MULHERES
14/07/2020 13:55 -03 | Atualizado 14/07/2020 14:06 -03

Coronavírus pode ser transmitido para o feto durante gestação, indica estudo francês

Caso na França é o primeiro em que os médicos e cientistas conseguem mostrar evidências de que a transmissão vertical do vírus é possível.

Cientistas franceses descreveram o que pode ser o primeiro caso com evidências de transmissão do novo coronavírus da gestante para o feto, por meio da placenta. Estudos anteriores já haviam sugerido esta possibilidade, mas uma nova publicação apresenta sinais mais precisos do contágio. 

O estudo, publicado no periódico científico Nature nesta terça-feira (14), descreveu um caso na França em que o vírus causador da covid-19 foi encontrado no sangue de um bebê prematuro de uma gestante de 23 anos que foi diagnosticada com a doença em março.

A detecção do vírus no tecido da placenta, assim como no sangue da gestante e feto, sugere que a “transmissão transplacentária do SARS-CoV-2 (o vírus que causa a Covid-19) pode ser possível”, escreveram os médicos que detalharam o caso. Eles acrescentaram, porém, que estudos adicionais serão necessários.

“Infelizmente, não há dúvida sobre a transmissão neste caso”, disse Daniele De Luca, diretora médica de pediatria e cuidados intensivos neonatais do hospital Antoine Béclère, em Paris, ao jornal britânico The Guardian. “Os médicos devem estar cientes de que isso pode acontecer. Não é comum, isso é certo, mas pode acontecer e deve ser considerado no trabalho clínico”.

Até esse estudo, as análises de potencial contaminação de recém-nascidos detectavam o vírus ou relatavam a presença de anticorpos, mas não deixavam clara a possibilidade de transmissão da gestante para o feto. 

Segundo o The Guardian, três dias após a internação, o feto demonstrou sinais de mal-estar e, por isso, os médicos realizaram uma cesariana de emergência. O bebê, que nasceu com 2,540 kg, precisou ser internado e chegou a ser entubado. Tanto a mãe quanto o bebê se recuperaram bem e tiveram alta.

REUTERS/Akhtar Soomro
Paramédico realiza teste para o novo coronavírus em bebê em Karachi, no Paquistão.

“A razão pela qual isso não tinha sido demonstrado antes é que você precisa de muitas amostras”, disse De Luca ao jornal britânico. “Você precisa do sangue materno, do sangue do recém-nascido, do sangue do cordão umbilical, da placenta, do líquido amniótico, e é extremamente difícil obter todas essas amostras em uma pandemia com emergências por toda parte.”

Segundo o estudo publicado na Nature, testes revelaram que o vírus se espalhou do sangue da gestante para a placenta, onde se replicou e causou inflamação e seguiu para o bebê. “Houve alguns casos suspeitos [até o momento], mas eles continuam suspeitos porque ninguém teve a oportunidade de testar tudo isso e verificar a patologia da placenta”, completou De Luca.

O temor de especialistas

Diante da notícia, especialistas tentam acalmar o temor de que a transmissão vertical seja possível e apontam que mais testes serão necessários. Marian Knight, professora de saúde de populações maternais e infantis da Universidade de Oxford britânica, disse que o caso é interessante, mas que não deveria ser uma grande preocupação para as mulheres grávidas.

“Entre os muitos milhares de bebês nascidos de mães com infecções de SARS-CoV-2, há relatos de muito poucos que também tiveram um exame positivo, cerca de 1% a 2%”, disse ela. “Ainda não está claro se o vírus atravessa a placenta; este relatório fornece indícios de que pode fazê-lo.”

Andrew Shennan, professor de obstetrícia do King’s College de Londres, concordou que é raro bebês ainda no útero contraírem Covid-19 das mães. Ele citou dados britânicos de 244 bebês nascidos de mães infectadas dos quais 95% não tinham sinais do vírus.

“As mulheres podem se sentir seguras de que a gravidez não é um fator de risco significativo para elas ou seus bebês com Covid-19”, disse.

Covid-19, gravidez e grupos de risco no Brasil

Mansi Thapliyal / Reuters
Especialistas ouvidos pelo HuffPost pontuam que as consequências da infecção do novo coronavírus para gestantes ainda são incertas e sem evidências.

Em abril, boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, apontou que gestantes de alto risco ou seja, aquelas com doenças como obesidade, hipertensão, diabetes gestacional, asma e quadro cardiológico, tem mais chances de contrair a covid-19. Assim como as puérperas, nome dado às mulheres que estão passando pelo chamado “puerpério”, período que contempla cerca de 45 dias após o parto. ⠀

Especialistas ouvidos pelo HuffPost pontuam que as consequências da infecção do novo coronavírus para gestantes ainda são incertas e sem evidências, em especial, no que diz respeito à gravidade para mães e bebês. Contudo, estão em alerta. Isso porque a família de vírus “SARS”, à qual pertence a covid-19, pode eventualmente causar aborto, ruptura, parto prematuro, restrição de crescimento intrauterino e morte materna.

“As gestantes de alto risco são aquelas que tem diabetes, pressão alta, obesidade. Elas entraram no grupo de risco justamente por apresentarem um quadro que pode exigir cuidados redobrados durante a gravidez e, por isso, uma vulnerabilidade maior ao vírus. É algo semelhante ao que acontece com outros pacientes que já apresentam doenças pré-existentes”, explica a infectologista Rosana Richtmann, do Emilio Ribas e que atende ainda nas maternidades Santa Joana e Pró-Matre, em São Paulo.

“O fato de ela ser gestante, por si só, não faz com que ela esteja no grupo de risco. Mas não quer dizer que a gente esteja tranquilo. É sempre um quadro imunológico diferenciado. Na minha opinião, merece todo o cuidado”, pontua.

Segundo Richtmann, cuidados devem ser redobrados no momento do puerpério. “Este é um momento em que você tem uma alteração hormonal e imunológica no corpo da mulher. Então, de novo: é um momento de atenção para você estar ‘em cima’ dessas pacientes. A gente sugere que elas fiquem em casa, evitem o máximo de visitas - sabemos que é difícil, mas elas terão muito tempo para apresentar o bebê às pessoas. O momento pode esperar.”

A infectologista lembra que pessoas assintomáticas podem carregar o vírus e que visitas até na maternidade estão suspensas. ”É um direito da mulher ter um acompanhante no momento do parto, o que não pode acontecer são aglomerações e visitas. Independente da pessoas estar ou não saudável, a gente sugere que as visitas estejam suspensas nesse momento.”

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