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05/04/2020 08:16 -03 | Atualizado 05/04/2020 08:16 -03

Chegada do coronavírus nas favelas preocupa e deve acentuar desigualdade social

"Falta de água, não ter dinheiro para comprar nem sabonete e impossibilidade de fazer isolamento são condições perfeitas para espalhar mais rapidamente o vírus", diz epidemiologista.

Desde que os alertas sobre a pandemia de coronavírus se intensificaram já faltou água na Cidade de Deus, uma das maiores favelas da zona oeste do Rio de Janeiro, pelo menos duas vezes. Sem água, o ato de lavar as mãos, cuidado básico para evitar a infecção pelo vírus, se torna um luxo e o risco de a doença se espalhar aumenta. 

Nas favelas e comunidades mais vulneráveis do País, não raro faltam itens básicos de higiene e as recomendações de isolamento social são incompatíveis com a realidade das famílias. O cenário preocupa diante do avanço do número de casos de covid-19 e, para especialistas, a pandemia tende a acentuar ainda mais a situação de fragilidade e de desigualdade social.

“Estamos pedindo e distribuindo itens básicos de higiene, porque tem casa que simplesmente não tem”, conta a estudante Samantha Messiades, 31 anos. Mãe de dois filhos e integrante da Associação de Moradores da Cidade de Deus, ela teve a vida duramente impactada pela pandemia, especialmente pela separação dos filhos. 

“Vejo meus filhos pelas grades da casa da minha mãe”, conta. Os dois, com idade entre 6 e 11 anos, estão aos cuidados da avó porque Samantha é uma das pessoas que está na linha de frente das ações de solidariedade na comunidade e segue circulando pela cidade. “Esses dias recolhi itens de higiene para a amiga de uma vizinha que está com covid-19. Ela está em isolamento absoluto e não tinha as coisas básicas para se manter”, diz.  

Esses dias recolhi itens de higiene para a amiga de uma vizinha que está com covid-19. Ela está em isolamento absoluto e não tinha as coisas básicas para se manter.Samantha Messiades, moradora da favela Cidade de Deus

A chegada do vírus nas favelas, como temiam as autoridades de saúde do País, já aconteceu. Além da Cidade de Deus, há casos confirmados em outras três favelas: dois em Manguinhos, um na Parada de Lucas e um no Vidigal. 

Samantha relata que a amiga contaminada pelo coronavírus está sozinha em casa. Todos os parentes tiveram que deixar o local e se mudaram temporariamente para a casa de conhecidos, enquanto ela se recupera. A comunicação da moradora da Cidade de Deus com o mundo exterior está sendo feita por meio de um balde. 

“As doações foram colocadas em um balde e ele foi entregue [à moradora]”, relata Samantha. “As pessoas estão preocupadas. Ajudam como podem. Vejo que somos muito impactados, mas também muito solidários.”

Bruna Prado via Getty Images
Solidariedade tem sido uma marca no comportamento dos moradores das favelas no País. Na do Borel, no Rio, voluntários distribuem alimentos.

Sem um plano especial da administração pública, os 13,6 milhões de moradores de favelas - segundo dados do Data Favela - confiam na solidariedade dos outros moradores. 

Pesquisa do Data Favela, instituto criado pelo fundador da Central Única das Favelas (Cufa), feita com 1.142 moradores de 262 favelas de todo País entre os dias 20 e 22 de março mostra que a preocupação com a saúde por causa do vírus atinge 2 em cada 3 moradores. Assim como na Cidade de Deus, no Rio, em comunidades carentes como na Estrutural, em Brasília, e em Paraisópolis, em São Paulo, aumentaram os relatos de pedidos de doação de itens como sabonete e álcool em gel. 

Nas redes sociais, não faltam publicações de denúncia da situação crítica nas zonas mais vulneráveis do País. 

“Essa é a consequência do desequilíbrio social em que a gente vive”, resume o epidemiologista José Cássio de Moraes, da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). Na avaliação dele, a tendência é que esse desequilíbrio se acentue diante da pandemia. “Epidemias têm essa capacidade de ressaltar as diferenças e também a competência ou incompetência do governo em apoiar a população mais pobre.”

