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01/10/2020 02:00 -03

Por que o funcionamento dos correios pode ser decisivo nas eleições presidenciais americanas

No passado, furacões, nevascas ou problemas de impressão não impediram os correios de ajudar a garantir as eleições nos Estados Unidos. Será que as coisas mudaram?

Em 2016, os prazos para registro de eleitores na Flórida, Geórgia e Carolina do Sul caíram na mesma época em que se previa a chegada do furacão Matthew, a primeira tempestade de categoria 5 a atingir o Atlântico em quase uma década.

No sábado antes da data prevista para a chegada do furacão, o telefone de Tammy Patrick tocou. Ronald Stroman, o segundo executivo mais alto dos correios americanos, advertiu que as agências locais seriam fechadas durante a tempestade e queria saber se deveria enviar carteiros para os centros emergenciais da Cruz Vermelha para garantir que formulários de registro eleitoral fossem carimbados dentro do prazo legal.

“Meu Deus, tem um furacão chegando e o número dois dos correios sabe quando acaba o prazo para registro de eleitores”, lembra-se de ter pensado Patrick, da organização sem fins lucrativos Democracy Fund Voice. “Nas gestões anteriores, os correios literalmente moviam montanhas para garantir que as coisas chegassem aqui a tempo. Então, quando digo que o tom mudou, estou falando de uma mudança dramática.”

Com a aproximação das eleições de 2020, o novo diretor da estatal, Louis DeJoy, priorizou cortes no orçamento no lugar da entrega de correspondências no prazo. Isso representa um risco enorme para a votação pelo correio, que deve bater recordes este ano por causa da pandemia de covid-19.

Mas, apesar de toda a atenção que o público tem dado aos votos à distância, o bom funcionamento dos correios também é crítico para a votação tradicional.

Como as eleições americanas são tão descentralizadas ― com milhares de regras, prazos e cédulas ―, os correios formam uma parte essencial do processo, pois trata-se de um sistema que conecta o país inteiro.

A maioria dos eleitores recebe pelo correio a confirmação oficial de seu registro eleitoral e também avisos sobre onde votar. O correio é responsável por transportar as cédulas das gráficas para as seções eleitorais e também é peça fundamental no recrutamento das pessoas que trabalharão no dia da eleição. (Normalmente, a convocação e a resposta são enviadas pelo correio.) Os correios têm de garantir que todos esses documentos sejam entregues dentro do prazo. Um único prazo perdido pode privar um eleitor do direito de votar.

Em outras palavras, os correios ajudam a conduzir as eleições nos Estados Unidos. E teme-se que, este ano, a estatal não esteja à altura da tarefa.

“É a primeira vez que ouço esse tom em relação à correspondência eleitoral”, diz Patrick, especialista em melhores práticas para votação por correspondência. “É uma grande mudança da visão geral de ‘a correspondência tem de ser entregue’ para ‘ela pode esperar’. As entregas não podem esperar. Para muitos eleitores, um dia de atraso é tarde demais.”

Nas gestões anteriores, os correios moviam montanhas para garantir que as coisas chegassem aqui a tempo.Tammy Patrick, assessora-sênior da ONG Democracy Fund Voice

Nos últimos meses, DeJoy exacerbou uma enorme desaceleração nos serviços proibindo saídas extras para entregar correspondências atrasadas e implementando uma política de horas extras confusa, o que deixou muitas instalações de triagem com poucos funcionários - tudo sob a justificativa de que essas medidas iriam economizar bilhões de dólares para a estata.

O responsável por eleições dos correios levantou dúvidas sobre se a estatal honraria um antigo arranjo informal de entregar as cédulas de voto à distância o mais rápido possível, independentemente das taxas de postagem que os estados possam pagar.

Desde então, a empresa garantiu aos estados que entregaria toda correspondência eleitoral rapidamente e começou a montar uma força-tarefa para ajudar os estados a solucionar problemas com o voto por correspondência. Mas o prazo é apertado. Alguns estados já começaram a enviar as cédulas aos eleitores.

