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08/08/2020 07:00 -03 | Atualizado 08/08/2020 07:00 -03

Por que o alto número de mortes por covid-19 já não abala mais

Pandemia atinge 100 mil mortes em 5 meses no Brasil. Especialistas avaliam que 'dessensibilização' da população é defesa frente ao momento traumático.

Em 5 meses, o Brasil viu a covid-19 se alastrar com uma velocidade assustadora. O número de mortos triplicou nos últimos 30 dias. Neste fim de semana, o País atingirá o marco de 100 mil mortes. Este total hoje chega a ser 386 vezes maior do que o número de mortes causadas pelo rompimento da barragem de Brumadinho (MG), em 2019, uma das maiores tragédias recentes no País. 

Desde a semana epidemiológica encerrada em 20 de junho, o Brasil registra mais de 7 mil mortes novas toda semana. A média diária de óbitos na última semana, encerrada em 1º de agosto, foi de 1.016, nível semelhante ao das semanas anteriores. O Brasil registrou mais de mil mortes por dia pela primeira vez em 19 de maio. Desde então, isso aconteceu mais de 40 vezes.

Enquanto a vacina ou outra solução para a pandemia não chega, imagens de bares, ruas, parques, shoppings e praias lotadas e com aglomerações se tornam cada vez mais comuns. O descumprimento de protocolos que coloca em risco a si e aos outros acaba por ser o tornar o “novo normal”, em um cenário de platô de mil óbitos diários que parecem não pesar mais.

“Existem muitas reações em muitos níveis diferentes. É um erro a gente supor que existe uma reação única a este momento”, explica a psicanalista Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo) ao HuffPost. “Uma das questões que está em jogo é o fato de que é muito difícil humanizar esses números. A gente realmente tende a pasteurizar um pouco quando temos números [de mortes] muito altos como estes.”

Bruno Kelly / reuters
Em protesto contra a violência policial realizado durante a pandemia, manifestante segura cartaz com fala do presidente Jair Bolsonaro: "E daí?".

A psicanalista explica que, no caso de uma pandemia que provoca um índice elevado de mortes diárias, alcançar o sofrimento do outro parece impossível. Há um certo distanciamento, que leva a um processo de “dessensibilização” como um mecanismo de defesa. Isso, na avaliação da especialista, não acontece em outros casos, como, por exemplo, o da explosão que deixou mais de 100 mortos e 4 mil feridos em Beirut, no Líbano, nesta semana. 

“Ela [a dessensibilização] é a repetição de um evento traumático que a gente tende a naturalizar para continuar vivendo, para não ficarmos paralisados. Porque hoje, diante do que estamos vendo, seria o caso de parar tudo o tempo todo”, diz Iaconelli. “Para você enfrentar o dia a dia, é preciso abstrair as mortes. Não dá para ficar em estado de choque de forma constante. É um mecanismo que faz o mundo girar, mas ao mesmo tempo tem o efeito negativo de dessensibilizar o sujeito.”

Pilar Olivares / reuters
“A gente lamenta todas as mortes, está chegando ao número de 100 mil talvez hoje, é isso?", disse o presidente Jair Bolsonaro em live nas redes sociais.

Em alguns casos, segundo a psicanalista, para quem não está na linha de frente do combate à doença, ou que não vive de perto as perdas provocadas por ela, esse processo pode deixar de ser apenas um mecanismo de defesa.

“A outra coisa é um certo mecanismo de negar em proveito próprio. Então, um exemplo: ‘eu sei que eu não deveria sair etc, mas, tem cinco meses, não aguento mais’, você vai se justificando, vai sendo condescendente. E aí entra uma certa dose de egoísmo”, diz Iaconelli, que reconhece o cansaço presente em quem cumpre 5 meses de isolamento. “Mas em alguns casos, isso pode chegar a uma indiferença assustadora em relação ao outro. E aí é mais do que ‘eu não aguento mais e vou arriscar porque estou cansado’. É cínico. É ‘eu sei que não posso, mas quero, vou ao bar e ponto’.”

Tanto o descumprimento do isolamento social, quanto a má condução da crise pelo governo federal, segundo a psicanalista, podem se materializar no coletivo e dificultar a construção de uma saída. “O Brasil é um país que nega sua tragédia. Tem uma identidade histriônica e alegre, mas nega a sua tragédia. Ela [a pandemia] é a maior tragédia aguda que a gente já teve, mas há uma tragédia crônica, somos um País dessensibilizado.”

Parte das tragédias nacionais normalizadas se relaciona à violência. Os óbitos causados por agressões por meio de disparo de arma de fogo ou de arma não especificada somaram 36.595 em 2018, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Em 2019, as vítimas de homicídios chegaram a 36.134, segundo o Ministério da Justiça.

Banalização das mortes e ruas cheias

Amanda Perobelli / reuters
"O Brasil é um país que nega sua tragédia. Tem uma identidade histriônica e alegre, mas nega a sua tragédia", diz a psicanalista Vera Iaconelli.