A expectativa dele, com base nos números do Ministério da Saúde sobre a covid-19, é que a quantidade de casos dê um salto nos próximos dias. “Falta de água, não ter dinheiro para comprar álcool em gel nem sabonete, impossibilidade de fazer isolamento são as condições perfeitas para espalhar mais rapidamente todas as doenças respiratórias.”

Epidemias têm essa capacidade de ressaltar as diferenças e também a competência ou incompetência do governo em apoiar a população mais pobre.José Cássio de Moraes, epidemiologista da Abrasco

O epidemiologista enfatiza que essa é a população que mais sofre. “As medidas que estão falando, como trabalhar de casa, não são viáveis para boa parte dessas pessoas. Elas serão afetadas e é preciso que se estabeleça o mais rápido uma medida de apoio para que possa se reduzir o impacto que a doença vai trazer.”

O mesmo pensamento é compartilhado pela professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Raquel Rolnik. “É preciso uma política muito clara de amparo para as pessoas nesse contexto. Não apenas proteção dos efeitos da pandemia, porque estamos falando das medidas de isolamento social que vão implicar muito claramente em perdas econômicas das pessoas que já têm uma renda muito baixa. Isso significa passar fome”, afirma. 

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Dados de março do ano passado da Agência Nacional de Águas (ANA) apontava que quase 35 milhões de brasileiros não tinham acesso a água tratada.

A professora ressalta ainda as condições “absolutamente desiguais dentro das nossas cidades para que as pessoas possam tomar as medidas de isolamento social e sanitárias para evitar ficar doentes e contaminar familiares e a comunidade”. 

Um dos fatores de desigualdade é justamente o acesso irregular que a população tem à água. Dados de março do ano passado da Agência Nacional de Águas (ANA) apontavam que quase 35 milhões de brasileiros não tinham acesso a água tratada na época. Entre os 100 maiores municípios do País, 22 não possuíam 100% da população atendida com esse serviço básico. 

“Estamos falando de milhões de pessoas que não têm o básico. Tanto a população de rua que não tem acesso nem a torneira e água, quanto uma vasta população que não vê constantemente água sair da torneira”, diz Rolnik. 

A professora sugere instalação de pontos de distribuição de água na rua, em assentamentos e territórios populares, além do uso de caixas d’água e caminhões pipas. Outra proposta é reduzir a cobrança das tarifas sociais, que já foi anunciado em algumas cidades como São Paulo. “Ainda não aconteceu em todo País e é fundamental. Se as pessoas lavarem a mão de 5 em 5 minutos, como vão pagar a conta, se ainda vão perder renda?”, questiona.

O governo está ciente da dificuldade. De imediato, para a população de baixa renda, propôs o pagamento de um auxílio emergencial de R$ 600. O benefício, apelidado de “coronavoucher”, deverá ser pago até o feriado de Páscoa. No âmbito da saúde, o ministro Luiz Henrique Mandetta reforçou o pedido para que a população, mesmo nos locais mais difíceis, continue ao máximo com as regras de confinamento. 

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“Vamos, agora, perceber como vai ser a entrada desse vírus nos grandes conglomerados de área de exclusão”, disse o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Na terça (31), ele afirmou que, com os casos confirmados nas favelas, “vamos, agora, perceber como vai ser a entrada desse vírus nos grandes conglomerados de área de exclusão”. “Aí vamos ver o que plantamos [em termos de desigualdade social] nesses anos todos”, completou. 

O número de casos da covid-19 no Brasil passa de 10 mil. Até sábado (4), 432 mortes tinham sido confirmadas, o que indicava taxa de letalidade de 4,2%. O maior número de casos atuais está concentrado na região Sudeste — com 6.295 infectados — 61% de todas as contaminações. São Paulo é o estado com mais alto número de registros: conta 4.466 casos e 260 mortes. Rio de Janeiro tem 1.246 diagnósticos positivos e 58 mortes.