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06/02/2020 16:36 -03 | Atualizado 11/02/2020 15:23 -03

Racismo sofrido por chineses na época da SARS volta agora com coronavírus

Especialistas afirmam que sabemos como lidar com a doença, mas não com os casos de racismo que ela traz consigo.

A epidemia de SARS de 2003 quase arruinou as comunidades chinesas no Canadá.

Frank Ye sentiu isso na pele. Agora com 23 anos, cursando mestrado na Universidade de Toronto, Ye tinha oito anos quando estourou aquela epidemia – e mesmo criança começou a enfrentar preconceito na escola.

“Lembro quando as outras crianças no playground diziam que eu tinha de ficar longe porque ‘todos os chineses têm SARS’”, postou Ye no Twitter.

 

Lembro quando as outras crianças no playground diziam que eu tinha de ficar longe porque “todos os chineses têm SARS”, a disseminação do vírus preocupa, mas não vamos permitir que a paranoia se traduza em racismo. Meu coração chora pelas criancinhas chinesas que vão enfrentar racismo por causa disso.

“Quando era criança, não entendia o que era racismo”, disse Ye ao HuffPost Canadá. “Mas, pensando agora, quando as outras crianças pediam para eu ficar longe, era racismo.”

“Na época me senti excluído, sem valor.”

Quando começaram a circular as notícias sobre o coronavírus, canadenses de origem asiática como Ye sentiram que estavam lidando não só com uma nova epidemia, mas também com o fantasma do racismo.

Em 2003, Toronto sofreu muito com o vírus da SARS. Houve 44 mortes na cidade e imediações. Conforme o número de mortes aumentava, as pessoas passaram a evitar restaurantes e supermercados chineses, como noticiou a CBC News na época. Negócios do bairro de Chinatown disseram ter perdido entre 79% e 90% dos clientes.

Carlos Osorio / Reuters
Pedestres na Chinatown de Toronto, 28 de janeiro de 2020.  

Além do impacto econômico, as comunidades asiáticas do Canadá tiveram de enfrentar racismo no nível pessoal. Uma comissão de investigação criada pelo governo de Ontário após o fim da crise descobriu casos de funcionários demitidos só porque eram chineses e inquilinos chineses despejados de seus apartamentos. Funerárias cancelavam o enterro das vítimas quando os corpos vinham de hospitais que atendiam casos de SARS.

Ye está preocupado com a discriminação que as crianças de hoje podem sofrer - como ele sofreu no passado -, já que o noticiário não para de falar do coronavírus.

E ele já tem visto episódios de racismo entre jovens de sua idade. Num grupo de Facebook de colegas da universidade, alguém postou um gráfico falso insinuando que a população de Wuhan, na China – onde começou a epidemia –, estaria tentando arrancar as máscaras dos médicos.

“Acho que desta vez as coisas estão muito piores por causa das redes sociais, onde as pessoas dizem o que querem, seja para ter mais audiência ou para espalhar mensagens racistas.”

Courtesy of Frank Ye
Frank Ye estuda relações internacionais na Universidade de Toronto e enfrentou racismo quando era criança, na época da epidemia da SARS.  

Harris Ali, professor de sociologia da Universidade de Nova York, que escreveu muito sobre o impacto da epidemia de SARS em Toronto, disse que as redes sociais, de fato, são um elemento novo.

Na época da crise da SARS, até mesmo as mensagens de texto ainda eram uma relativa novidade. Agora, as redes sociais permitem que as pessoas “se reúnam virtualmente” – e isso ajuda a amplificar o preconceito já existente.

Em Ontário, milhares de pais da região de York assinaram uma petição demandando que as escolas impeçam que crianças que estiveram na China compareçam às aulas. O secretário da Educação respondeu afirmando que o pedido representava um risco de “demonstrar racismo”.

“Você não via esse tipo de reação em 2003”, diz Ali. “As reações racistas eram mais interpessoais, mais individualizadas: evitar as pessoas na rua, mensagens de ódio deixadas na secretária eletrônica, abusos verbais dirigidos aos centros comunitários sinocanadenses.”

Embora esse tipo de comportamento fosse injustificado e irresponsável, Ali afirma que o anonimato da internet significa que hoje em dia as agressões aparecem mais rápido do que nunca.

“E o impacto psicológico pode ser duradouro”, afirma.

Ali diz que a diferença óbvia da atual epidemia é que, tecnicamente, as coisas estão mais avançadas. O Canadá estava preparado para lidar com o vírus mesmo antes da chegada dele ao país, e as autoridades de saúde pública estão preparadas para se mobilizar com mais agilidade.

“O que não melhorou foi o aspecto social – racismo, estigmatização. Isso continua igual”, diz.

Em 2003, a paranoia em relação à SARS era tão grande que Jean Chrétien, primeiro-ministro na época, fez uma refeição num restaurante de Chinatown, numa tentativa de tranquilizar a população.

