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06/03/2020 04:00 -03

Decretar coronavírus como pandemia pode ter impacto financeiro, diz ex-ministro

Para Alexandre Padilha, OMS demora em mudar a classificação por temer risco à economia.

Handout . / Reuters
O surto que começou na China já se alastrou por cinco continentes, infectou mais de 95 mil pessoas e causou a morte de mais de 3,2 mil.

A rapidez na disseminação do novo coronavírus tem feito com que o Ministério da Saúde pressione a OMS (Organização Mundial da Saúde) a declarar estado de pandemia em relação à doença. Nesta semana, o ex-ministro da Saúde, deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) também entrou em campo para cobrar a organização. 

Para o ex-ministro, a mudança na classificação pode diminuir o pânico da população diante da dispersão do vírus. O surto que começou na China já se alastrou por cinco continentes, infectou mais de 95 mil pessoas e causou a morte de mais de 3,2 mil. No Brasil, há 8 casos confirmados e outros 636 suspeitos.  A organização, no entanto, reluta em mudar a classificação. 

Na visão de Padilha, esse posicionamento da OMS se dá, principalmente, por motivos econômicos. Uma possível declaração da organização sobre uma pandemia de coronavírus poderia afetar os mercados globais e, sobretudo, o norte-americano, ponderou o ex-ministro em entrevista ao HuffPost Brasil.

“Nos Estados Unidos, particularmente, reconhecer pandemia seria reconhecer transmissão consistente no país, o que levaria a possíveis medidas de restrição de viagens de norte-americanos pelo mundo e de pessoas para os Estados Unidos, e isso certamente faria a economia recuar.”

Por que mudar a classificação

Para o ex-ministro, tratar a doença como pandemia permite ao Ministério da Saúde “ter mais liberdade” na contenção dos possíveis casos no País. Isso porque, em vez de a pasta se dedicar apenas a localização dos casos, poderá dedicar os esforços para evitar as mortes e o desenvolvimento de casos mais graves em grupos de risco.

“O Ministério passa a poder mapear os países de origem do vírus e também orientar os profissionais de saúde do SUS em relação ao cuidado dos grupos mais graves. Enquanto o coronavírus não for classificado como pandemia, o governo precisa ficar aguardando as recomendações da OMS”, explicou o ex-ministro.

A OMS tem sido cautelosa até então na classificação do coronavírus. No fim de janeiro, a organização mudou o status para “emergência global” e, segundo o diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus, o mundo ainda não enfrenta uma pandemia, pois “não estamos testemunhando doenças graves ou mortes em larga escala”.

De epidemia para pandemia

Nos últimos dias, o governo brasileiro tem se mostrado irritado em relação a demora da OMS de reconhecer a nova classificação. Um áudio do secretário de Vigilância do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira, que circulou nas redes sociais, diz que a organização “peca em não dizer de forma franca que o vírus se espalhou e que não é possível contê-lo”. 

Em entrevistas, o atual ministro Luiz Henrique Mandetta, também reforça o discurso. Segundo ele, estamos “estamos em transição de modelos, entre epidemia e pandemia” e, no estágio de transmissibilidade que se encontra o vírus, tanto faz você estar no Brasil ou na Europa.

“O mundo é conectado. Vivemos em um grande trânsito global. A epidemia de informações traz essa sensação de ansiedade e insegurança. Ninguém vai parar a vida por conta de uma gripe. Isso vai continuar acontecendo, e vamos chegar em um ponto em que tanto faz você estar no Brasil ou na Europa”, argumentou. “Agora, precisamos aumentar a vigilância e o preparo dos atendimentos.”

O que é  uma pandemia

O conceito de pandemia é usado quando uma doença infecciosa ameaça em larga escala a população de forma simultânea em todo o mundo. A última pandemia enfrentada foi a gripe suína, em 2009. Mas é importante lembrar que a humanidade enfrenta pandemias há centenas de anos. A primeira que se tem registro data de 1580, quando um vírus influenza se espalhou pela Ásia, África, Europa e América do Norte.

