Tamo Junto

Você está minimizando ou negligenciando a pandemia de coronavírus?

Dois tipos de pessoas se destacam na pandemia: as ansiosas e as que fazem pouco-caso. Em qual desses grupos você se encaixa?

“Não estou superpreocupado com isso”, comenta Quincy Dash em meio à cobertura noticiosa exaustiva e às conversas constantes sobre o coronavírus. “Não entendo por que as pessoas estão fazendo estoques de alimentos e outras coisas.”

Executivo de relações públicas em Liverpool, Dash, 28 anos, não é o único a reagir desse modo, apesar de o surto de coronavírus já ter ganho a classificação de pandemia, fechado a Itália e esvaziado, nos supermercados em todo o Reino Unido, os estoques de macarrão, sabonete, álcool em gel e papel higiênico.

A psicoterapeuta Liz Ritchie, da St. Andrews Healthcare, em Northampton, Inglaterra, disse que dois grupos estão se delineando no que diz respeito a como as pessoas processam psicologicamente a situação atual. Há o grupo dos despreocupados e o dos ansiosos. “As duas atitudes dependem em grande medida de como as pessoas avaliam seu grau de suscetibilidade ao vírus e à gravidade do risco”, diz.

O campo dos despreocupados abrange todo um espectro de comportamentos, desde as pessoas que não se preocupam muito, mas prestam atenção aos outros, até aquelas que continuam a viver a vida como de costume – tossindo, espirrando e expelindo catarro―, a não ser que recebam ordens em sentido contrário.

E há também os indiferentes intencionais: pessoas que não se autoisolaram, mesmo sabendo que deveriam, ou que interromperam seu autoisolamento antes da hora, apesar de se enquadrarem nos critérios de quem precisa fazer o exame do vírus e permanecer em casa.

Essa última situação é a pior – afinal, cabe a todos nós barrarmos o alastramento do covid-19. Mas, diz Ritchie, “encarar o vírus sob ótica realista, sem pânico, é uma maneira muito sadia de agir neste momento”.

A psicoterapeuta diz que o enfoque mais eficaz é “simplesmente ouvir as informações que nos são transmitidas, prestar atenção a qualquer orientação que nos foi passada, mas sem levar isso ao extremo”.

Enquanto o número de pessoas que fazem o exame de coronavírus continua a aumentar no Reino Unido, assim como o número das que têm resultado positivo, a orientação atual do governo ainda é que as pessoas lavem as mãos com frequência e, quando tossem ou espirram, protejam a boca e o nariz com lenço de papel, que então deve ser jogado no lixo imediatamente.

Cada vez mais pessoas estão se autoisolando, e a Public Health England traçou planos para o passo seguinte no processo do chamado distanciamento social, que pode se tornar necessário nos próximos dias ou semanas.

Quincy Dash diz que tem consciência da gravidade da situação, mas acha que está havendo um processo de meter medo nas pessoas na hora de apresentar as informações a ele e ao público em geral. “Pelo que vejo, as estatísticas sobre o número de mortos são baixas, comparadas com outras doenças”, diz.

“Esse assunto está em toda parte nos noticiários, nas redes sociais, em todo lugar onde você anda. Mesmo celebridades estão entrando na onda, como Naomi Campbell.” (A supermodelo foi ao aeroporto usando máscara e roupa protetora completa.) “Procuro não me envolver demais, porque o medo não é uma coisa boa para a população ou para o mundo neste momento.”

A psicoterapeuta Natasha Page, membro da Associação Britânica de Aconselhamento e Psicoterapia (BACP), diz que o modo como as pessoas reagem à situação atual provavelmente depende de como elas apreendem o impacto que terá sobre elas. “Algumas pessoas encaram como algo que elas vão poder superar, ao qual conseguirão sobreviver. Mas outras, possivelmente com vinculação ansiosa maior, se preocupam mais com as consequências se o problema se agravar”, explica.

