainstorming

Borba recomenda que sessões de brainstorming sejam parte da experiência diária das crianças, para que elas pratiquem a solução de problemas.

“Quando seu filho comete um erro, não repreenda a criança por causa disso, mas sim faça perguntas: ‘O que você vai aprender com isso?’, ‘Como você poderia ter feito diferente?’ ou ‘OK, vamos pensar no que temos de fazer agora’”, diz Borba. “Se elas percebem que têm a chance de continuar pensando em outras opções, há menos probabilidade de que elas repitam o erro.”

Ela aponta o que chama de método das “soluções de bolso” – usar a mão como uma ferramenta de brainstorming. O dedão serve para perguntar qual é o problema. Depois, use o indicador, o médio e o anular para pensar em três coisas que você poderia ter feito diferente. O dedinho corresponde ao que você vai fazer da próxima vez.

Quando seu filho comete um erro, não repreenda a criança por causa disso, mas sim faça perguntas: ‘O que você vai aprender com isso?’, ‘Como você poderia ter feito diferente?’ ou ‘OK, vamos pensar no que temos de fazer agora’.”Michele Borba, psicóloga e escritora

Para crianças mais velhas e adolescentes, os pais podem reagir a erros e fracassos dizendo algo como: “OK, podemos tentar de novo. Vamos pensar em uma alternativa”. 

Borba acredita que os filhos têm de admitir seus erros e estar envolvidos no processo de encontrar outras possíveis soluções. “Digamos que seu filho adolescente está indo mal em uma matéria. Pergunte: ‘O que você quer fazer? Que tal marcar uma reunião com o professor? Ou fazer aulas particulares?’ Envolva-os nas decisões.”

Ela também sugere usar notícias como ponto de partida para conversas. O escândalo das universidades é um bom exemplo.

“Pergunte para seu filho adolescente: ‘Você viu o que esses pais fizeram? O que você acharia se eu fizesse algo parecido?’ É ótimo ouvir as reações deles”, afirma Borba. “Notícias, especialmente quando envolvem adolescentes, são uma ótima porta de entrada. Se seu filho não está se interessando, pergunte: ‘O que seus amigos pensam disso? O que as outras pessoas estão comentando?’”

 

As crianças precisam ver os pais enfrentando dificuldades

Compartilhar histórias de fracassos passados e como você os superou também é uma boa ideia. Mas ainda melhor é permitir que seus filhos saibam das dificuldades que você está enfrentando no presente.

“Contas histórias de fracassos atuais permite que os pais compartilhem o que estão pensando e o que estão fazendo. Isso ajuda a modelar a persistência e, mais importante, deixa claro que, a despeito da idade, fracassamos, persistimos e aprendemos”, diz Metcalfe.

Existem maneiras adequadas de se abrir a respeito de fracassos e de deixar claro que todo mundo comete erros. Borba observa que os pais não precisam necessariamente admitir todos os grandes fracassos para os filhos (“Ai não, acabei de falir! O que faço agora?”), mas não há problema em dizer: “Fiz uma grande bobagem nesse projeto”).

“O importante é acrescentar: ‘Mas, da próxima vez, vou...’”, explica Borba. “Você pode dizer: “Estourei completamente o prazo. Achei que conseguiria terminar a tempo, mas estou muito atrasado. Da próxima vez vou programar o despertador pra mais cedo!’”

Tara Moore via Getty Images
Abrir-se sobre dificuldades e fracassos é importante na educação dos filhos.

Na casa de Lahey, cada uma das pessoas da família decide três coisas que quer conquistar nos próximos três meses. Uma delas tem de ser 
“meio assustadora”. Os objetivos dela incluíram enviar trabalhos para novas publicações, começar a fazer aulas de violão e voltar estudar matemática aos 40 anos, para superar sua “matematicofobia”.

Ela acredita que mostrar a disposição de aprender algo novo é uma oportunidade poderosa de ensinar aos filhos que errar é OK.

“Meus filhos me viram tentando, errando e tentando de novo”, diz ela. “É uma das lições mais eficazes que podemos dar, mas parece que tentamos esconder porque queremos parecer perfeitos – o que obviamente não somos.”

No fim das contas, incentivar uma mentalidade de resiliência e crescimento exige esforço e tempo. “Uma única conversa não vai mudar nada”, diz Borba.

Insista para que seus filhos experimentem, cometam erros e encarem os fracassos como uma oportunidade de crescimento. Com o tempo, você vai ver que criou uma pessoa à vontade diante das adversidades e capaz de superar desafios. Esse é o objetivo de todos os pais e mães.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.