O principal fator para se conceituar uma pandemia é a sua característica geográfica, e não necessariamente da gravidade da doença. 

Por que a OMS hesita em declarar uma pandemia no caso do coronavírus

O grupo de países afetados pela doença cresce todos os dias, mas a Organização tem mantido um posicionamento cauteloso na indicação de uma pandemia. Isso se deve pelo fato de que, ao declarar a mudança no status da dispersão do vírus, reconhece-se um cenário em que os esforços para o controle da propagação do vírus não obtiveram efeitos. 

Em termos práticos, ao declarar uma pandemia, a OMS direciona os esforços dos países não para a detecção de novos casos, mas sim à fase de mitigação: adotar medidas para evitar mais mortes. 

 

Leia a entrevista com o ex-ministro Alexandre Padilha.

HuffPost: O que muda no enfrentamento do coronavírus caso a doença seja reconhecida como uma pandemia?

Alexandre Padilha: Cinco continentes já possuem transmissão do coronavírus. E por isso ele deve ser classificado como pandemia. Com a mudança da classificação, o Ministério da Saúde tem mais liberdade para tomar providências, para mapear e também orientar os profissionais de saúde. É uma responsabilidade da pasta dar o devido suporte e apoio ao SUS.

Existem efeitos práticos enquanto a OMS não declarar pandemia. O Ministério tem menos liberdade para identificar os países por onde as pessoas estiveram e para tomar as devidas providências com os casos suspeitos.

Enquanto o coronavírus não for classificado como pandemia, o governo precisa ficar aguardando as recomendações da OMS de quais os países são declarados suspeitos e qual é o risco real da transmissão. No Congresso Nacional já foi aprovado uma moção de apoio protocolada por mim para tratar o coronavírus como pandemia.

Por que a OMS está relutante em assumir esse posicionamento? O senhor acha que a pressão do Brasil pode ajudar nessa mudança? 

Acredito que há a pressão dos efeitos de se declarar uma pandemia nos mercados e na economia global. Nos Estados Unidos, particularmente, reconhecer pandemia seria reconhecer transmissão consistente no país, o que levaria a possíveis medidas de restrição de viagens de norte-americanos pelo mundo e de pessoas para os Estados Unidos, e isso certamente faria a economia recuar.

Além disso, reconhecer a pandemia seria reconhecer o quão despreparados estão os EUA para garantir acesso a saúde ao conjunto da sua população. o país tem dificuldade em fazer vigilância e o fato dos testes para coronavírus só estarem disponíveis em serviços privados têm afastado as pessoas de buscarem a confirmação do diagnóstico.

Há um receio também da pandemia se tornar um argumento na contenção dos fluxos migratórios em todo o continente americano, mas em particular nos EUA.

O Brasil sozinho não vai conseguir mudar esta opinião, isso requer o posicionamento de vários países diante da OMS.

O que o governo do Brasil pode fazer para acalmar a população em relação aos casos que vêm sendo confirmado?

O principal é garantir informação adequada e transparente. Ter titubeado por 3 semanas para trazer os brasileiros que estavam na China de volta ao País e, agora, o Ministério da Saúde ter voltado atrás na confirmação do quarto caso, são posições negativas para a condução da situação.

Também é preciso garantir o uso da força máxima do SUS. O acordo do governo  Bolsonaro dos PLNs de R$ 30 bilhões deveria colocar mais recursos na saúde para ativar os leitos de UTI e hospitalares que não estavam habilitados ou abertos.

Também precisamos de plantões de 24 horas na Anvisa e todo o reforço possível na estrutura dos laboratórios públicos. Outro ponto importante é usar os instrumentos regulatórios dos ministérios da Saúde e da Economia para não permitir aumentos abusivos em utensílios e insumos de proteção individual, como máscaras e álcool em gel. 

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