O coronavírus acabou com meu passatempo predileto: bater papo com desconhecidos

"Foi só começar a pandemia que percebi como essas pequenas interações eram importantes para minha qualidade de vida."

Sou o tipo de pessoa que conta tudo pra qualquer um.

Não consigo evitar. Meu dia nunca estará completo sem um encontro aleatório com um desconhecido, normalmente a pessoa sentada ao meu lado no transporte público. Começa com um papo leve, depois vira uma conversa profunda sobre amor, vida e todo o resto. Falar ajuda minha saúde mental, sem falar que ajuda a passar o tempo nos meus deslocamentos. Me sinto entendida, corajosa.

Lembro de uma vez em que estava no trem para Finsbury Park, dividida sobre meu relacionamento. Decidi perguntar a uma senhora que estava sentada ao meu lado como saber se você encontrou a pessoa certa. Ela pareceu surpresa, mas sorriu e perguntou: “O que diz sua intuição?”

Meus olhos brilharam.

No resto do caminho, ela falou de seus relacionamentos passados – aqueles em que ela não prestou atenção em sua intuição e acabou pagando o preço. Quando desceu, ela disse através da janela: “Faça o que te deixar feliz”.

Foi um conselho simples e poderoso, vindo de uma pessoa que eu jamais veria de novo. Nada muito mirabolante, mas me senti compreendida. Depois daquela conversa, acabei o namoro.

“Sinto falta das longas conversas com as pessoas no supermercado sobre o aumento do preço da banana.”

Quando era pequena, lembro dos alertas sobre os perigos de dar atenção a estranhos. Faz sentido para crianças pequenas, mas acho que no caso dos adultos, não. Segundo pesquisas, conversas com desconhecidos podem te deixar mais contente do que você imagina; no final das contas, essas interações triviais podem dar um senso de conexão humana no seu dia.

Foi só com o começo da pandemia que percebi como essas pequenas interações eram importantes para minha qualidade de vida. Sinto falta das longas conversas com as pessoas no supermercado sobre o aumento do preço da banana. Tenho saudade de rir com alguém no metrô quando minha mala de rodinhas sai rolando até o fim do vagão. Lembro de pedir ao barista para escolher por mim porque sou aquariana e indecisa – e também tenho saudade das conversas sobre a precisão dos apps de horóscopo.

Por que não conversamos mais com os desconhecidos? Sejamos sinceros, normalmente é por medo de dizer alguma estupidez, ou falar demais, ou se abrir demais. E também tem a preocupação de que o outro simplesmente não esteja interessado em bater papo – o mesmo medo de rejeição que nos impede de mergulhar de cabeça nas coisas que queremos pra nossa vida.

É exatamente por isso que acredito que falar com estranhos é tão importante. É um convite a desafiar nossas crenças, questionar tudo o que pensamos e sabemos sobre o mundo ao nosso redor. Também nos incentiva a sermos as melhores versões de nós mesmos – restringir as interações somente às pessoas que conhecemos nos protege de críticas.

Quando optamos ativamente por evitar e ignorar pessoas que não são como a gente, o prejuízo será muito maior que qualquer desconforto causado por uma conversa. Sentir-se pouco à vontade, em minha experiência, faz bem ― como podemos crescer como indivíduos e aproveitar o melhor o que a vida tem a oferecer se sempre escolhermos a opção mais segura? Sair da zona de conforto permite que você expanda seu mundo e descubra novas possibilidades.

“Agora, mais do que nunca, acho que é importante superar nossa relutância em interagir com pessoas que não conhecemos.”

Hoje em dia, os estranhos parecem ainda mais ameaçadores. Como estamos vivendo uma pandemia e devemos nos manter a dois metros de distância, é difícil começar um papo com estranhos. Algumas pessoas até mesmo atravessam a rua só para evitar estar perto de você.

Isso é razoável nos dias de hoje, mas agora, mais do que nunca, acho que é importante superar nossa relutância em interagir com pessoas que não conhecemos. Essas experiências humanas compartilhadas nos aproximam. E, nesta época de incerteza, falar com pessoas que não conhecemos pode ajudar a todos nós a nos sentir conectados. Fazer um elogio, sorrir ou puxar papo pode não mudar completamente o curso de nossas vidas, mas essas conversas aleatórias podem dar um toque de positividade não apenas para a vida deles, mas para a sua também.

A ideia não é deixar melhores o mundo e as pessoas que encontramos? Então vá em frente. Te desafio: converse com um desconhecido hoje e me diga que você não vai se sentir melhor por causa disso. Vale a pena lembrar que as pessoas sempre esquecerão o que você disse, mas nunca esquecerão como você as fez sentir.

Jackie Adedeji é escritora e apresentadora do podcast Jackie Big Tits.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.