OPINIÃO
21/03/2020 05:00 -03 | Atualizado 21/03/2020 22:30 -03

O inverno rigoroso do coronavírus na França: 'Ontem escrevi meu 1º atestado de saída'

Jornalista brasileira moradora de Reims relata mudanças na vida dela e da família em meio ao isolamento causado por vírus que já atingiu mais de 12,6 mil franceses e matou 450.

Ana Ignacio/Especial para HuffPost
Ruas vazias no noroeste da França.

Reims — Era o assunto que as pessoas mais tinham dúvida. “E o frio, menina?”. Parece que não falar francês e mudar com a família — o que inclui uma criança, na época, com 1 ano e 9 meses — era tranquilo perto do inverno rigoroso que teríamos que enfrentar. Sim, verdade. Faz frio em Reims. Localizada no noroeste da França, a cerca de 120 km de Paris, chove e venta bastante também. Mas passamos bem pelo período mais gelado. Nevou apenas um dia, por poucos minutos. Foi a primeira vez em que eu vi neve. Parecia um efeito especial. E foi só. “Que sorte vocês deram. Esse inverno não fez frio”, ouvimos inúmeras vezes. Parece que não há como garantir como as coisas vão ser. Não controlamos as estações do ano. Veríamos de maneira bem clara desde janeiro, fim do tão temido inverno, que não controlamos muitas outras coisas também.   

As primeiras restrições e medidas concretas da França em relação à covid-19 começaram de fato há uma semana. Na noite desta sexta-feira (20), o governo informava que desde 24 de janeiro, data em que o primeiro caso foi registrado, o país tinha 12.612 confirmações da doença e 450 mortes. Na Europa, o país está atrás da Itália, Espanha e Alemanha em número de casos, mas é o terceiro do continente em número de mortos. E foi somente nesta semana que começou o confinamento mais rígido e controlado da população.

Na noite de segunda-feira (16), um duro pronunciamento do presidente Emmanuel Macron expunha o que já se sentia que estava por vir. Um isolamento semelhante ao que passam os italianos. “Estamos em guerra”, disse o presidente durante seu discurso inúmeras vezes. “Uma guerra sanitária.” A pior crise do tipo em 100 anos.

Além das decisões já comunicadas em discurso anterior, o chefe de Estado anunciava o fechamento total do país. Viagens e deslocamentos desnecessários não devem ser feitos. Visitas aos pais e idosos devem ser adiadas. “Fiquem em suas casas”, era o pedido. O presidente disse também que, se necessário, hotéis seriam utilizados pelo governo para ajudar os hospitais, em caso de falta de leitos. Todas as reformas serão interrompidas – inclusive a da Previdência francesa, que gerou fortes protestos no final de 2019 no país. Uma situação realmente de exceção. 

Hoje é permitido sair em cinco situações: para ir ao trabalho, desde que seja realmente necessário e não haja como fazer à distância; para compra de produtos de primeira necessidade; deslocamentos por motivos de saúde; saídas por motivos familiares “convincentes” como ajudar pessoas vulneráveis ou para cuidado de crianças; e deslocamentos breves, próximos de sua casa, para atividades físicas – proibidas as práticas coletivas – e para passear com animais de estimação. Em todas as situações é necessário sair com um atestado de deslocamento, preenchido a cada dia de saída.

O descumprimento acarreta multa de 135 euros, que deve ser paga na hora da abordagem policial. Para fazer o controle, 100 mil agentes de segurança foram deslocados no país. As medidas de isolamento valem por, no mínimo, 15 dias.

Realmente acredito que neste momento o isolamento é o mais seguro a se fazer. Um pacto coletivo de cuidado. E não só para agora. Porque depois da “guerra sanitária”, outras batalhas duras virão – sociais, financeiras e econômicas.
Ana Ignacio/Especial para HuffPost
Para as pessoas saírem de casa, na França, é necessário assinar um atestado de deslocamento.

Na prática, todas essas mudanças foram quase de um dia para o outro. Na quinta-feira da semana passada houve o primeiro anúncio do governo que indicava que as escolas, creches e universidades seriam fechadas a partir da segunda-feira seguinte e que aglomerações estavam restritas a um máximo de 1.000 pessoas – manifestações deveriam ser suspensas, eventos culturais limitados e jogos de futebol ocorreram sem torcida. Eram 2.876 casos e 61 mortes.

