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17/03/2020 08:42 -03 | Atualizado 17/03/2020 08:51 -03

Surto de coronavírus desencadeia crise 'sem precedentes' nas companhias aéreas

Orientação médica é evitar viagens, mesmo curtas. “Nosso comportamento vai ter que mudar”, diz professora da Faculdade de Saúde da USP.

Pablo Cuadra via Getty Images
A Associação Nacional das Empresas Administradoras de Aeroportos (Aneaa) estima queda de 20% na movimentação de passageiros nos aeroportos na última semana.

A forma de transmissão e a rápida disseminação do novo coronavírus fizeram com que o setor de transporte aéreo de passageiros se tornasse um dos mais afetados pela pandemia. Os termos usados para se referir ao choque na área têm sido “crise sem precedentes” e “tempos difíceis”. Para se ter ideia, o Ibovespa caiu na segunda-feira (16) 13,92%, porém, ações da Azul caíram 30% e da Smiles, 34,8%.

A Associação Nacional das Empresas Administradoras de Aeroportos (Aneaa) estima uma queda de 20% na última semana na movimentação de passageiros nos 6 aeroportos que administra (Guarulhos, Brasília, BH, Galeão, Natal e Viracopos). E a expectativa é que essa redução de movimento se acentue nos próximos dias.

O dado consolidado leva em conta especialmente as viagens internacionais. Desde a semana passada, uma sequência de decisões de chefes de Estado tem causado impacto imediato no setor. Voos que tinham como destino a China — epicentro da disseminação do vírus — já estavam congelados, mas o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender voos da Europa para os EUA soou como um alerta mundial. 

Por conta própria, companhias aéreas com a American Airlines suspenderam voos para o Brasil. E nesta segunda-feira (16), a Comissão Europeia e alguns países da América Latina anunciaram o fechamento temporário de suas fronteiras. Na União Europeia e em mais quatro países que fazem parte do espaço livre circulação no continente, a entrada está proibida por pelo menos 30 dias. A restrição não atinge o Reino Unido.

Na Argentina, a restrição nas fronteiras por 15 dias veio seguida do anúncio de cancelamento dos voos provenientes da Europa e dos Estados Unidos por um mês. Colômbia, Paraguai, Chile e Peru também anunciaram restrições.

A perspectiva é que a crise se acentue daqui para frente. A conta incluirá também sobressalto na queda de viagens nacionais, impulsionado pela recomendação médica de evitar aglomerações. Ainda na semana passada, o Ministério Público Federal passou a recomendar o cancelamento de passagens aéreas sem taxas para clientes que compraram até 9 de março.

Devido à baixa demanda, Gol, Latam e Azul anunciaram redução na oferta de voos regionais. A Gol vai cortar entre 60% e 70% a capacidade total de voos até junho. As operações internacionais serão atingidas em até 95%. Segundo a empresa, em fevereiro, o impacto do covid-19 foi baixo, mas nos últimos dias houve um declínio significativo. 

A Latam vai reduzir os voos internacionais em até 90% e os domésticos em 40%. “Tomamos essa decisão difícil após o fechamento de fronteiras que impossibilitaram a operação em grande parte de nossa rede. Se essas restrições de viagens sem precedentes forem estendidas nos próximos dias, não podemos descartar novas reduções em nossa operação”, afirmou o diretor comercial e presidente eleito da Latam, Roberto Alvo, em comunicado à imprensa.

A Azul suspendeu voos para Bariloche, na Argentina, e dez cidades brasileiras. De abril em diante, a previsão é de redução da capacidade total em até 50%. 

CEO da Latam, Jerome Cadier reforça que as companhias aéreas e seus clientes estão sendo especialmente afetados. “Essa é uma crise absolutamente sem precedentes na História da aviação comercial”, disse. Presidente da Gol, Paulo Kakinoff, também afirmou estar “ciente da gravidade do cenário”.

De acordo com a a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), a aviação comercial brasileira é um “grande motor” da economia do País. Em 2018, segundo a associação, o setor representou 1,9% do PIB, “impactando a economia em R$ 131 bilhões, gerando 2,37 milhões de empregos e gerando R$ 55,5 bi em salários”.

Redução de voos também significa redução de receitas. A fim de minimizar os impactos da crise, a Abear pediu ao governo a redução de impostos sobre o querosene de avião e taxa zero sobre a venda de passagens aéreas. Entre outros, pediu ainda a desoneração da folha de pagamento, para evitar demissões, e linha de crédito para capital de giro.

Segundo a Folha de S.Paulo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, concordou com algumas dessas medidas. O governo deve permitir que o pagamento de imposto do setor de aviação seja postergado por três meses. Está pendente, no entanto, a decisão sobre a retirada do imposto sobre a querosene de aviação.

Ao HuffPost, César Bergo, presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal (Corecon-DF), afirmou que a expectativa é que esse pacote do governo ajude o setor. “Mas a previsão é que seja apenas um paliativo. Vai ser um período muito difícil não só no Brasil, mas no mundo inteiro”, diz.

Cenário internacional

Afetados pela crise decorrente do novo coronavírus há mais tempo, as companhias aéreas internacionais estão na fase de demissões e corte de voos. A afirmação de executivos é que o momento é mais delicado do que foi o 11 de setembro, em 2001.

 A Delta Air Lines, por exemplo reduziu drasticamente a frota, a “maior redução de capacidade” de sua história. Com isso, as contratações estão congeladas e a empresa anunciou um plano de demissão voluntária. A American Airlines adotou procedimento semelhante. Também suspendeu contratações e criou um plano de folgas voluntárias, sem pagamento. 

 Na Europa, a British Airways já anunciou aos funcionários que deve haver demissões em breve. A KLM, subsidiária da Air France, aguarda apoio do governo para cortar um terço das horas de seus 35 mil funcionários. 

Pablo Cuadra via Getty Images
“Qualquer lugar que você esteja próximo, a menos de um metro de distância, você pode receber partículas. Por isso que tem que evitar aglomerações”, ressalta o epidemiologista e professor da UnB Pedro Tauil.

Orientação médica

Do ponto de vista de vigilância sanitária, as aéreas afirmam que é seguro viajar de avião. Argumentam que as aeronaves são equipadas com filtros especializados que fazem o ar circular a cada três minutos e removem cerca de 99% dos vírus e partículas da cabine. Nota da Abear reforça esse entendimento e acrescenta que “as equipes de atendimento também estão preparadas para atender os viajantes neste cenário”.

Médicos ouvidos pelo HuffPost, no entanto, orientam que passageiros evitem viagens, mesmo que curtas. O médico epidemiologista e professor da UnB (Universidade de Brasília), Pedro Tauil, afirma que, quanto mais próximo de outra pessoa, maior a chance de contrair o vírus se a outra pessoa estiver contaminada. “Qualquer lugar que você esteja próximo, a menos de um metro de distância, você pode receber partículas. Por isso que tem que evitar aglomerações”, ressalta.

Professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Deisy Ventura é enfática: “Não tenho nenhuma dúvida de que o nosso comportamento precisa mudar, mas não por causa do coronavírus. É porque é indecente a gente imaginar que está causando outras doenças, inclusive transmitidas por influenza por uma  absoluta falta de solidariedade e desconsideração com os outros no Brasil”.