Como se mobilizar para enfrentar uma pandemia numa sociedade egoísta?

Não basta o governo dizer “fiquem dentro de suas casas” se de um lado há pessoas socialmente inconsequentes e irresponsáveis e, de outro, trabalhadores sem opção de escolha.
Além da crise de saúde e econômica, valores de humanidade e solidariedade podem estar em xeque diante do avanço do coronavírus.
Além da crise de saúde e econômica, valores de humanidade e solidariedade podem estar em xeque diante do avanço do coronavírus.

Estamos diante de uma crise global, e não dá para negar. Fronteiras fechadas mundo afora (e agora por aqui também), cidades-fantasmas na China e na Europa e uma ameaça que já se tornou real no Brasil com centenas de pessoas infectadas e ao menos 6 mortas em decorrência do novo coronavírus. Por aqui, os governos começaram a agir rápido nas medidas de contenção — fundamentais para “achatar” a curva de evolução da pandemia —, mas lidar com as mazelas de uma sociedade essencialmente egoísta pode ser um dos grandes desafios na luta contra o vírus no Brasil.

Neste caso, o egoísmo mata e tem diferentes facetas. Pode vir dos céticos-negacionistas que fecham os olhos para as projeções científicas sobre a doença e para os cenários emergenciais enfrentados por países com estrutura de primeiro mundo e populações muito menores que a nossa; mas também pode partir de jovens egocêntricos meramente irresponsáveis e inconsequentes, que não ligam para a taxa de letalidade em torno de 0,2% para sua faixa etária, mas esquecem-se que não estão sozinhos no mundo e serão transmissores em potencial para seus pais e avós.

(Ir)responsabilidade individual à parte, é hora de falar da responsabilidade social das empresas, empregadores e dos governos diante dessa crise — atores sociais que embutem outra faceta do egoísmo suicida. “Fiquem dentro de suas casas”, dizem eles. A parte privilegiada da sociedade recolhe-se ao mais moderno estilo “home office de viver”, prefeitos e governadores (com razão) fecham escolas públicas e creches, enquanto a massa mais desassistida da roda da economia, que não tem sequer dinheiro para comprar álcool gel superfaturado, vê-se de mãos atadas entre se expor ao risco ou perder o sustento da família.

Como resolver essa equação? Difícil responder com uma fórmula pronta, já que estamos vivendo um momento de muitas incertezas sobre as próximas semanas e meses e que é inédito para muitos (em especial aos brasileiros).

Mas o que se nota é que, em meio à temerosa crise, uma ação coletiva está ganhando corpo ao redor do mundo com o objetivo de encontrar formas para amenizar os problemas. Milhões estão se reunindo em movimentos para erguer suas vozes e cobrar ações imediatas dos governos e dos setores privados que possam garantir os cuidados, informações e suprimentos que as comunidades necessitam.

Em uma realidade praticamente distópica, em que as pessoas não podem sair às ruas para tomar ação, elas estão recorrendo a mobilizações e campanhas online para exigir medidas rápidas e assistência das autoridades em inúmeros países. Quase 250 mil alemães criaram um movimento cobrando ações contra o corona, mais de 202 mil japoneses fizeram o mesmo. Cidadãos da Europa, Estados Unidos e de outros países das Américas lançam todos os dias petições na internet em busca de uma ação coletiva e nada egoísta contra a pandemia.

Será que já não passou da hora, aqui no Brasil, de agirmos coletivamente e tomarmos ação neste sentido? Alguns já começaram. Nos últimos dias, a plataforma de mobilizações e petições online Change.org tem visto multiplicarem-se os abaixo-assinados que pedem pela interrupção das aulas em escolas e universidades brasileiras. Milhares já assinam um manifesto pelo cancelamento de qualquer evento com aglomeração de pessoas no País, outros tantos exigem a suspensão temporária do pagamento de tributos e contas de água, luz e gás.

O que mais é necessário para garantir a segurança das pessoas e a sustentabilidade econômica do nosso País enquanto atravessamos a pandemia? De que forma os governos, o setor privado e até mesmo os cidadãos precisam ser pressionados ou apoiados?

A mobilização online, a partir da tomada de ação coletiva em busca de medidas positivas, certamente é uma das formas que podem nos ajudar a “driblar” o distanciamento social necessário imposto pelo coronavírus e, de forma virtual e segura, enfrentar uma pandemia nesta sociedade egoísta.

Que tal começar agora mesmo tomando ação nesse esforço que, para ser efetivo, precisa ser coletivo? Fortaleça ou crie uma campanha online; só saia de casa se necessário; leve a sério as orientações de prevenção dos órgãos de saúde; informe-se com qualidade; compartilhe apenas notícias confiáveis; apoie seus funcionários; ofereça ajuda a quem está no grupo de risco; evite sobrecarregar o sistema de saúde desnecessariamente; não entre em pânico, mas não menospreze uma pandemia que já matou 7 mil pessoas em todo o mundo. Não faz sentido esperar as coisas piorarem para começar a agir diante de uma crise global!