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13/05/2020 03:00 -03 | Atualizado 13/05/2020 12:33 -03

Islândia: Um caso único no mundo que permitirá revelar os mistérios do coronavírus

Os testes em massa são um ponto forte, mas talvez o segredo esteja na genética. Ter uma população extremamente homogênea e estudá-la bem também são pontos a favor.

Com um número de habitantes semelhante ao da cidade de Jundiaí, a Islândia se transformou em laboratório de pesquisa do coronavírus. No entanto, a pequena população do país (cerca de 360.000 pessoas) não é o principal fator a ser considerado. 

Até esta terça-feira (12), a Islândia tinha registrado 1.801 casos de coronavírus e 10 mortes, números muito baixos que contrastam com o alto número de testes realizados (e também se devem a ele). Estima-se que aproximadamente 10% da população já tenha sido testada, uma quantidade 5 vezes maior do que a taxa de testes realizados na Espanha, mas também na Alemanha, um dos países europeus que melhor tem administrado essa crise.

O fator populacional é importante, mas não é só isso. A empresa biofarmacêutica DeCODE Genetics, com sede na Islândia, lidera o campo de estudos genéticos populacionais há mais de duas décadas e agora oferece a todos os islandeses testes de coronavírus de modo voluntário e gratuito sem a necessidade de apresentar sintomas. 

Para Kári Stefánsson, fundador da empresa, a estratégia da Islândia contra o coronavírus não é um grande mistério. “Fizemos mais testes do que qualquer outro país, fizemos um acompanhamento rigoroso dos contatos dos infectados e os colocamos em quarentena”, explica Stefánsson em entrevista ao TRT World. Além de ajudar a combater a epidemia na raiz no país, esses testes preliminares detectaram que aproximadamente 50% das pessoas com resultado positivo não apresentavam sintomas, pelo menos no momento da realização do teste, mas esses são apenas os dados mais superficiais.

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Até esta terça-feira 12 de maio, a Islândia tinha registrado 1.801 casos de coronavírus e 10 mortes.

A Islândia sabe de onde vem cada infecção no país

A empresa islandesa conseguiu rastrear a origem de cada contágio na ilha e identificou 40 linhagens diferentes do vírus. É “um estudo genotipado do coronavírus”, explica o geneticista espanhol Juan José Tellería, professor da Universidade de Valladolid e grande conhecedor do projeto nórdico.

“Desde que o vírus surgiu em Wuhan até hoje, ocorreram pequenas mutações que dão origem a diferentes famílias”, conta Tellería. E o que a DeCODE está fazendo é “primeiro estudar as variantes desses vírus na Islândia, ver a qual linhagem elas pertencem e, dessa maneira, identificar de onde vem o vírus”, disse ele. Essa é uma das medidas. 

Qual é o papel dos genes na covid-19

Por outro lado, “a intenção é cruzar esses dados sobre as linhagens com os dados dos pacientes e sua evolução para verificar se o desenvolvimento diferente da doença entre as pessoas tem uma origem genética, seja pelos genes do paciente, do coronavírus ou uma relação entre os dois”, acrescenta. Em outras palavras: o projeto pretende descobrir os mecanismos usados pelo vírus para agir e se os genes têm um papel específico no fato de que em alguns pacientes a covid-19 é extremamente letal e, em outros, mal se manifesta. 

O que torna essa iniciativa tão promissora são as condições básicas da Islândia, uma população pequena e muito estável geneticamente, e a empresa DeCODE, que já estudou o genoma de quase um terço dos habitantes. “Até onde eu sei, é um caso absolutamente único no mundo. Não há nenhuma experiência semelhante”, afirma Tellería.

“Geneticamente, é uma população muito homogênea, pois quase todos são filhos, netos e bisnetos das pessoas que já moravam na ilha há centenas de anos. Assim, é possível estabelecer redes familiares entre quase todos os cidadãos do país”, ressalta. Além disso, “é uma população praticamente fechada, pois houve muito pouca imigração”, acrescenta ele.

Estudos genéticos para combater doenças

O que a DeCODE fez ao longo dos anos foi aproveitar essa “baixa variabilidade genética” para “identificar fatores de risco em doenças comuns, como hipercolesterolemia, doenças cardíacas, asma ou alergias”, conta Juan José Tellería. O fato de ter uma população tão homogênea não diminui o trabalho, mas deixa tudo mais fácil. “Quando comparamos os genomas de 2 indivíduos, existem 3 milhões de diferenças, então, é muito complexo determinar quais genes são responsáveis por quais características”, explica o especialista.

Essa vantagem genética, além de ter acesso a um bom financiamento, permitiu à DeCODE “estudar e controlar uma grande quantidade de informações”, a partir de estudos genéticos para os quais milhares de cidadãos islandeses se ofereceram. O histórico clínico dessas pessoas também é de propriedade da empresa. Com isso, “é possível cruzar milhões de dados que permitem identificar variantes genéticas relacionadas a patologias comuns”, esclarece Tellería.

Se existe algo que caracteriza os mediterrâneos, é a heterogeneidade genética

O geneticista não esconde o fascínio pela pesquisa islandesa: “o caso da DeCODE é estudado na universidade”, conta. Mas, por outro lado, ele reconhece que um experimento semelhante seria impossível na Espanha. “A população mediterrânea é muito heterogênea, pois há mais de mil anos o Mediterrâneo é o caminho da Antiguidade”, explica ele. “Se existe algo que nos caracteriza, é heterogeneidade genética”. 

Além disso, na Espanha, são muito poucos os estudos realizados sobre o genoma. “Eles são feitos apenas com utilidade clínica”, conta Tellería, ou seja, apenas para pacientes nos quais se busca uma mutação específica com uma finalidade médica. 

De qualquer forma, se a iniciativa islandesa alcançar resultados no futuro, os mediterrâneos (e o resto do mundo) também serão beneficiados. “Sem dúvida, cruzar os dados do genoma do vírus com os dos pacientes significa ser capaz de descobrir como o vírus e o hospedeiro interagem, e isso é universal”, conclui Tellería.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost ES e traduzido do espanhol.