No entanto, mesmo com o anúncio de que a França entrava no estado 3 de crise, o presidente francês manteve o primeiro turno da eleição municipal no domingo (15), data em que havia 5.423 com 127 mortes. A impressão que tivemos é que não pegou nada bem. Como justificar o pedido para que as pessoas ficassem em casa se elas podiam sair para votar? O resultado foi uma abstenção recorde de mais de 50%. Na França, o voto não é obrigatório, mas é visto como um dever cívico. O segundo turno já foi adiado pelo presidente.

Antes dessas medidas todas, falava-se apenas de ações mais específicas. Para mim, o primeiro contato oficial com a palavra “isolamento” em francês foi em 29 de janeiro. O e-mail do Centro Internacional de Estudos Franceses, da Universidade de Reims Champagne-Ardenne, onde estudo, era direcionado aos estudantes que estivessem na China, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Malásia ou Japão. O curso, destinado para estrangeiros, possui alunos de todas as partes do mundo. No comunicado, as recomendações que hoje se tornaram corriqueiras – evitar contato com pessoas que tenham problemas respiratórios, lavar as mãos e, se necessário, criar distanciamento social para evitar possíveis contaminações. Parecia algo pontual naquele momento.  

Um mês depois, em 28 de fevereiro, o comunicado já incluía atenção para quem tivesse passado pelo Irã e pela Itália e pedia para que pessoas nessa situação não fossem à universidade. O país registrava 100 casos e duas mortes. A partir do início de março, a curva de contaminação cresceu rapidamente. No dia 11, já eram mais de 2.200 casos e 48 mortes.

Houve uma corrida para os mercados. Mas não parecia um caos. Era um clima mais de prevenção do que estoque para o fim do mundo. Alguns produtos realmente sumiram das prateleiras – já antes dos anúncios e medidas oficiais do governo, aliás, o que fazia a gente sentir que as coisas iam piorar. Mas no geral, encontra-se o que precisa.

Os idosos, grupo considerado mais frágil e de risco para o vírus, são muito ativos aqui na França. Isolar-se não deve ser fácil para eles.

Os supermercados grandes começaram a fazer controle de entrada nos estabelecimentos para evitar aglomerações e lotação. Cria-se uma grande fila do lado de fora para poder entrar. Muita gente vai às compras com luvas cirúrgicas e plásticas, máscaras e cachecol amarrado na frente da boca. É esquisito. Mas não senti até o momento um clima de hostilidade e pânico geral... Claro, pode ser um privilégio de quem está em uma cidade de médio porte, autossuficiente por causa da produção de champagne, principal atividade econômica de Reims, e do turismo - a região toda tem cerca de 1,3 milhão de habitantes. Mas sim, as ruas estão vazias, tudo está fechado.

Fora as restrições de deslocamento, o governo francês apresentou inúmeras medidas que dão mais segurança e estabilidade às pessoas: aos assalariados, 84% do salário líquido está assegurado. Os funcionários terão seus contratos pausados – algo equivalente ao afastamento pelo INSS no Brasil. Além disso, pequenas empresas e microempreendedores poderão não pagar as contas de água, gás, eletricidade e aluguel, e tiveram o pagamento de impostos e contribuições para a previdência social suspensos.

A situação é crítica e grave e já percebemos isso há algum tempo por aqui. É difícil não se assustar com todas as notícias e com as informações de saturação dos hospitais – a região onde moro é a que possui menos leitos livres no momento. Os idosos, grupo considerado mais frágil e de risco para o vírus, são muito ativos por aqui. Isolar-se não deve ser fácil para eles. Mas, em meio a tudo isso, veem-se demonstrações de solidariedade.

Vizinhos se oferecem para fazer compra para os outros, que talvez não possam sair. A universidade tem mandado e-mails com frequência. Me chamou atenção um em que o diretor do curso falava sobre o cuidado para quem estivesse se sentindo sozinho. Ele disponibilizou um número para que os alunos liguem e conversem com uma funcionária da faculdade. “Ela pode responder suas questões, passar alguns minutos falando em francês. Rir, fazer piada. Desdramatizar, relativizar. Compartilhar suas receitas de cozinha. Ela pode até mesmo cantar uma canção”. Achei simpático.

