MULHERES
08/07/2019 02:00 -03

Por que médicos ainda cortam e costuram a vagina das mulheres durante o parto?

A episiotomia, também conhecida como 'ponto do marido', deixou de ser realizada de modo rotineiro, mas ainda é chocantemente comum.

gorodenkoff via Getty Images
Por décadas os obstetras realizaram episiotomias como elemento rotineiro do parto.

Quando a norte-americana Rachel* estava prestes a começar a dar à luz a sua primeira filha, sua obstetra tomou uma decisão. Escolheu fazer uma episiotomia. “Ela disse: ‘Sabemos que o bebê é grande, então não vamos correr o risco de ele ficar preso’”, lembra. “Eu falei ‘peraí, como assim?’.”

A médica fez a incisão na parede vaginal sem a autorização de Rachel, enquanto esta gritava de dor. O efeito da anestesia peridural que ela recebera horas antes já havia passado. Ela sentiu tudo e não entendeu nada.

Depois de Rachel dar à luz sua filha, a obstetra costurou o corte. Rachel não sentiu muita dor naquele momento – toda sua atenção estava voltada à sua bebê recém-nascida de 4,2 quilos, que estava tentando amamentar.

A episiotomia é uma incisão efetuada na região do períneo (área muscular entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal de parto e também “ajudar” o bebê a nascer. O procedimento também vem acompanhado do chamado “ponto do marido”, que é “um ponto a mais” feito no fechamento da incisão com o objetivo de deixar a vagina mais fechada que o necessário e, assim, proporcionar prazer ao homem durante próximas relações sexuais.

Mas nos dias e semanas seguintes, ela sentiu dor constante. Quando urinava, a dor era tão forte que a fazia chorar. Ficar sentada era um sofrimento atroz. Depois de cinco meses, as coisas começaram a voltar mais ou menos ao normal. Mas as relações sexuais com seu marido continuaram a doer.

“Foi horrível”, disse Rachel ao HuffPost.

Para quem não possui conhecimento clínico, pode ser difícil identificar a diferença entre um corte e uma incisão realizada propositalmente.Barbara Levy, vice-presidente de políticas de saúde do ACOG

Durante décadas os obstetras realizaram episiotomias como elemento rotineiro do parto, fazendo uma incisão na área entre a abertura vaginal e o ânus para dar mais espaço para a saída do bebê. Os médicos acreditavam que fazer a incisão de modo proativo pouparia as mulheres do risco de sofrer lesões mais graves, não tão fáceis de curar, e facilitaria o parto. Além disso, ao exercer algum controle sobre o corte, acreditavam que davam ao assoalho pélvico da paciente uma chance melhor de uma recuperação plena.

Mas nada disso era verdade. A episiotomia pode exercer um papel importante nos casos em que o ombro do bebê está preso atrás do osso pélvico da mãe, por exemplo, ou quando é necessário auxiliar o bebê com vácuo ou fórceps (algo que ocorre em cerca de 3% dos partos nos Estados Unidos). Mas os médicos acabaram percebendo que não há evidências de que a incisão ajude na maioria dos partos naturais. De modo geral, o corpo da mulher é bastante adepto ao parto, e na maioria dos casos é desnecessário fazer um corte em sua parede vaginal para auxiliar esse processo. Quanto mais o “ponto do marido”. 

Por isso mesmo, 15 anos atrás o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) atualizou suas diretrizes, passando a não recomendar a episiotomia de rotina. 

Desde então, as melhores informações disponíveis sugerem que o número de episiotomias realizadas caiu muito. Em 2000, 33% dos partos naturais nos Estados Unidos envolveram episiotomia. Em 2012, essa porcentagem foi mais próxima de 12% no país.

Em maio deste ano, a organização The Leapfrog Group, entidade que trabalha com a segurança de pacientes e traça comparações diretas entre hospitais, divulgou dados novos que avaliam em cerca de 7% o índice de episiotomias realizadas em 2018 nos hospitais que ela monitora nos Estados Unidos.

Mas os dados não são seguros. A maioria desses números não vem de gráficos clínicos, mas de dados administrativos tirados de registros hospitalares.

