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23/09/2019 05:00 -03

7 em cada 10 brasileiros têm medo de denunciar corrupção por temer represália

Estudo da Transparência Internacional mostra que aumentou a desconfiança dos brasileiros em relação às instituições do País.

HEULER ANDREY via Getty Images
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Os brasileiros estão cada vez mais descrentes nas instituições e estão com medo de denunciar casos de corrupção por temer represália e acreditar que pouco será feito. Essas são algumas análises expostas no Barômetro Global da Corrupção: América Latina e Caribe, da Transparência Internacional, divulgado na madrugada desta segunda-feira (23).

De acordo com o estudo, 90% dos brasileiros afirmam que a corrupção é um grande problema no País. Para a Transparência Internacional, o indicador mostra que o Brasil continua ser um dos países no mundo com a sociedade mais consciente de seu papel e seu potencial de fazer a diferença na luta contra a corrupção.

Apesar disso, 74% temem denunciar atos corruptos por medo de sofrerem consequências negativas. Para Guilherme France, coordenador de pesquisa do Centro de Conhecimento Anticorrupção da Transparência Internacional, um dos impedimentos para a denúncia é a falta de legislação de proteção ao denunciante.

Há regra específica para delator — alguém que fez parte do esquema — ou para acordos de leniência, quando envolvem empresas.

“O denunciante de irregularidade é uma pessoa de fora, que viu alguma irregularidade sendo cometida, algum suborno sendo pago, alguma fraude em uma licitação, uma compra de votos. Essa pessoa no Brasil não tem ainda um arcabouço que lhe confira proteção contra eventual represália”, destaca.

France ressalta ainda que o índice de pessoas que acreditam que algo vai ser feito a partir dessa denúncia é pequeno, o que a desencoraja.

“A pessoa não tem coragem de denunciar porque não tem confiança nas instituições. E por outro lado, não tem garantia de que não haverá represália. Há medo de demissão, se tornar alvo de algum tipo de perseguição ou ameaça contra a própria vida.”

Descrença nas instituições

De acordo com o estudo, aumentou também o nível de desconfiança nas instituições, com destaque para o Judiciário, com crescimento de 13 pontos percentuais. 

“Diversas são as instituições em relação às quais a percepção da população se agravou nos últimos dois anos. Para ela, grande parte dos integrantes da Presidência, Congresso, Judiciário, executivos de empresas são corruptos”, diz France.

Uma curiosidade é o alto índice de pessoas que não confiam nas ONGs (organizações não-governamentais). O indicador apareceu pela primeira vez nesta edição do levantamento.

“O número de pessoas que têm impressão negativa em relação às ONGs, que estão especialmente entre mais velhos, é preocupante. Podemos considerar pelo menos parcialmente responsabilidade da campanha de desinformação contra a forma de atuação das organizações da sociedade civil, uma campanha levada por diversos setores que acaba de alguma forma pintando ou definindo o trabalho dessas organizações de forma muito negativa.”

O especialista cita como exemplo as tratativas em torno do Fundo Amazônia. Recentemente o presidente Jair Bolsonaro afirmou que as ONGs poderiam estar por trás das queimadas e do desmatamento na Amazônia. Para ele, esse tipo de acusação acaba alimentando, pelo menos parcialmente, um imaginário de que as organizações não-governamentais fazem trabalho ruim ou são corruptas — mesmo sem evidências.

Compra de votos

A compra de votos segue como um problema no País, mesmo 20 anos depois de ter sido aprovada a Lei Contra a Compra de Votos. Quatro em cada dez brasileiros disseram que já lhe foi oferecido dinheiro para que vendessem o voto nos últimos cinco anos. Outros 14% afirmaram já terem sido alvo de ameaças com objetivo de influenciar seus votos.

Chama atenção também o fato de que 20% dos brasileiros já foram ou conhecem alguém que foi vítima de extorsão sexual. Isto é quando algum funcionário do Estado oferece um benefício público em troca de favores sexuais.

O problema, de acordo com o estudo, afeta principalmente as mulheres. “Além de serem as principais vítimas, elas relatam desconfiança de que uma denúncia de corrupção de sua autoria será levada a sério pelas autoridades. Do total, 53% das entrevistadas acham que uma ação é mais provável de ser tomada quando o denunciante é um homem”, diz nota da Transparência Intencional.

Por outro lado, uma entre cada dez pessoas já pagou para ter acesso a algum serviço público. O índice é o terceiro mais baixo em comparação a outros países da América Latina e Caribe.

“Em outros países da nossa região, paga-se suborno até para receber uma carta ou para que recolham o lixo de casa. Essa nem de longe é a realidade do brasileiro”, destaca a nota da Transparência Internacional.

O Barômetro Global da Corrupção: América Latina e Caribe ouviu mais de 13 mil pessoas em toda a região da América Latina e Caribe.