Para completar, o presidente Donald Trump disse ser contra mais recursos financeiros para os correios porque “isso significa que você não pode ter votação universal por correspondência”. Ele afirma que o voto à distância é uma ameaça à sua reeleição. Ele também incentivou seus apoiadores a tentar votar duas vezes para testar os sistemas de votação por correio.

“Durante anos, trabalhamos para estabelecer junto aos correios uma compreensão de seu papel na entrega da democracia para dezenas de milhões de eleitores que receberão suas cédulas das mãos de um carteiro, não de um funcionário da seção eleitoral”, afirma Patrick.

Se não houver essa dedicação este ano, o resultado pode ser desastroso.

Resgates nos bastidores

Ao todo, milhares de seções eleitorais do país inteiro esperam que milhões de correspondências sejam entregues a tempo e nos destinos corretos. Algumas agências deixaram de ser simplesmente um elo da corrente e parecem mais um braço da eleição.

Amber McReynolds diz que, nos 13 anos em que dirigiu o processo eleitoral na cidade de Denver, carteiros e funcionários eleitorais se organizaram para que a apuração começasse assim que as cédulas fossem triadas; não se desperdiçava tempo.

McReynolds lembra de pelo menos duas ocasiões em que Denver não tinha dinheiro para pagar os correios ― alguém na prefeitura simplesmente se esquecera de colocar dinheiro na conta da cidade. Ainda assim, o serviço foi mantido. Uma vez foram cartões postas indicando onde ficavam as seções eleitorais; na outra, um livreto que explicava em detalhes os referendos que seriam votados naquela eleição.

“Nosso relacionamento era incrível”, diz McReynolds. “Eles sabiam o dia dos nossos aniversários, nós levávamos biscoitos para eles.”

Parece bobagem, admite McReynolds, mas essas relações são importantes porque as autoridades locais raramente têm todos os recursos necessários para administrar as eleições sem sobressaltos. Por exemplo: existem hoje cerca de 10.000 contas de correios diferentes criadas por funcionários eleitorais locais para pagar pelo envio da correspondência eleitoral. O Congresso poderia estabelecer uma conta única que valesse no país inteiro, como faz para enviar as cédulas para os militares que estão no exterior. Mas o Congresso não o fez e, às vezes, o sistema funciona à base de generosidade.

Patrick também já passou por situações semelhantes.

Ao longo dos anos, as gráficas em várias ocasiões produziram cédulas com erros nos códigos de barras – o que causava problemas na triagem e no envio. Na maioria dos casos, afirma ela, os carteiros tiveram de intervir e resolver a confusão manualmente.

[Os correios] foram rápidos e deram conta do recado. Ouvimos histórias de literalmente 20.000 cédulas chegando de caminhão no dia da eleição.

Na temporada das primárias de 2018, um caminhão que transportava cédulas de votação pelo correio quebrou a caminho da cidade de Provo, Utah. A gráfica os estava enviando por uma transportadora, em vez de usar os correios, para economizar. As cédulas chegaram com atraso numa sexta-feira à noite, e os funcionários da estatal tiveram de correr para identificá-las, carimbá-las e enviá-las.

Em 24 horas, todos os eleitores que votaram pelo correio em Provo tinham recebido suas cédulas. “O caminhão nem sequer era deles. O cliente é que estava tentando economizar no serviço” à custa dos correios, diz Patrick. “E, no entanto, tem sido esse tipo de compromisso que as autoridades eleitorais esperam dos correios.”

Os correios também já tiveram de se virar para resolver as crises eleitorais criadas pela pandemia global. Em abril deste ano, quase 400 funcionários dos correios em três instalações de triagem de Detroit ficaram doentes, o que resultou no atraso de milhares de cédulas para as primárias.