“O que sabemos sobre os conjuntos de dados administrativos é que eles podem conter muitos erros”, disse ao HuffPost US a vice-presidente de políticas de saúde do ACOG, Barbara Levy.

“Para quem não possui conhecimento clínico, pode ser difícil identificar a diferença entre um corte e uma incisão realizada propositalmente”, diz.

O quadro geral (mas ainda não muito claro) que emerge é que a episiotomia nos EUA é menos comum hoje do que era décadas atrás, mas ainda ocorre. De acordo com a OMS, não há provas de que o corte seja necessário em qualquer circunstância, e ele só pode ser feito com permissão da mulher.

Mas no Brasil, pesquisa da Fiocruz chamou atenção mostrando que 53,5% dos partos normais são feitos com o procedimento no País. Diante dos dados, o Ministério da Saúde, recomenda uso seletivo do procedimento, mas não determina a taxa ideal a ser atingida. 

E infelizmente não existe uma boa solução para isso. É um problema para toda a vida.Amy Rosenman, especialista em medicina pélvica da UCLA

Mas histórias como a de Rachel sugerem que existem obstetras que continuam a realizar episiotomias rotineiramente. Embora Barbara Levy, do ACOG, tivesse se negado a comentar detalhes específicos do caso de Rachel ou a dizer se a episiotomia foi apropriada nesse caso, ela admitiu que as diretrizes de entidades como o ACOG podem demorar a ser seguidas pelos profissionais em todo o mundo.

Enquanto isso, muitas vezes são as mulheres que precisam discutir a prática da episiotomia com seus médicos e convênios. É um desafio, já que o assunto é algo do qual muitas nunca terão ouvido falar.

“Como paciente, você fará bem em ter discussões francas com seu convênio ou médico”, disse Levy. “Você precisa perguntar: em quais circunstâncias eles realizariam uma episiotomia? Você terá a chance de tomar essa decisão juntamente com os médicos? O que constituiria uma situação de emergência, em que a episiotomia poderia ser feita sem sua decisão?”

Para ela, as mulheres devem procurar informações sobre os índices de episiotomia, do mesmo modo como perguntam sobre o índice de cesáreas. Não é uma questão simples, como “episiotomia é ruim, deixar o corte acontecer naturalmente é bom”.

Em alguns casos, uma episiotomia em um parto com fórceps pode prevenir uma cesárea, e essa pode ser uma decisão que a mulher e seu médico poderiam tomar juntos no momento do parto, com base em suas circunstâncias e seus desejos particulares, disse Levy.

Em outros momentos – por exemplo se o ombro do bebê estiver preso ―, o médico pode tomar a decisão de realizar a episiotomia imediatamente, sem consultar a paciente. No calor do momento, não seria algo aberto à discussão, explicou Levy.

“Estas coisas precisam ser conversadas de antemão”, ela ponderou. “Por isso é importante a mulher ter uma relação de confiança com seu médico, convênio ou hospital.”

Porque, como Rachel constatou, recuperar-se de uma episiotomia pode não ser fácil. “Essa é a maior preocupação”, disse a ginecologista e obstetra Amy Rosenman, especialista em medicina pélvica feminina na Escola David Geffen de Medicina da UCLA. “A mulher pode desenvolver incompetência do esfíncter e começar a vazar fezes. E infelizmente não existe uma boa solução para isso. É um problema para toda a vida.”

Rosenman ressaltou que uma consequência muito mais comum da episiotomia é que o corpo da mulher se recupera lentamente ao longo de algumas semanas ou meses. Mas mesmo o melhor cenário possível acrescenta uma dose de dor e complicação ao período do pós-parto, que já é extremamente intenso.

Num retorno com sua ginecologista após o parto, Rachel falou da episiotomia e contou que a recuperação estava sendo dolorosa.

“Ela me falou: ‘Você vai viver e o corte vai sarar’”, disse Rachel. “E ela teve razão. Eu vivi e o corte sarou. Mas foi traumático e violento.”

*Por razões de privacidade, a personagem pediu ao HuffPost US que a identificasse por um pseudônimo.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.