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29/06/2020 09:37 -03

Depois da tempestade não vem a bonança: Assim será a Espanha depois do coronavírus

Economia da Espanha deve encolher 8% este ano, mais que o dobro do que caiu em 2009. Alto índice de desemprego e grande dívida pública são fardo pesadíssimo.

Europa Press News via Getty Images
Policial distribui máscaras na estação Norte, em Valencia, após o retorno à ativa dos trabalhadores em atividades não essenciais.

É muito pior do que um banho de água fria. O FMI (Fundo Monetário Internacional) apresentou um cenário desolador para a economia mundial em 2020 por conta do coronavírus. O organismo internacional não tem dúvidas de que o choque será pior que o da crise financeira de 2008. Com uma queda de 3% no PIB, o colapso será o pior desde a Grande Depressão, que começou em 1929.

A pandemia atacou com virulência tamanha, que não importa se um país é rico ou pobre: ninguém vai se salvar. “Pela primeira vez desde a Grande Depressão, tanto as economias avançadas quanto as de mercados emergentes e em desenvolvimento estão em recessão”, afirmou a economista-chefe do FMI, Gita Gopinath. Mais uma vez, porém, a Espanha vai sair muito mal na foto: sua economia deve encolher 8% este ano, mais que o dobro do que caiu em 2009. Como esse colapso pode afetar os cidadãos?

Alto índice de desemprego voltará a atingir os espanhóis

Os fantasmas voltam a pairar sobre a economia espanhola, que ainda não havia se recuperado plenamente das sequelas deixadas pela crise anterior. O alto índice de desemprego e a grande dívida pública, que gira em torno de 100% do PIB, são um fardo pesadíssimo em um país onde a pandemia já ceifou mais de 18 mil vidas.

“A perspectiva assinalada pelo FMI é de apocalipse econômico. Na Espanha, sobretudo, será uma calamidade devido ao nosso modelo econômico, altamente dependente do turismo”, declarou o professor de economia José María Gay de Liébana.

Uma das consequências mais visíveis dessa queda da economia será que o índice de desemprego deve alcançar uma média de 20,8% em 2020, segundo as previsões do FMI. É um número terrível quando comparado com o do ano passado, em torno de 14,1%. De fato, é a taxa de desemprego mais alta desde 2015. Como se quatro anos de recuperação tivessem desaparecido de repente, sido apagados instantaneamente. E essa cifra não inclui os mais de 3 milhões de trabalhadores com emprego suspenso por estarem submetidos a um expediente de regularização temporária de emprego (ERTE, adotado durante a pandemia).

“Meu receio é que a crise será especialmente dura na Espanha devido ao peso do turismo e do setor de serviços. A crise de demanda após o confinamento pode ser especialmente severa. As medidas do governo são pensadas para uma queda muito temporária da atividade em função do confinamento – é o caso dos ERTEs, ou das moratórias. Mas não se descarta que, uma vez passado o confinamento, precisemos de medidas mais tradicionais para incentivar a demanda”, assinala Ignacio González García, professor de economia na American University, em Washington.

Meu receio é que a crise será especialmente dura na Espanha devido ao peso do turismo e do setor de serviçosIgnacio González García, professor de economia na American University, em Washington

O impacto forte do coronavirus sobre o emprego já pôde ser comprovado em março, quando cerca de 900 mil vagas de trabalho foram destruídas em 14 dias. Mais uma vez, os mais afetados foram os trabalhadores em situação precária. Dois de cada três trabalhadores que ficaram desempregados tinham contratos temporários.

“O mais importante nessas horas é continuar tomando medidas para evitar a destruição do emprego, como vem ocorrendo desde 18 de março”, destaca Carlos Bravo, secretário de políticas públicas e proteção social da confederação sindical Comissões Operárias.

Os setores mais afetados pela parada brusca serão o turismo, o setor hoteleiro e, em menor medida, o comércio, devido ao fechamento temporário desses estabelecimentos durante o estado de alarme. Esses setores funcionam de maneira fortemente temporária. Soma-se a isso a paralisação do turismo internacional, um setor que representa 12% do PIB espanhol e que vai demorar a se recuperar.

