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02/04/2020 03:00 -03 | Atualizado 02/04/2020 07:38 -03

Pais de vítima da covid-19 foram internados com a doença logo após enterro do filho

“Os sintomas apareceram no dia do sepultamento. Saímos de lá direto para o hospital”, conta a irmã do jovem de 26 anos, que morava na zona leste de São Paulo e tinha hábitos saudáveis.

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Simone e o irmão, Maurício, uma das 240 vítimas da covid-19 no Brasil.

“Acho que eu não tive tempo de vivenciar o luto e estou tendo que cuidar dos meus pais agora... Está sendo tudo muito difícil, muito forte.” E rápido. Em 12 dias, a psicóloga Simone Suzuki, 36 anos, viu seu mundo virar do avesso. A suposta gripe do único irmão piorou e virou diagnóstico positivo da covid-19. Mesmo com histórico saudável, ele não resistiu. No dia do enterro do irmão, outro choque. A mãe de Simone, de 67 anos, e o pai, de 74, começaram a também sentir os sintomas da infecção pelo novo coronavírus.

O velório de Maurício Suzuki, 26 anos, no último domingo (29), teve duração de uma hora, com presença muito limitada de familiares, caixão lacrado e amigos acompanhando virtualmente por uma videoconferência. “As pessoas não puderam comparecer e também tinham receio de pegar o vírus.”

Os pais de Simone estavam presentes e, até aquele dia. não tinham apresentado sintomas da doença. Mas, durante o velório, o casal começou a se sentir mal. “Saímos de lá direto para o hospital.”

Os dois estão internados desde domingo e, segundo Simone, estão reagindo bem ao tratamento. “Estão em estado estável, aguardando evolução do quadro e fazendo o protocolo com hidroxicloroquina e outros dois medicamentos”, explica. Eles podem receber uma visita diária rápida, de 20 minutos.

Simone esteve com o irmão nos dias que antecederam sua internação. Morador de Itaquera, na zona leste de São Paulo, ele deixou a casa dos pais quando os sintomas ficaram mais fortes e foi se isolar na casa de Simone, que mora com o marido em Diadema, na Grande São Paulo.

Maurício já tinha ido ao hospital uma vez antes, no dia 18, quando estava com febre, mas, por manifestar sintomas leves, foi aconselhado a ficar em casa. Afinal, ele tinha o perfil da minoria das vítimas: era jovem e tinha hábitos saudáveis. Ainda assim, decidiu não voltar para a casa dos pais.

Na segunda vez, no dia 19, ele voltou ao hospital com Simone. Foi então que descobriu que se tratava de uma infecção pelo novo coronavírus. Foi novamente orientado a ir para casa e voltar se os sintomas ficassem mais fortes.

Em quatro dias, ele voltou. Dessa vez já com síndrome respiratória grave. Ficou internado na UTI por 5 dias e não resistiu.

Está sendo tudo muito difícil, muito forte.Simone Suzuki

Além da proximidade do irmão enquanto ele esteve doente, Simone tem acompanhado os pais no hospital. Por isso, ela acredita que pode ter tido contato com o vírus, mas procura não pensar muito sobre isso. “Não tenho muito o que fazer neste momento”, diz.

Nem ela nem o marido, que também teve contato com a família, fizeram o exame por não fazerem parte do grupo prioritário para o teste, que são aqueles com sintomas graves.

Os pais de Simone, que são aposentados, são segurados do Prevent Senior, operadora de 9 hospitais de São Paulo, onde estiveram internadas quase metade das vítimas da doença no estado. Até esta quarta, 79 das 164 vítimas do estado foram atendidas em unidades da operadora especializada em pacientes acima de 60 anos. Desde 9 de março, 186 pacientes atendidos pela rede com covid-19 tiveram alta.

A morte de Maurício é uma das 240 que o Brasil infelizmente conta até agora, com 6.836 casos confirmados da doença. De acordo com o Ministério da Saúde, 89% das vítimas estão acima dos 60 anos, 58,6% são homens e 84% apresentam pelo menos um fator de risco, como cardiopatias, diabetes ou pneumonia.