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23/03/2020 02:00 -03

Pandemia de coronavírus leva noivos a adiarem casamento e lua de mel

Incerteza sobre próximos meses afeta empresários de eventos; 'A gente sempre falava que mercado de casamento é muito ‘garantido’, quase blindado de crise', diz filmmaker.

“Cada ligação eram muitas lágrimas. Acho que chorei o dia inteiro porque é muito frustrante. Você cria um sonho, uma expectativa em cima disso”, conta a monitora de pesquisa clínica Paula Toni Moreira, de 29 anos, sobre a decisão de adiar o casamento marcado para 16 de maio. A brasileira que mora em Londres desde novembro de 2018 precisou mudar os planos por causa da pandemia do novo coronavírus.

Além de uma das medidas para frear o contágio ser evitar aglomerações - inevitável em festas de casamento -, nos últimos dias, países têm adotado restrições a viagens e fechado fronteiras.

O evento para 150 convidados em um sítio em São Bernardo do Campo (SP) foi remarcado para outubro. “Sou da área da saúde, mas nessa hora é muito difícil separar o racional do emocional porque a gente tem muita esperança, quer que dê certo. A gente está planejando desde janeiro do ano passado”, lamenta Paula.

De acordo com a noiva, a decisão foi tomada na última quarta-feira (18), com a escalada da crise global. Como as mudanças de cenário com o avanço da doença foram aceleradas, o casal ainda tinha, nos dias anteriores, dúvidas sobre a necessidade de adiar. 

Junto com as limitações externas, a preocupação com a família também foi determinante. “A gente pensou muito nos nossos familiares, que a gente não queria expor, e nas pessoas que prefeririam não ir para não se expor. Até que ponto a gente ia fazer uma festa para celebrar e não ia ter todas as pessoas que a gente queria? É muito doído, muito triste, porque a gente tem expectativas, mas esse foi um ponto que pesou bastante na nossa decisão.”

Apesar do desgaste emocional, a monitora de pesquisa comemorou o fato de nenhum fornecedor ter cobrado para remarcar o evento.

Empresários ligados ao setor têm mostrado solidariedade. A designer Bruna Zonatto passou a oferecer convites gratuitos para quem tem de remarcar o casamento. “Foi conversando com uma noiva em um momento de desespero que tive a ideia. Meu contato com os noivos pode durar meses, às vezes passa de um ano, então, além de tudo, a gente cria uma relação afetiva muito especial. Esses acontecimentos abalam os profissionais também, muito além da questão financeira”, afirma.

Juliana Bacelar Costa, sócia na empresa Fernanda Possa Gastronomia, de Salvador, afirma que “está todo mundo sendo bem compreensivo nesse momento em relação à remarcação”. O último evento da empresa, que realiza, em média, 5 por fim de semana, foi em 14 de março e a expectativa é de baixa pelos próximos três meses. Juliana acredita que o impacto financeiro maior será para trabalhadores autônomos, como garçons.

A outra empresa em que trabalha - a Unique, de aluguel de mesas, pratos, talheres e taças - resolveu adaptar os negócios e apostar na chamada “caixinha do amor”: um kit para que as pessoas possam usar em refeições dentro de casa.

Juliana conta que quarta-feira foi um dia decisivo, após recomendação do governo para evitar reunir mais de 50 pessoas. Uma cliente tinha uma festa de noivado marcada para sexta-feira (20). “Os familiares e amigos começaram a não responder para ela, ignorar quando ela perguntava se estavam confirmados. Ela percebeu que a sogra não estava querendo ir, então meio que perdeu todo o sentido. Muita gente da família vinha de fora e não podia vir mais porque a viagem foi cancelada, porque estava com medo, muita gente com criança… aí ela resolveu cancelar”, conta.

Foi também na quarta que a empresária Lais Scarpat, 25 anos, bateu o martelo para adiar o casamento marcado para 18 de abril, em Pedra Azul (ES), planejado há um ano e dois meses. “Agora a angústia recai na tentativa de reorganizar o casamento e conciliar as datas, mas tudo indica que dará certo”, afirma. Ela está negociando uma nova data com os fornecedores.

Para a noiva, o mais difícil foi a incerteza antes de ser possível entender a dimensão da crise provocada pela epidemia. “Essa espera para entender o que seria do casamento, antes de decidirmos mesmo, era mais angustiante do que a própria decisão, pela incerteza inerente ao momento... não sabíamos se teríamos casamento plenamente, se teríamos com algumas faltas ou se teríamos que adiar”, lembra.

FG Trade via Getty Images
Além de uma das medidas para frear o contágio do novo coronavírus ser evitar aglomerações, nos últimos dias, países têm adotados restrições a viagens e fechado fronteiras.  

Lua de mel adiada

André e Laura* não adiaram a festa, no último dia 14, mas tiveram de mudar os planos da lua de mel no México para novembro. “Foi muito difícil [tomar a decisão]. A gente acabou de casar, está feliz. A gente se ama. Mas o clima da lua de mel, a gente não vai viver lá em novembro. A gente vai fazer uma viagem deliciosa em casal, mas não vai ser um clima de lua de mel”, lamenta a noiva.