Quando as autoridades eleitorais ficaram sabendo, apenas uma semana antes da votação, os correios enviaram caminhões de cédulas para as unidades de triagem, os funcionários fizeram hora extra e investigadores fizeram varreduras para garantir que nenhuma delas tivesse sido esquecida.

“[Os correios] foram rápidos e deram conta do recado”, diz uma pessoa envolvida na eleição. ”Ouvimos histórias de literalmente 20.000 cédulas chegando de caminhão no dia da eleição.”

Mas alguns executivos que ajudaram a resolver o problema não trabalham mais na agência ou foram postos de lado. Um deles é David E. Williams, que teria sido afastado das operações do dia-a-dia em agosto, quando DeJoy mexeu nos quadros de liderança da estatal. Stroman, que era o número dois dos correios que ofereceu o envio de carteiros para os abrigos contra furacões, pediu demissão em maio.

REUTERS/ANDREW KELLY
Funcionária dos correios faz entregas sob chuva em Nova York, durante o surto do coronavírus na cidade, 13 de abril de 2020.  

Os correios nem sempre funcionam perfeitamente em épocas de crise. Há alguns meses, em Nova York, as autoridades estaduais abruptamente relaxaram as regras para o voto postal, o que levou a um aumento de mais de oito vezes no número de cédulas enviadas pelo correio em comparação com as primárias de 2016 – de 157.000 para 1,2 milhão. A estrutura não estava preparada.

Centenas de eleitores podem ter recebido as cédulas tarde demais para votar. Em uma agência no Brooklyn, os funcionários não carimbaram milhares de cédulas, fazendo com que o Conselho Eleitoral de Nova York declarasse inválidas cerca de 12.500 delas (para que os votos contassem, eles tinham de ter sido carimbados até o próprio dia da eleição). Duas eleições para a Câmara dos Deputados ficaram indecisas por um mês e meio.

Mesmo essa debacle, no entanto, não corresponde ao fracasso de proporções épicas descrito pelos críticos. (Um editorial do Wall Street Journal citou com aprovação autoridades estaduais que culparam os correios e advertiram que na eleição de novembro pode haver “uma debacle de votos por correspondência da qual o país pode vir a se arrepender.”)

O atraso na entrega das cédulas aos eleitores teve muito a ver com o fato de que o prazo para solicitar a cédula para voto à distância era muito próximo ao dia da eleição. Na noite anterior às primárias, os funcionários eleitorais da cidade de Nova York enviaram 30.000 cédulas. Os correios correram para entregá-las e designaram funcionários para carimbar manualmente os milhares de cédulas que chegaram na última hora.

Quanto às cédulas do Brooklyn sem carimbo, um juiz federal decidiu mais tarde que o estado deveria conta-las. Como 97% delas chegaram até dois dias depois do dia da votação, argumentou o juiz, elas só poderiam ter sido postadas antes ou no dia da eleição. Em outras palavras, os correios desempenharam sua função central ― entregar a correspondência ― com confiabilidade suficiente para compensar diversos outros problemas.

Os executivos da estatal prometem ser igualmente dedicados na eleição de novembro. “Vamos fazer o mesmo, tentar ao máximo.

Estamos totalmente comprometidos”, afirmou Justin Glass, diretor das operações eleitorais dos correios, em um painel recente sobre as próximas eleições. E os funcionários não estão impedidos de fazer hora extra, acrescentou ele. “Mas temos de usar esse recurso de maneira inteligente.”

Os defensores dos direitos de votação afirmam que os correios começaram a trabalhar mais estreitamente com as autoridades eleitorais a fim de se preparar para novembro. Mas eles ainda estão em alerta máximo e se perguntam se a agência dedicou pessoal nos bastidores para dar conta da tarefa.

“Nós que trabalhamos com isso há muito tempo estamos prestando muita atenção”, diz McReynolds. “Qual é o plano dos correios para ajudar as autoridades eleitorais?”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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