Fred Lum/ Globe and Mail/ The Canadian Press
O então primeiro-ministro canadense, Jean Chrétien, toma chá com integrantes da comunidade chinesa de Toronto, numa tentativa de acalmar a população em meio à epidemia da SARS, em 10 de abril de 2003.  

“É um bom gesto de solidariedade, é um bom gesto contra a presunção de racismo”, disse Justin Kong, diretor-executivo do Conselho Nacional Chinês Canadense.

“As pessoas não devem achar que vão ser infectadas só porque comeram num restaurante chinês ou foram a um shopping center chinês.”

Kong afirma que, quando as notícias do novo vírus chegaram ao Canadá, já havia entre a comunidade chinesa o temor em relação ao racismo – graças à experiência de 2003.

Não demorou para que esses temores se confirmassem. Kong viu no Twitter uma postagem do repórter da CTV Peter Akman. O jornalista posava para uma foto ao lado de um barbeiro de origem asiática e que estava de máscara. “Espero que saia daqui SÓ com o cabelo cortado”, escreveu Akman.

 

Isso... é um tuíte ruim, meus amigos.

Depois, Akman pediu desculpas pela postagem.

Mas Kong diz que o mal já estava feito.

“Era só uma pessoa comum trabalhando, o dono de um pequeno negócio, que provavelmente só cortou o cabelo desse cara”, disse. “A única base [para a postagem] era porque essa pessoa era chinesa e estava de máscara.”

Como parte do conselho nacional, Kong está trabalhando para ajudar a monitorar as informações publicadas sobre a doença e ajudar a manter a mídia nos trilhos. Ver um jornalista de um veículo estabelecido postando conteúdo racista não foi um bom começo.

“Acho importante não transformar a questão em algo racial, porque, apesar de o vírus ter se originado na China, todos somos suscetíveis à doença.”

Kong descreveu a paranoia da comunidade asiática do Canadá como uma “marca registrada” de todos os episódios de epidemias.

Acho importante não transformar a questão em algo racial, porque, apesar de o vírus ter se originado na China, todos somos suscetíveis à doença.Justin Kong, diretor-executivo do Conselho Nacional Chinês Canadense

Mas a preocupação não é injustificada. Ye sente o impacto disso no dia a dia.

“É apenas a preocupação de que alguém diga alguma coisa ou olhe torto para você por causa desse vírus, ou que as pessoas te evitem só porque você é quem você é.”

Depois de sofrer o grosso do impacto social e econômico da SARS, em 2003, os sinocanadenses tiveram de reconstruir suas vidas por conta própria. Num relatório pós-SARS, a Aliança Trabalhista Asiática do Canadá observou que, embora o governo tenha reservado US$ 150 milhões para ajudar Ontário a se recuperar da epidemia, nem um centavo foi destinado a negócios ou trabalhadores de Chinatown.

Kong acredita que, daqui para frente, o essencial é encontrar um equilíbrio entre a resposta necessária por parte do governo sem criar um pânico injustificado. Mesmo dentro da comunidade asiática, afirma ele, as reações variam de “tenho muito medo” a “não é nada demais”.

“Você carrega o fardo de se preocupar consigo mesmo e também com seus parentes, que enfrentam uma situação pior que a sua no Canadá”, diz Ye. 

Cole Burston via Getty Images
Autoridades de saúde durante uma coletiva de imprensa sobre o coronavírus, em Toronto, 27 de janeiro de 2020.  

O Canadá deveria começar a pensar em como lidar adequadamente com os impactos sociais dessas epidemias, diz Ali, especialmente quando se sabe que eles serão cada vez mais prováveis por causa da globalização.

“Quando entrevistei o cara que descobriu a SARS, ele disse: ‘Você sabe o que é diferente hoje em dia? No passado, você tinha surto de uma doença numa aldeia e ele era muito limitado, porque a doença se esgotava sozinha’.”

Parte da estigmatização das comunidades chinesas na América do Norte inclui afirmar que a SARS e outras enfermidades são provas de que a China é um celeiro de doenças.

“Isso não faz sentido”, afirma Ali. “Se você estuda doenças infecciosas e suas origens, todas elas têm origem em animais.” Ali diz que os surtos continuarão surgindo simplesmente por causa do nosso estilo de vida.

“Não estou fazendo julgamentos. É uma coisa meio natural.”

Com a grande probabilidade de que epidemias como a do coronavírus voltem a acontecer, fatores “sociais e psicológicos” devem ser considerados tão importantes quanto as questões técnicas ― mas não é o que acontece, afirma Ali.

“As pessoas acreditam que esse é só o lado social”, disse ele. “Talvez porque ele não afete o grupo dominante, mas sim a minoria.”

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canada e traduzido do inglês.