OPINIÃO
25/06/2020 03:00 -03 | Atualizado 25/06/2020 03:00 -03

Redução de supersalários do funcionalismo não pode ser decisão momentânea por causa da pandemia

Entrevistados do UM BRASIL falam que covid-19 exige avaliação constante das decisões políticas e econômicas dos últimos anos.

Divulgação/Um Brasil
Dantas: "A desculpa para a redução desses supersalários não pode ser associada a algo momentâneo. Passou da hora de o Brasil passar isso a limpo".

O quadro imposto pela pandemia da covid-19 no Brasil exige que o País avalie constantemente se as decisões políticas e econômicas tomadas nos últimos anos nos prepararam para lidar de forma competente com uma crise tão grave – uma força destrutiva de vidas humanas, de empregos e de renda que se soma ao estresse democrático e ao teste diário de sobrevivência das instituições para lidar com tantos dias de tormenta.

O UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, reuniu três dos entrevistadores do canal para dialogar sobre os rumos do País pós-pandemia: o cientista político Humberto Dantas; a jornalista e mestre em Política Econômica Internacional, Érica Fraga; e o jornalista e doutor em Ciência Política, Renato Galeno.

Um dos pontos avaliados por eles é se há espaço para uma agenda liberal que também integre a proteção aos mais necessitados, um tema que se sobrepôs à agenda pública imposta pela crise econômica de 2015/2016 – de austeridade e de ajuste nas contas do governo.

“Se tivéssemos sido mais comedidos nos anos de bonança econômica nos anos 2000 e estivéssemos em uma situação fiscal mais confortável, sem dúvida a capacidade de enfrentamento dessa crise seria outra”, comenta Érica.

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Fraga: "Se tivéssemos sido mais comedidos nos anos de bonança econômica nos anos 2000 e estivéssemos em uma situação fiscal mais confortável, sem dúvida a capacidade de enfrentamento dessa crise seria outra". 

“Algumas famílias que recebem esses recursos [de R$ 600 de auxílio emergencial] estão tendo acesso a mais dinheiro do que elas têm normalmente. Se a economia continuar em crise, como eu acredito que acontecerá, essas pessoas voltam imediatamente para a pobreza”, pontua Érica.

Ainda nesse ponto, em relação à possível tentativa da Câmara dos Deputados de reduzir os salários mais altos do funcionalismo momentaneamente para repassar mais recursos ao auxílio emergencial, Dantas avalia que isso se trata de uma proposta que não chega ao cerne do problema e distorce um princípio republicano.

“A desculpa para a redução desses supersalários não pode ser associada a algo momentâneo. Passou da hora de o Brasil passar isso a limpo. Esse tipo de proposta nos dá a entender que, quando estamos bombando economicamente, podemos gastar sem problemas com o que quisermos”, afirma o cientista político.

“Não podemos utilizar como desculpa a falta de dinheiro [como impeditivo ao repasse de mais recursos a pessoas pobres]. Quem ler a Constituição vai perceber que nunca vai sobrar dinheiro para alguém ganhar o que alguns ganham neste País. Essa discussão tem de ocorrer por republicanismo e não por solidariedade, e esse recado precisa ficar muito claro na sociedade”, diz Dantas.

Ele também avalia o abandono de uma agenda econômica liberal pelo presidente Jair Bolsonaro em razão de sua sobrevivência política no Congresso. “Bolsonaro é extremamente corporativista com a lógica do setor público, sobretudo com militares. Ele, talvez, sequer saiba definir o que é ser liberal do ponto de vista econômico. Ao se aproximar do centrão em nome da sobrevivência política e buscando fugir de diversos pedidos de impeachment, ele tem flertado com um universo parlamentar muito afeito a um Estado sem limites”, enfatiza ele.

O esboço de uma pátria

Galeno comenta sua percepção sobre o sentimento de pertencimento do povo brasileiro à pátria, levando-se em consideração todas as diferenças que compõem esta nação e o descontentamento da sociedade com os rumos políticos.

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Galeno: "A vergonha gera não a raiva, mas a alienação, o abandono da política". 

“A pátria é esse ambiente de afeto, e o patriotismo, um desejo de proteção e de que esse ambiente progrida. Mas existe a possibilidade de essa lealdade se apagar se durante um período prolongado de tempo essa pátria passar a me ferir por estar demonstrando ser majoritariamente algo que eu discordo. Então, o que era orgulho se torna vergonha. A vergonha gera não a raiva, mas a alienação, o abandono da política”, frisa ele.

“Nesse momento, em que muitos brasileiros têm esse sentimento de vergonha do que vem acontecendo com a pátria e em nome dela, o que me preocupa é que isso gere alienação política e refúgio em um individualismo profundo, e que isso crie tribos que nos retirem da obrigação moral de melhorar nosso ambiente social”, diz Galeno.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.