“Se a crise for muito temporária, é possível que os ERTEs evitem que voltemos para números semelhantes aos de crises anteriores. Mas se a demanda continuar prejudicada mesmo após o fim da quarentena, é possível que vejamos uma resposta de emprego mais semelhante a de outras crises”, afirma González.

A temporariedade do mercado de trabalho exerce efeitos claros sobre a economia de muitas famílias. Muitos desses trabalhadores demitidos em março não recebem auxílio-desemprego. As agências de emprego já têm 3,5 milhões de trabalhadores inscritos, dos quais apenas 2,4 milhões recebem auxílio econômico.

“Mesmo que a recuperação seja tão rápida quanto preveem os mais otimistas, a situação do emprego no país é de baixa qualidade, com muita precariedade. Existe um grande coletivo de pessoas que entram e saem do mercado de trabalho com frequência, que trabalham poucas horas e são trabalhadores pobres”, assinala Liliana Marcos, especialista em políticas públicas e desigualdade na ONG Oxfam Intermón.

Taxa de desemprego na Espanha por ano, com previsões do FMI para 2020 e 2021.

A desigualdade crônica no país

A pandemia de coronavírus pegou a Espanha em um momento delicado, com muitos problemas pendentes, como a desigualdade. O colapso da atividade econômica será sentido especialmente entre os setores da população mais vulneráveis.

“Não há dúvida de que a pandemia terá grande impacto sobre a população espanhola, que é altamente desigual. Já saímos da crise de 2008 pouco coesos. Até pouco tempo atrás éramos o segundo país mais desigual da União Europeia. Melhoramos nesse quesito, agora somos o sexto, mas todos esses avanços podem facilmente ser jogados no lixo”, diz Liliana Marcos.

A redução da pobreza ainda é uma questão pendente. “Nosso sistema de proteção social é falho quando se trata de reduzir a pobreza. Dos 27 países-membros da UE, somos o 22º colocado em termos de nossa capacidade de reduzir a pobreza”, assinala.

Juntamente com outras organizações, a Oxfam Intermón defende a adoção de uma renda mínima estatal para combater a pobreza, dando como exemplo a seguir as rendas mínimas existentes nas comunidades autônomas do País Basco e de Navarra. “Conseguimos melhorar nosso sistema com uma renda garantida, para que não falte o essencial para nenhuma família, e que possa reduzir as zonas de pobreza grave. Para diminuir a pobreza grave, em que vivem cerca de 4,2 milhões de pessoas, precisaríamos de uma inversão adicional de 6 bilhões de euros por ano”, ela explica.

Nosso sistema de proteção social é falho quando se trata de reduzir a pobrezaLiliana Marcos, especialista em políticas públicas e desigualdade na Oxfam Intermón

Nos últimos dias, o governo espanhol vem negociando justamente uma renda mínima vital para ajudar as famílias mais carentes. O ministro de Inclusão, Previdência Social e Migrações, José Luis Escrivá, calcula que essa ajuda pode ser dada a 1 milhão de famílias. Mas há uma discussão interna sobre a conveniência de essa medida ser implementada imediatamente ou não.

A recuperação será mais lenta do que se pensava

A recuperação econômica vai demorar mais do que muitos especialistas previam quando a pandemia começou. O FMI estima que o índice de desemprego cairá para 17,5% em 2021 e que a economia crescerá por volta de 4,3% nesse ano, recuperando apenas metade do terreno perdido.

“As previsões apontam para uma queda forte da atividade em 2020, consistente com as fortes medidas de contenção adotadas para limitar a extensão da pandemia e, posteriormente, uma retomada a partir do quarto trimestre e uma recuperação importante em 2021”, indicam fontes do Ministério de Assuntos Econômicos. “Uma crise intensa, mas de duração limitada.”

