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15/03/2020 03:00 -03 | Atualizado 15/03/2020 07:51 -03

Redução de leitos em hospitais é principal preocupação na resposta ao coronavírus

Entre 2007 e 2019, Brasil perdeu 28.300 leitos, e situação pode se tornar crítica se houver escalada vertiginosa de casos graves. Ministério prometeu mais 2 mil leitos.

Se houver uma escalada rápida no número de pessoas infectadas pelo novo coronavírus no Brasil, o número de leitos disponíveis na rede hospitalar se tornará a principal preocupação, segundo especialistas. A redução do número de unidades têm sido uma constante nos últimos anos, tanto na rede pública quanto na privada, e ganhou especial atenção nos recentes debates sobre como lidar com a pandemia.

Apesar do aumento de casos na última semana, ainda não houve uma explosão em território nacional, o que poderia sobrecarregar o sistema de saúde. Mesmo com a alta capacidade de disseminação do novo coronavírus, em cerca de 80% dos casos de contaminação, os sintomas aparecem de forma leve. Menos de 5% dos casos evoluem para um quadro grave. A principal preocupação é com idosos e pessoas com doenças crônicas. Em infectados com menos de 50 anos, a taxa de mortalidade é de menos de 1%.

No momento, atual, as internações são recomendadas para infectados com dificuldade de respirar. De acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde no fim da tarde de sexta-feira (13), dos 98 casos confirmados até então, houve hospitalização em apenas 12 (12%). Na sexta-feira (13), o governo anunciou que um desses casos foi curado

Como o vírus é novo, especialistas são cautelosos com os números. Em coluna publicada na Folha de S. Paulo nesta sexta, o médico Dráuzio Varella escreveu que a expectativa é que entre 5% e 10% dos infectados precisem ser internados em UTIs (unidades de tratamento intensivo), cuja oferta ele chama de um dos “calcanhares de Aquiles” do SUS (sistema único de saúde).

Entre 2007 e 2019, houve uma queda de 6,2% no total de leitos disponíveis no Brasil, somando 28.300 unidades, sem contar os leitos complementares, os de UTI e unidades intermediárias. Essa movimentação foi puxada por uma redução no SUS, cuja oferta caiu de 344.152 para 294.968. Na rede privada, por outro lado, houve um aumento de 114.764 para 135.634 vagas.

Para o epidemiologista Pedro Tauil, professor da UnB (Universidade de Brasília), não é possível prever se o Brasil enfrentará a mesma situação da Itália nesse aspecto.

″É imprevisível saber se vamos ter a mesma coisa que está acontecendo nos países temperados do hemisfério norte, como a Itália, a Coreia do Sul, a China. Nós não sabemos. Mas a demanda aos serviços de saúde é o principal problema que vamos ter, se acontecer isso [escalada no número de casos]”, afirmou.

“Nem na Itália eles têm leitos de UTI suficientes para atendimento aos casos graves. Não temos um número suficiente ainda de leitos de UTI para dar assistência adequada aos casos graves que necessitam de assistência respiratória.”

Adriano Machado / Reuters
Entre 2007 e 2019, houve uma queda de 6,2% no total de leitos disponíveis no Brasil, somando 28.300 unidades, sem contar os leitos complementares, de UTI e unidades intermediárias.

Ministério da Saúde prometeu 2 mil leitos para covid-19

Como resposta ao novo coronavírus, o Ministério da Saúde prometeu 2 mil novos leitos. Porém, de acordo com reportagem do Estado de São Paulo, até a última quinta-feira (12), apenas 100 unidades tinham sido habilitadas. A pasta informou, contudo, que nenhuma unidade da federação pediu leitos até o momento.

O ministério informou que há 28 mil leitos habilitados pelo governo federal no SUS. Trata-se de estruturas custeadas pela União, a pedido dos governos estaduais. Nesta sexta, 130 delas foram habilitadas para o estado de São Paulo. Na segunda-feira (16), a pasta deve apresentar um plano de ação nesse sentido.

De acordo com o secretário-executivo do ministério, João Gabbardo Reis, a liberação de leitos será custeada com parte dos R$ 5 bilhões liberados no acordo feito com o Ministério da Economia e o Congresso sobre o orçamento impositivo. Todo o montante servirá para ações de resposta ao surto.