O plano B do casal que celebrou a união com 180 pessoas em um sítio próximo a Curitiba (PR) foi passar alguns dias em um apartamento em Itajaí (SC). “Até aqui na praia em que a gente está, não tem esse clima, mesmo num apartamento maravilhoso na beira da praia, porque a gente está preocupado. Está cheio de polícia, de notícias. É muito triste não estar tendo clima. Não é culpa de ninguém, mas é triste”, completa Raquel.

O voo era as 20h do dia 16 e eles decidiram mudar às 15h. O custo de remarcar as passagens foi de R$ 2 mil e o prazo máximo era novembro devido à data da compra, mas o valor para cancelar era mais alto. Eles também ainda não conseguiram reagendar duas hospedagens, que somam cerca de R$ 6.500.

Quanto ao casamento, os noivos contam que não houve pressão para adiar porque o cenário até então não era tão grave. “A gente não chegou nem a pensar [em cancelar]”, afirma Andre. “Como a festa começou na sexta e terminou no domingo, era no campo, né… quando a gente chegou na festa estava tudo bem. Quando a gente saiu e voltou para o mundo real, o mundo tinha desandado. Foi assustador”, lembra Laura. 

De acordo com o casal, poucos convidados faltaram, como uma pessoa que estava gripada e tinha familiares que viajaram para o exterior. A pandemia, contudo, teve alguns efeitos depois da festa. Convidados que vieram da Itália, Alemanha e Estados Unidos estão com dificuldades para voltar para casa e colegas de trabalho tiveram de fazer home office.

A pedagoga Sabrina de Azevedo, de 28 anos, também precisou adaptar a lua de mel, apesar de ter conseguido manter a cerimônia, em 7 de março. “Comecei a querer cancelar a viagem para a Tailândia umas duas semanas antes do casamento. As pessoas falaram que era exagero meu e eu deixei quieto. De qualquer forma, eu sabia que não queria sair de casa e ir para a Tailândia em uma situação tão incerta. É muito longe. Nós iríamos ter que fazer escala em São Paulo e Dubai, era muita exposição”, afirma.

No final de fevereiro, a agência de turismo assegurou que não havia motivo para mudar os planos. Em 2 de março, ela e o noivo, Tiago Lopes, decidiram cancelar. “Achamos arriscado, os números só cresciam em outros países. Depois que a situação ficou tensa, após o casamento, a agência nos ligou e começou a nos dar suporte para conseguirmos reembolsos e cancelamentos. Ainda não recebemos nada mas estamos confiando que eles irão fazer o melhor”, conta Sabrina.

O casal então decidiu ir para Gramado (RS) e resolveu tudo em 24 horas. Chegaram dia 10 de março e conseguiram curtir os passeios até quarta-feira, quando a crise se agravou. “Decidimos antecipar nossa passagem de domingo (22) para sexta-feira. Hoje no aeroporto estava um clima bem triste, todos de máscara e preocupados”, afirma Sabrina, que mora em Brasília. Por causa da pandemia, eles precisaram mudar o roteiro e pegar um voo em Curitiba, com escala em São Paulo, para voltar para casa.

FG Trade via Getty Images
Setor de casamentos prevê mercado paralisado nos próximos três meses.

Efeito no mercado de casamentos a longo prazo

À frente da produtora de vídeos ThZ Wedding, Thaís Lopes Vianna destaca a incerteza a médio e longo prazo devido à antecedência, que faz parte da  dinâmica do setor. “A gente estava se preparando para abril desde o meio do ano passado”, conta. “Talvez a gente não tenha noção ainda do tamanho que vai ser o impacto. Se tudo já é a longo prazo, o que está acontecendo agora vai continuar impactando por muito tempo”, afirma.

De acordo com a sócia e filmmaker, abril seria o mês mais cheio, com dois casamentos por fim de semana, em média, pelo menos metade fora da cidade de São Paulo, sede da empresa. A velocidade da escalada da crise na saúde também se refletiu no ritmo de mudanças entre os clientes.

“Na hora em que a gente começou a se preocupar com as aglomerações nos eventos (pois tínhamos datas marcadas muito próximas), as pessoas já começaram a entrar em contato. Foi reação em cadeia, todo mundo pensando exatamente a mesma coisa ao mesmo tempo. O resultado foi que, em menos de 24h, tínhamos todos os eventos dos próximos 2 meses adiados ou cancelados”, conta.

Os casamentos foram todos remarcados e, de acordo com Thaís, “mesmo assim ainda é assustador pensar que tivemos remarcações para agosto e não fazemos a mínima ideia se até lá vai dar ou não pra voltar à normalidade”.

Com os adiamentos e redução da demanda nos próximos meses, a filmmaker destaca a necessidade de se adaptar à nova realidade. “A gente sempre falava que mercado de casamento é muito ‘garantido’, quase blindado de crise, pois as pessoas casam o tempo inteiro, em todos os lugares, sem tempo ruim - e de fato investem e se planejam para isso”, diz.

“Mas além do clima financeiro impedir qualquer planejamento dos clientes nesse sentido, a própria natureza do evento vai continuar insalubre até a situação mudar. Então realmente, é só o começo. Vamos ter que todos nós reinventar durante esse tempo e arrumar uma forma de continuarmos conectados com os nossos parceiros e com os nossos clientes.”

 

* Os nomes são fictícios, pois o casal pediu para não ser identificado.