Entre as mensagens trocadas com amigos que fiz aqui, estrangeiros, brasileiros e franceses, a mesma despedida, de certa forma carinhosa, – muito repetida também pelo governo – “Cuide-se” e “cuide dos próximos a você”. Fora isso, muitos e-mails e SMSs dos órgãos públicos informando sobre as medidas, fechamento dos serviços e disponibilizando links para informações.

Ana Ignacio/Especial para HuffPost
Apesar do isolamento, jornalista diz que se sente segura e amparada pelo governo na França.

Sinto que eu e minha família estamos seguros e amparados na França. Mas olho para além dessa fronteira - fechada atualmente, mas talvez frágil. Vejo os casos aumentando também de maneira rápida no Brasil e em diversos outros países. Estou aqui, mas muitos amigos queridos e a maior parte da minha família, não.

Percebo que as restrições também aumentam no Brasil. Sei que é duro. Mas por outro lado, fico mais tranquila com isso. Realmente acredito que neste momento é o mais seguro a fazer. Um pacto coletivo de cuidado. E não só para agora. Porque depois da “guerra sanitária”, outras batalhas duras virão – sociais, financeiras e econômicas. O governo vai continuar cuidando de todos? Como será no Brasil? O que o governo vai poder assegurar aos assalariados e aos tantos trabalhadores informais por lá? Bom, sem pânico, dizem os especialistas.

Para os próximos dias, uma rotina certamente alterada e de desafios. Trabalhar, estudar e ficar com meu filho, tudo ao mesmo tempo, por um período que não sabemos exatamente quanto vai durar — o prazo de 15 dias é o mínimo. Minhas aulas passarão a ser online. Meu filho não terá creche.

Os dias ficaram bem mais cheios, mas é bom de certa maneira. As crianças nos obrigam a pensar na necessidade do agora. Nos fazem desligar um pouco do noticiário monotemático. Ler uma história sobre bichos. Brincar com bexiga. Qualquer urgência desse tipo.

Quarta-feira, escrevi meu primeiro atestado de saída. Dia 18 de março. Deslocamento breve, a proximidade do domicílio. Somente para dar essa volta na rua de trás da minha casa.

Meu marido, que trabalha com serviços de primeira necessidade, se divide entre um home office parcial e a rua. Parece que mesmo as empresas não sabem bem como lidar com a crise. Entrei em grupos de pais no WhatsApp para lidar com o confinamento. A ideia é “não enlouquecer e ter ideias de atividades para fazer com as crianças e adolescentes”. Achei justo. No isolamento, algumas pontas se unem. Curioso como o que separa pode também unir as pessoas.

Nesta semana, após o almoço, saí com meu filho no carrinho na rua pela primeira vez. Ele, com 2 anos e 7 meses, pedia para passear – e a tática é praticamente infalível para fazer uma criança dormir. Parece que os pequenos não se preocupam muito com o vírus. Ensinei que quando ele tossir ou espirrar ele pode colocar a mão na frente da boca e depois lavar com água e sabão. Ele parece que entendeu. Sempre após o espirro ele olha para mim, coloca as costas da mão no rosto e sorri. “Assim, mamãe?”. Sorrio de volta e respondo que sim. O importante é passar o espírito, penso eu.

Quarta-feira, escrevi meu primeiro atestado de saída. Dia 18 de março. Deslocamento breve, a proximidade do domicílio. Somente para dar essa volta na rua de trás da minha casa.

Foi rápido, como indica a recomendação do governo. Cruzei com duas pessoas que passeavam com o cachorro. Uma usava máscara. Meu filho dormiu. Na volta, reparei nas flores que já começam a aparecer em algumas árvores. Na cidade já há várias. Algumas são rosadas e outras são brancas. A grama também está com flores amarelas, bem pequenas. É a chegada da primavera. Mas já aprendi. Não há como ter certeza de como será. Eu espero que haja flores nesta estação. Mesmo que eu esteja em casa e não possa vê-las.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.