Essa reativação da economia não será possível se a pandemia não for controlada e se não forem tomadas mais medidas para frear a sangria. Os especialistas usaram letras do alfabeto para exemplificar os três tipos de recuperação possíveis: V, U e L. “Na ausência de decisões econômicas complementares, o FMI prognostica que certas economias sofrerão uma contração notável durante este exercício”, diz Jonás Fernández, deputado do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) junto ao Parlamento Europeu. “O mais negativo é a recuperação mais lenta para 2021. O FMI está fazendo uma previsão em forma de U em vez de V.”

“O risco que corremos é de estagnação. A chave é esse plano de reativação econômica, que é preciso colocar em andamento. Está sendo priorizada a substituição de rendas, que é correta, mas é preciso ir mais longe. Vamos precisar de medidas para estimular a atividade, para evitar que se consolide essa perda de emprego que já ocorreu”, diz Carlos Bravo, do Comissões Operárias.

O dirigente sindical acredita que, uma vez passada a pandemia, será preciso uma revisão do sistema fiscal para que essas medidas possam ser financiadas no longo prazo. “Nossa estrutura fiscal precisa se equiparar à de nossos parceiros europeus”, ele explica. 

Ascensão do populismo

Um dos efeitos colaterais possíveis da crise econômica é a ascensão dos partidos populistas na União Europeia, como já foi verificado em outros países como a Alemanha, com o crescimento da Alternativa para a Alemanha, e a França, com a Frente Nacional.

A mesma coisa foi vista durante a crise financeira. “Os movimentos populistas chegaram à Europa muito antes da covid-19. Começaram a crescer nitidamente, aproveitando a onda de euroceticismo e xenofobia desencadeada pela crise de 2008. A chamada direita radical populista governa ou influi sobre os governos de quase metade dos países da UE”, lembra Augusto Delkader Palacios, professor de relações internacionais da Universidade Aberta da Catalunha.

Esses movimentos ainda não alcançaram a mesma força que na Espanha, embora a formação de ultradireita Vox tenha se posicionado como o terceiro partido com maior representação no Congresso ao obter 15% dos votos nas eleições gerais de novembro de 2019.

“Eles podem reaparecer na Espanha com mais força agora?”, indaga Delkader. “É um risco que enfrentamos, sem sombra de dúvida. Os discursos nacionalistas e antiglobalistas e as visões antielites podem se fortalecer ainda mais se o Estado de bem-estar social não for reforçado e se não forem garantidos níveis mínimos de igualdade para poder frear a insatisfação e o desafeto político. A simplificação de mensagens e o ‘nós” schmittiano versus ‘eles’ – ou seja, a política como antagonismo – crescem mais facilmente neste tipo de contexto.”

As instituições europeias têm um papel chave a exercer

Diante do impacto forte da pandemia em países como Itália e Espanha, as instituições europeias disponibilizaram 500 bilhões de euros em créditos para os membros do clube que mais precisarem deles.

“As medidas propostas pela Comissão Europeia e o Banco Europeu de Investimentos (BEI) vão facilitar a liquidez dos Estados membros. Ou para suas empresas, através dos sistemas de garantias do BEI, que serão administradas na Espanha pelo Instituto de Crédito Oficial, ou pela cobertura do sistema de desemprego SURE que será usado para os ERTEs. Tudo isso vai permitir uma contenção da queda nas rendas prevista em função da imposição do isolamento”, assinala Fernández. 

Precisamos de um programa de recuperação da economia ao nível europeu para reverter as consequênciasJonás Fernández, eurodeputado do PSOE

A UE está discutindo agora um programa de investimentos para amenizar as sequelas do coronavírus sobre a economia. É algo que o governo espanhol vem descrevendo como um Plano Marshall, uma alusão ao plano lançado pelos Estados Unidos para ajudar os países europeus depois da Segunda Guerra Mundial.

“Precisamos de um programa de recuperação da economia ao nível europeu para reverter as consequências”, diz Fernández. “Precisa ser um instrumento suficientemente ambicioso, dotado de recursos financeiros suficientes. O eurogrupo introduz a necessidade de ser traçado esse plano europeu de investimentos. Agora precisamos que o Conselho Europeu trace o mandato oficial para a elaboração desse plano e que o Parlamento Europeu vote a favor.”

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Espanha e traduzido do espanhol.