Na avaliação do infectologista Julio Croda, ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, a banalização é fruto de uma sensação de descrença no poder público. ”A maioria da população normalizou esses mil óbitos diários porque acredita que independentemente de quem estaria no poder não haveria nenhuma intervenção que pudesse mudar essa história”, afirma.

Para o sanitarista, esse pensamento tem reflexo imediato na redução do isolamento. “A população, apesar de todos decretos, vai pra rua. Não entende a gravidade porque normalizou, porque acha que isso é a história natural do Brasil, que não tem solução, que seria assim independentemente de quem estivesse lá, independemente da gestão”, completa.

Na liderança de um esforço para comunicar conceitos científicos para a população, a bióloga e fundadora do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, admite frustração após quase um semestre de epidemia no Brasil.

“Pessoalmente é muito frustrante para um comunicador de ciência ver que a gente está falando praticamente as mesmas coisas desde março e não há uma melhora. A gente não vê um engajamento da população. A gente não vê uma compreensão da população sobre as medidas quarentenárias, as medidas de prevenção, os medicamentos, as vacinas. Tem assuntos que estão sendo tratados desde março como o distanciamento social e físico”, afirma.

Devido à forma como é transmitido o novo coronavírus - por meio do contato com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse e catarro - restringir a circulação de pessoas é a única forma de frear a contaminação. 

Reduzir esse ritmo é determinante em um cenário em que os recursos dos sistema de saúde são limitados, desde leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) até médicos intensivistas e medicação usada para sedar pacientes que precisam desse tipo de cuidado.

O esforço de conscientização da população também é limitado pela atuação dos governantes, seja nos discursos, seja nos decretos de reabertura do comércio. A transmissão do vírus controlada e um sistema de saúde com capacidade de detectar, testar, isolar e tratar todas as pessoas com coronavírus e os seus contatos mais próximos são dois requisitos para flexibilização do isolamento recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e ignoradas pelos governantes no Brasil.

“A gente prioriza bares e restaurantes e prefere nem pensar em abrir as escolas porque teria de fazer realmente alguma coisa mais eficaz para isso acontecer. É muito triste ver que a gente não consegue contar com o engajamento da população para medidas que funcionaram tão bem em outros países, como Alemanha, Coreia do Sul, Nova Zelândia, que estão abrindo com segurança”, lamenta Natália Pasternak.

A bióloga também lembra que “ao mesmo tempo em que a gente se esforça para informar a população, a gente bate de frente com o esforço contrário que vem do próprio governo federal e do Ministério da Saúde, que é um esforço de desinformar a população”.

Desde o início da pandemia, o presidente adotou uma postura negacionista. Enquanto a comunidade científica enfatizava a importância do isolamento social para frear o ritmo de transmissão do SARS-CoV-2, Bolsonaro encampou o discurso de que era preciso “salvar empregos”. O fechamento do comércio nas cidades passou a ser tratado como uma disputa política, em um falso dilema entre economia e saúde. 

As declarações de banalização das vidas perdidas foram recorrentes. Na mais recente, o presidente mencionou durante uma live, marco das 100 mil mortes. “A gente lamenta todas as mortes, está chegando ao número de 100 mil talvez hoje, é isso? Mas vamos tocar a vida, tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”, disse na última quinta-feira (6).

O futuro da pandemia no Brasil

Bruno Kelly / reuters
Vista aérea de cruzes projetando sombras no cemitério do Parque Tarumã, em Manaus.

Apesar de ter sido observado certo arrefecimento da epidemia nas grandes capitais, como Manaus (AM) e São Paulo, a crise sanitária segue grave em boa parte do País, especialmente no interior e em estados do Sul e do Centro-Oeste. 

Quando olhamos os dados acumulados nacionais, os gráficos epidemiológicos assumiram a forma de platô, em vez de um pico de casos e mortes acumulados. Por outro lado, os casos e óbitos diários, que indicam o ritmo da epidemia, não estabilizaram.

Houve uma inversão de comportamento ao longo do tempo, com a interiorização da epidemia. Segundo boletim divulgado nesta quarta pelo Ministério da Saúde, 5.503 (98,98%) dos municípios têm casos confirmados de covid-19 e 3.627 (65,1%) cidades registraram mortes causadas pela covid-19. 

Das 7.114 mortes registradas na semana encerrada em 31 de julho, 52% foram na região metropolitana e 48% no interior, de acordo com o documento. 

Já a média diária de óbitos na última semana analisada foi de 1.016, nível semelhante ao das semanas anteriores. A primeira vez que o Brasil registrou mais de mil mortes por dia foi em 19 de maio. Desde então, isso aconteceu mais de 40 vezes.

Quanto aos casos, a semana encerrada em 31 de julho foi uma das mais graves da pandemia do novo coronavírus no Brasil. A média diária de diagnósticos foi de 44.766, patamar semelhante ao da semana anterior (45.665), recorde até o momento.