A pasta também recomendou aos gestores locais que seja declarada quarentena se a ocupação de leitos de UTI para o covid-19 atingirem 80%. O raio será definido pelo gestor e pode ser uma rua, quarteirão ou bairro, não necessariamente a cidade. A regulação de quarentena e de isolamento estão em portaria publicada nesta quinta.

Quais são as opções se faltarem leitos?

Atualmente, o País cumpre a taxa de 10 a 30 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes, como recomenda a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o próprio Ministério da Saúde. No entanto, a ocupação é quase total (95% no SUS). De acordo com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), a orientação é que a capacidade de leitos de UTI aumente em 20% em um cenário de avanço da epidemia no País.

A associação sugere que, caso seja necessário, áreas dos hospitais com capacidade de monitorização, como unidade de recuperação pós-anestésica e unidades cardio-coronarianas, sejam locais preferenciais para alocação de doentes críticos. “Estas e outras unidades podem servir como UTI temporária e receber preferencialmente pacientes menos críticos”, diz documento da Amib.

Também é recomendado um levantamento prévio em todos os setores do hospital com todos os equipamentos de ventilação e monitorização disponíveis, em uso ou não. Normalmente, a exigência é que uma UTI tenha autonomia para adequado cuidado dos seus pacientes por 96 horas. “Em situações de epidemias ou pandemias, estes recursos podem ser consumidos de forma rápida e pode ser difícil a aquisição de outros, devido à grande demanda em muitas regiões”, diz o documento.

Para o pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da Fiocruz, Marcelo Gomes, o uso de outras alas hospitalares têm de ser feito com cuidado não só para garantir o atendimento de qualidade, como também assegurar que os pacientes internados não ofereçam risco de transmissão para as demais pessoas naquele hospital.

O especialista vê como positiva a possibilidade de uma parceria com a rede privada, caso existam leitos disponíveis. “Se for o caso de buscar parceiras com a rede privada, é extremamente relevante e deve ser avaliado. Aproveitar uma estrutura que já existe, que pode estar ociosa. É até imprudente não fazer uso disso, mas depende de costura de acordos entre entidade pública e privada. É algo que me parece que está no horizonte do ministério e pode ajudar muito”, afirmou.

Gomes destacou que a redução é um processo que tem piorado nos últimos governos e chamou atenção com a situação emergencial no momento. “Realmente é algo que preocupa porque conta vidas. Se tiver mais gente precisando de atendimento do que leitos disponíveis, existe um problema seríssimo. Vai ter gente que não vai ter condições de ser atendida da maneira adequada”, completou.

ASSOCIATED PRESS
De acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde no fim da tarde de sexta-feira (13), dos 98 casos confirmados de covid-19, houve hospitalização em apenas 12 (12%).

Falta de leitos é problema além do covid-19

O fato de ser um problema sistemático também foi destacado pela professora da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) Deisy Ventura. Ela destaca que a necessidade de mudar esse cenário vai além da crise atual. “A gente vinha de fato diminuindo leitos na rede pública e esse processo tem de ser freado imediatamente. E não é pelo coronavírus. É por tudo que vem pela frente e pelo que aconteceu antes, pelas nossas prioridades de saúde”, afirmou.

De acordo com a especialista, é preciso separar ações de emergência e de manutenção do SUS. “Não é o fato de a gente estar organizando uma resposta de emergência que faz o coronavírus uma prioridade de saúde pública no Brasil. São duas coisas diferentes. Tem de fazer um plano mesmo, ter estratégia de comunicação, se organizar. Mas não tem de ser uma prioridade”, afirmou.

Ventura citou como exemplo o número de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) em 2019. “O Brasil teve mais de 40 mil casos, com mais de 5 mil mortes, com o maior número de óbitos em São Paulo. Se for olhar a origem dessa síndrome, um grande número de casos é influenza, H1N1 inclusive (...) É evidente que o nosso sistema é pressionado. Um sistema que atende, potencialmente, mais de 200 milhões de pessoas, é evidente que tem que ter leitos. Essa é uma questão extremamente importante. O H1N1 nunca parou de matar no Brasil, desde 2009”, completou.