Não se preocupar com a situação já é uma estratégia para lidar com ela, diz Page. As pessoas que tendem mais a reagir desse modo podem ter desenvolvido a atitude despreocupada como estratégia ao longo dos anos, baseada em suas experiências e nas situações que já enfrentaram na vida, ou mesmo desde a infância, ao ver como seus pais administravam o estresse e a ansiedade.

“Para as pessoas que reagem desse modo, é assim que elas controlam a situação”, explica Page. “Alguns pacientes seguem o caminho oposto e, para assumir o controle, fazem estoques de alimentos e outras mercadorias ou são hipercuidadosas em seus contatos com outras pessoas – não trocam apertos de mão, não querem passar tanto tempo na companhia de outras pessoas.”

“Acho que tudo depende do modo como as pessoas conseguem controlar seu ambiente numa situação que, no momento, nos parece carregada de incertezas.”

Lee Chambers, 34 anos, é coach e vive em Preston. Ele diz que não está muito preocupado com o vírus, apesar de seu sistema imunológico ser comprometido.

Chambers tem artrite reumatoide e já precisa tomar muitos cuidados normalmente, praticando boa higiene e evitando determinadas situações que podem ser perigosas para sua saúde. Assim, diferentemente de boa parte do restante da população, para ele as precauções intensificadas não constituem novidade.

Ele gostaria que outras pessoas tivessem mais consciência das pessoas na sociedade que têm sistema imunológico comprometido, mas não necessariamente aparentam estar doentes. “O perigo para mim é que tenho só 34 anos e pareço estar em boa forma física. Se eu não conto às pessoas, ninguém desconfia que tenho essa doença nem faz ideia dos problemas pelos quais passo. Por isso acho que às vezes falta um pouco de consciência dos outros.”

Ritchie avisa que, neste momento, é muito importante não reagirmos exageradamente, porque isso poderia ter repercussões negativas – algumas das quais andamos testemunhando na corrida atual aos supermercados que está tendo lugar no Reino Unido.

“Quando reagimos exageradamente, o efeito dominó disso afeta muitas outras coisas, causando uma situação onde, de uma perspectiva econômica e prática, as coisas começam a ser reformuladas”, explica. “E nem sempre de maneira positiva.”

Para Quincy Dash, a vida continua como de costume – ele continua indo às compras, frequentando a academia e comendo fora. Mas está prestando mais atenção aos germes, afirma. “A única mudança que adotei foi levar minha garrafa d’água junto quando entro na sauna. Assim, se eu a tiver colocado em algum lugar onde há micróbios, o vapor pode destruir qualquer micróbio, ou assim espero.”

Ele diz que não vai se preocupar muito com o coronavírus enquanto não sentir a doença mais de perto – se um amigo ou parente a contrair, por exemplo. Ele mantém sua atitude positiva depois de ouvir relatos sobre pessoas que se infectaram e sobreviveram ao vírus.

“Acabei de retornar da África do Sul. Na viagem de volta, fizemos escala em Abu Dhabi. Olhando em volta, havia muitos passageiros andando por aí de máscara”, ele contou. “Pensei comigo mesmo: ‘acho que isso não vai adiantar nada’. Não apenas parece uma idiotice como a pessoa não está evitando nada.”

“E essa história de fazer estoques de comida e outras coisas, não entendo por que as pessoas estão fazendo isso. Especialmente o papel higiênico – deve haver coisas melhores para se fazer estoque.”

Quanto a Chambers, ele gostaria que as pessoas agissem com um pouco de cautela pelo bem dos outros. Para ele, muitas pessoas estão pensando nelas próprias e seus familiares mais próximos, possivelmente também nos idosos em volta. Mas não há muita consciência das pessoas que têm sistema imunológico comprometido ou outras doenças crônicas, porém invisíveis.

“Se pudermos ter um pouco mais compaixão e cuidado com os outros, essa deve ser a coisa mais importante a tirar da situação atual”, diz.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.